México

Depois de 23 anos, a dolorosa sina celeste se encerra: o Cruz Azul volta a ser campeão mexicano

O Cruz Azul enfrentava uma das secas mais inacreditáveis do futebol internacional, com uma série de vices e derrotas inesperadas

O ano de 2021 será marcado pelo fim de longas secas no futebol internacional. E mais um clube tradicional se uniu à lista daqueles que encerraram sua travessia no deserto para, enfim, soltarem o grito de campeão: o Cruz Azul voltou a erguer o troféu no Campeonato Mexicano após 23 anos de jejum. Os Cementeros até haviam faturado a Concachampions e a Copa do México neste ínterim, mas o tabu na liga nacional tinha ares de maldição, até pelas diferentes formas como o clube insistia em bater na trave. Considerando o modelo de Apertura e Clausura no país, La Máquina acumulava 46 edições do campeonato sem botar a mão no troféu – com seis vices neste período. O alívio, enfim, pôde imperar entre os celestes após a decisão contra o Santos Laguna, com o empate por 1 a 1 se tornando suficiente neste domingo.

O Cruz Azul é um dos clubes mais populares e tradicionais do futebol mexicano. O auge dos Cementeros aconteceu nos anos 1970, um período significativo para o esporte no país, graças à realização da Copa do Mundo. De 1969 a 1980, os celestes levaram sete títulos nacionais e ganharam o apelido de La Máquina. Também foram tricampeões da Concachampions, sublinhando tal dominância. Porém, já a partir dos anos 1980, as glórias minguaram. Apenas na década de 1990 que o clube da capital voltou a brilhar, com o título da Liga MX em 1997 e também mais duas taças da Concachampions naquele período. Só que o fim da seca de 17 anos seria sucedido por um período de penúria ainda maior.

Durante os últimos 23 anos, a história do Cruz Azul foi marcada por frustrações e raros alentos. O histórico de vices começou em 1999, com uma derrota para o Pachuca no gol de ouro. Foram nove anos para os Cementeros alcançarem novamente uma final e, quando conseguiram, emendaram três vices em quatro edições consecutivas da Liga MX entre 2008 e 2009. Sucumbiram diante de Santos Laguna, Toluca e Monterrey. A esperança ressurgiu em 2013, numa final contra o maior rival, o América. Aquele, porém, seria o revés mais traumático. O triunfo das Águilas no jogo de volta foi garantido aos 47 do segundo tempo, graças ao gol salvador do goleiro Miguel Múñoz. Nos pênaltis, os cremas ampliaram o flagelo dos celestes.

Se o coração dos torcedores do Cruz Azul parecia suficientemente maltratado, um alento ocorreu em 2014. Antes da reviravolta contra o América, os Cementeros haviam levado a Copa MX em 2013, encerrando a espera de 16 anos sem títulos oficiais. Já no ano seguinte, ocorreu a reconquista da Concachampions depois de 17 anos. A equipe bateu o Toluca na final doméstica e participou do Mundial de Clubes. Ainda assim, havia um trauma no Campeonato Mexicano que persistia. La Máquina chegou a passar três anos consecutivos fora dos playoffs. E quando voltou a uma final, em 2018, perdeu de novo para o rival América – pelo menos sem os requintes de crueldade vistos cinco anos antes.

O Cruz Azul vinha dando mostras de que poderia reconquistar o Campeonato Mexicano desde 2020. Aliás, a prova irrefutável do infortúnio dos Cementeros ocorreu no Clausura: a equipe liderava a temporada regular, mas a competição foi dada por encerrada em março, por conta da pandemia. Uma nova chance aconteceu no Guardianes 2020, disputado no segundo semestre, com a retomada do futebol. Os celestes terminaram a fase regular na quarta colocação e, depois de passarem pelo Tigres nas quartas de final, pegaram o Pumas UNAM nas semifinais. Aplicaram 4 a 0 na ida e conseguiram perder a classificação com os 4 a 0 sofridos na volta, já que os felinos tinham a vantagem de resultados iguais por virem de uma melhor campanha. Ao menos, seria a última frustração antes do regozijo neste domingo.

Apesar do desempenho razoável em 2020, o Cruz Azul não figurava entre os favoritos para 2021. A começar pela crise administrativa do clube. Billy Álvarez, antigo mandatário dos Cementeros, precisou deixar o cargo por ter virado alvo da justiça mexicana. Tal imbróglio criou uma cisão interna, com disputas entre dirigentes e executivos da Cooperativa Cementera Cruz Azul – a empresa que é dona da agremiação. O técnico Juan Reynoso chegou há apenas seis meses, quando foi demitido sem muitas explicações do Puebla. Já o elenco, envelhecido, se reforçou basicamente com jogadores que voltavam depois de períodos emprestados a outras equipes. Os celestes pareciam pouco cotados ao sucesso.

