México

Conseqüência da impunidade

“Isso é Libertadores”, “Na Libertadores, é preciso vencer isso aí”. Tais frases – o tom pode ser resignado, pejorativo ou positivo – são constantemente usadas para se referir a uma série de expedientes utilizados com freqüência por equipes quando disputam a competição. Certamente alguém as usou depois de o jogo Cerro Porteño 2×3 Cruzeiro foi encerrado pela atitude da torcida azulgrana, que atirava pedras no gramado. Como sempre diz o amigo Leonardo Bertozzi, que comentava o jogo pela TV, foram “cenas lamentáveis”.

Dias depois, veio a reação da Conmebol. O Cruzeiro foi declarado vencedor da partida (como se fosse possível esperar algo diferente). Além disso, o Cerro Porteño terá de pagar uma multa de US$ 20 mil e não poderá realizar no Defensores del Chaco seus próximos quatro jogos internacionais como mandante. Não haverá punição ao estádio em si, que continua liberado para partidas de outros clubes e da seleção paraguaia. Analisando em longo prazo, é um sinal de que nada mudará.

Pela própria cultura do sul-americano e do futebol sul-americano, não dá para imaginar, na Libertadores, um comportamento asséptico de torcedores e jogadores, como se fosse a Liga dos Campeões. Ainda que se exija, não vai acontecer. O modo figadal de praticar o jogo, de buscar a vitória, já é algo intrínseco à competição. O problema é que há uma enorme diferença entre a cultura da catimba e atos ilegais ou irregulares. E as autoridades precisam aprender isso.

Por exemplo, enrolar o jogo, fazer cera e ter uma torcida mais barulhenta e intimidadora que o normal é algo aceitável. Pode não ser o cúmulo da lisura desportiva, mas, dentro de certos limites, é algo possível dentro da regra. No entanto, muitas vezes se ignora a observação “dentro de certos limites”.

Violência e cera exagerada sem punição, árbitros coagidos pela torcida, ameaça de agressões físicas por parte dos torcedores, falta proposital nas condições de uso dos vestiários e gramados lamentáveis, entre outras coisas, já passam dos limites. Aí, era hora de as autoridades do futebol sul-americano deixarem evidentes a imprensa, clubes e torcedores onde está a linha entre o ideal, o aceitável e o condenável.

A punição ao Cerro Porteño é de corar de tão inofensiva. Ainda que o futebol paraguaio tenha bem menos recursos financeiros que o brasileiro, US$ 20 mil não é um valor que vá complicar a situação financeira dos cerristas. Pior ainda é a decisão de só tirar quatro mandos de jogo do Defensores del Chaco. Essa medida é política, pois não pune a torcida e finge que coloca a responsabilidade no estádio. Ambos são culpados e isso tinha de ter sido refletido na punição da Conmebol.

“Piedrazos” só são possíveis em estádios que não apresentam segurança. Afinal, os torcedores tiraram as pedras de algum lugar. Assim, a Conmebol devia exigir atitudes da polícia paraguaia para mudar o modo de vistoria de torcedores na entrada do estádio e intervenções no estádio em si para que os torcedores não tenham acesso a eventuais entulhos de obra ou que possam arrancar nacos de concreto das arquibancadas. Enquanto isso não fosse feito, o Defensores não seria liberado para partida internacional alguma. As demais equipes paraguaias (clubes e seleção) que pressionassem os responsáveis por mudança ou encontrassem outro estádio (mesmo que em outro país). Nada disso feio feito.

A torcida cerrista também saiu impune. O Cerro Porteño está liberado para mandar os jogos no La Olla, seu estádio particular, que tem ainda menos condições de segurança que o Defensores. Ou seja, os azulgranas poderão ver seu time jogar em sua cidade sem muitas restrições. Aí, era o caso de a Conmebol definir que os tais quatro jogos de punição ao Cerro não devessem ser fora do Defensores, e sim, com portões fechados.

A Conmebol não quis nada disso. Ligada umbilicalmente à APF (federação paraguaia) e aos clubes paraguaios, a direção da confederação sul-americana não se disporia a punir de verdade. Obrigar a seleção paraguaia a jogar em campo neutro pelas Eliminatórias (conseqüência natural de uma suspensão do Defensores del Chaco, único estádio do Paraguai liberado pela Fifa) seria muito duro para as relações políticas da entidade. O mesmo se pode dizer de uma eventual realização de partidas do Cerro Porteño com portões fechados.

O pior é que o caso nem é inédito. Em 1992, no Pré-Olímpico, o gramado do Defensores virou alvo de pedras atiradas pelos torcedores após o Brasil vencer o Paraguai por 1 a 0. Elivélton foi atingido em cheio e saiu de campo sangrando. De lá para cá, nada de decente foi feito. Se as autoridades não mudam suas atitudes, os torcedores é que não o farão.

Sofrimento bem-vindo
A Pré-Libertadores (oficialmente, primeira fase da competição) não é palco para muitas surpresas. Isso foi ratificado um ano mais. Dos cinco confrontos definidos na última semana, os favoritos confirmaram sua condição. A única coisa inesperada foi a dificuldade de alguns confrontos. Algo marcante nas vitórias dos argentinos Lanús e Arsenal e do mexicano Atlas sobre os frágeis Olmedo, Mineros e La Paz.

