México

De Seu Madruga, Aguinaga, García Aspe: O tradicional Necaxa está de volta à elite no México

“Yo le voy a Necaxa!”

O bordão não chegou à dublagem brasileira, mas se repetiu em vários episódios originais do seriado Chaves. Seu Madruga usava a frase para ressaltar a própria valentia, bem como para não deixar dúvidas sobre suas crenças. E, no fim, também exaltava um dos clubes mais tradicionais do México, time de coração de Ramón Valdés. Mesmo sem ser tão numerosa, a torcida alvirrubra é conhecida por seu fanatismo – o que se explica por uma história conturbada, que mistura crises e glórias. Já a última reviravolta nesta trajetória aconteceu no sábado: depois de cinco anos, o Rayo volta à primeira divisão do Campeonato Mexicano.

Dono de quatro títulos mexicanos na década de 1930, o Necaxa sofreu sua primeira desaparição em 1943. Ressurgiu na elite sete anos depois, mas voltaria a perder identidade em 1971, quando foi vendido a um grupo de empresários que mudou o nome da equipe para Atlético Español. A decisão causou enorme controvérsia entre os torcedores, que se recusavam a apoiar o “novo” time – e justo na época em que Don Ramón fazia sucesso com seu personagem. O nome original só foi readotado em 1982, com a venda ao Grupo Televisa. Precedeu outro ótimo momento dos alvirrubros, na década de 1990. Sob a batuta de Aguinaga, García Aspe, Luis Hernández e Hermosillo, o Rayo conquistou três vezes a liga e a Concachampions em 1999, o que o levou ao Mundial de Clubes em 2000.

Contudo, o início deste século foi duro ao Necaxa. Os alvirrubros eram vistos como um “clube satélite” pela Televisa, também dona do América. Cediam jogadores às Águias, ao mesmo tempo em que recebiam outros nomes encostados. Diante do descaso, a diretoria resolveu mudar a sede do clube para Aguascalientes, cidade a 500 quilômetros da Cidade do México, buscando um novo mercado e novos torcedores. A transição se combinou com a queda de desempenho até que, em 2009, o Rayo sofresse o rebaixamento. Um ano depois, a equipe buscou o acesso, mas voltaria a cair em 2011. Desta vez, porém, atravessando uma longa agonia, que incluiu também uma crise financeira.

Em 2014, o Necaxa acabou vendido a novos investidores. E os resultados logo começaram a aparecer, ainda que o regulamento no México não ajudasse. Em 2014/15, os alvirrubros foram vice-campeões da segundona, o que não foi suficiente, já que apenas um clube sobe no país. A torcida precisou aguardar um ano para, enfim, comemorar. Neste sábado, a vitória por 2 a 0 sobre o Juárez rendeu o título da Liga de Ascenso, bem como a vaga na primeira divisão. Em abril, o Rayo já havia sido vice-campeão do Torneio Clausura da Copa México.

Pelos investimentos recentes, o Necaxa deixa a impressão de que deverá se manter na elite. Entre os nomes mais conhecidos do elenco estão o chileno Marcos González e o hondurenho Brayan Beckeles. Além disso, a nova direção tenta criar uma identidade maior com a população de Aguascalientes, contando com uma média de público cada vez maior. O mínimo que se deve fazer, considerando a história do clube e o fanatismo daqueles torcedores que permaneceram na Cidade do México. O retorno à primeira divisão é o passo para que o “Yo le voy a Necaxa!” deixe de ser chacota para voltar a ser motivo de orgulho.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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