Mesmo começando com alguns tropeços, o Cruz Azul faria uma campanha excelente desde a fase de classificação do Torneio Guardianes de 2021. A equipe terminou com a primeira colocação na etapa inicial, somando 41 pontos e acumulando 13 vitórias em 17 compromissos. Ainda assim, a conquista dependeria de um bom desempenho nos mata-matas – o que finalmente aconteceu. Os Cementeros iniciaram a fase final revertendo o placar contra o Toluca. Perderam a ida das quartas de final por 2 a 1, mas anotaram 3 a 1 no Estádio Azteca e passaram. Já na semifinal, depois do empate por 0 a 0 contra o Pachuca, La Máquina selou sua passagem à decisão com o triunfo por 1 a 0 no Azteca. Por fim, o último desafio ocorreria contra o Santos Laguna.

Os temores de um novo vice-campeonato foram afastados logo na partida de ida, dentro do Estádio Corona. O Cruz Azul ganhou do Santos Laguna por 1 a 0, gol do meia Luis Romo. Os anfitriões até foram mais ofensivos ao longo da noite, mas o resultado simples dava a vantagem do empate para os Cementeros no reencontro deste domingo. Assim, dentro do Estádio Azteca, o placar de 1 a 1 bastou à festa celeste. Diego Valdés até abriu a contagem com um golaço para o Santos Laguna, mas o uruguaio Jonathan Rodríguez balançou as redes no início do segundo tempo e possibilitou a comemoração do Cruz Azul. Mais de 21 mil torcedores foram permitidos nas arquibancadas e presenciaram o fim do amargor.

O peruano Juan Reynoso teve a honra de se tornar o treinador que conduziu o fim da seca. E sua história no clube remete exatamente ao período glorioso anterior dos Cementeros. Considerado um dos melhores zagueiros da história do clube, Reynoso vestiu a camisa celeste por oito anos, de 1994 a 2002. Ele era exatamente o capitão do time que havia encerrado o jejum no Campeonato Mexicano em 1997. Depois de pendurar as chuteiras, o ex-defensor chegou a trabalhar como assistente do Cruz Azul e dirigia a filial de La Máquina na época do traumático vice contra o América. Depois disso, deu seus próprios passos como treinador e tinha sido bicampeão peruano com o Melgar – botando fim à seca que perdurou por 22 anos em Arequipa. Também dirigiu Real Garcilaso e Puebla, até assinar com o Cruz Azul no início de 2021. Voltou para se tornar ainda mais ídolo. Óscar “Conejo” Pérez, outro campeão em 1997, também está presente como o atual treinador de goleiros.

Já dentro de campo, o jogador mais emblemático do Cruz Azul é o goleiro José de Jesús Corona. O camisa 1 de 40 anos chegou ao Cruz Azul em 2009 e dedicou grande parte de sua carreira em alto nível aos celestes. O veterano conquistou o ouro olímpico como capitão da seleção em 2012 e disputou duas Copas do Mundo como jogador do clube, mas ainda perseguia sua primeira taça do Campeonato Mexicano. No momento em que sua trajetória profissional se aproxima do fim, ele seguiria importante aos Cementeros e pegou o troféu que tanto faltava em sua galeria de conquistas. Teria a honra de erguer a taça. O zagueiro Julio Domínguez foi outro a se consagrar, formado na base e presente na equipe principal desde 2006. Formou uma dupla sólida com Pablo Aguilar, líder da linha defensiva.

Já entre os mais jovens, vale destacar o peso do atacante Jonathan Rodríguez. O uruguaio foi o artilheiro da equipe na fase de classificação e desequilibrou nos mata-matas, com dois gols e duas assistências. Seria ele o responsável pelo gol do título. Também brilhou o centroavante Santiago Giménez, de apenas 20 anos – que é filho do argentino Christian Giménez, atacante dos Cementeros de 2010 a 2018. O garoto seria um nome frequente na fase decisiva e assinalou o gol que valeu a vaga na final. Neste sentido, o meio-campista Luis Romo também resolveu. O mexicano de 25 anos garantiu o triunfo na ida da decisão e ainda deu duas assistências vitais, inclusive para o tento de Giménez diante do Pachuca.

Após a conquista, o centro da Cidade do México se encheu com uma multidão de torcedores para celebrar o fim do jejum, apesar das restrições provocadas pela pandemia – mesmo que o momento sanitário no país seja menos grave que em outras nações da América Latina. Este é o nono título do Cruz Azul no Campeonato Mexicano, na quarta posição entre os maiores campeões, somente quatro taças atrás do rival América. E o feito deste domingo gera uma esperança de que, enfim, o sofrimento se reduza e as glórias possam ser encadeadas sem tanta espera em La Máquina.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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