O Lanús, atual campeão argentino, foi o que passou maior apuro, apesar de o placar final não sugerir isso. Depois de perder para o Olmedo por 1 a 0 em Riobamba, os granatas venceram por 3 a 0 em casa. O problema foram as circunstâncias da vitória no jogo de volta, com todos os gols marcados no segundo tempo e os dois últimos – os que efetivamente asseguraram a classificação – aparecendo nos 15 minutos finais.

Arsenal e Atlas haviam vencido por 2 a 0 em casa e precisaram apenas administrar a vantagem. Os argentinos tomaram um susto no primeiro tempo e o Mineros fez 1 a 0. Um gol de Calderón logo após o intervalo apagou o fogo venezuelano, mas o time de Cidade Guaiana marcou o segundo gol ainda. O Atlas teve mais dificuldade, pois tomou 1 a 0 do La Paz e não conseguiu marcar o seu. Mas, no final da partida, o time mexicano usou sua experiência para enervar os bolivianos e garantir a classificação sem sofrer uma pressão no final.

De certa forma, esses sustos foram positivos para as três equipes, sobretudo Lanús e Atlas. Pelo orçamento e por serem argentinos ou mexicanos (dois dos três países mais fortes do continente), esses times chegam à Libertadores com expectativas grandes. Talvez maior que as possibilidades reais de triunfo em um torneio que tem Boca Juniors de Riquelme e Palacio, São Paulo de Rogério Ceni e Adriano, Flamengo reforçado em todos os setores e os sempre fortes América-MEX e Chivas de Guadalajara.

Desse modo, a dificuldade em passar por adversários fracos pode ajudar a colocar o pé de Lanús, Arsenal e Atlas na realidade. O que pode ser perigoso para as equipes mais fortes. Foi com consciência de sua pequenez que o time de Sarandi conquistou a Copa Sul-Americana em 2007. O mesmo vale para o Lanús no Apertura argentino. Se jogarem dentro de suas limitações, mas com determinação, esse trio pode dar trabalho aos favoritos. Ainda que continuem como azarões.

Obs.: além de Lanús, Arsenal e Atlas, os outros classificados desta semana foram Cruzeiro e Cienciano, que bateram, pela ordem, Cerro Porteño e Montevideo Wanderers. Os mineiros mostraram que têm muito potencial técnico, apesar de precisarem de ajustes defensivos. Não são favoritos ao título até pela inexperiência, mas podem ganhar de qualquer um em um dia bom. O Cienciano apenas confirmou o que se esperava: usou a altitude em casa e se aproveitou da inexperiência do Wanderers para segurar o resultado no Uruguai.

CURTAS

DATA-FIFA
– Resultados dos amistoso envolvendo países latino-americanos: Venezuela 1×0 Haiti, Trinidad e Tobago 0x0 Guadalupe, Jamaica 1×1 Costa Rica, Uruguai 2×2 Colômbia, Bolívia 2×1 Peru, Venezuela 1×1 Haiti, Honduras 2×0 Paraguai, Estados Unidos 2×2 México e Argentina Olímpica 5×0 Guatemala.

ELIMINATÓRIAS DA COPA 2010
– Começaram as Eliminatórias da Concacaf. E um feito histórico: com um 3 a 1 sobre São Cristóvão e Névis, Belize conquistou sua primeira vitória na história das Eliminatórias de Copas. No outro jogo, as Antilhas Holandesas venceram a Nicarágua fora de casa: 1 a 0.

ALTITUDE
– Cruzeiro e Flamengo ameaçam dificultar a realização de seus duelos contra, respectivamente, Real Potosí e Cienciano pela Libertadores. O motivo é o de sempre: a altitude.

BOLÍVIA
– Estão definidos os semifinalistas da Copa Aerosur del Sur: La Paz, Real Potosí, Universitario e Guabirá. Neste fim-de-semana, começa a decisão da Copa Aerosur entre Blooming e Jorge Wilstermann.

CHILE
– O Colo-Colo acertou a contratação do talentoso meia colombiano Macnelly Torres por US$ 2,4 milhões. O jogador ficará no Cúcuta até o final da Libertadores e se apresenta ao Cacique em julho.

COLÔMBIA
– Começou o Apertura. E com dois clássicos: Atlético Nacional 0x1 Independiente Santa Fe e Millonarios 1×2 Independiente Medelllín.

EQUADOR
– Começa neste fim-de-semana a primeira etapa do Equatoriano. No jogo de abertura, nesta sexta, a LDU Quito venceu o Deportivo Cuenca por 1 a 0, gol de Bieler.

MÉXICO
– A rodada do fim-de-semana tem o clássico tapatío entre Atlas e Chivas de Guadalajara. É o dérbi mais antigo do futebol mexicano, com a primeira partida disputada em 1916. Seria o “clásico abuelo”?

– Ricardo Ferretti, técnico brasileiro das Pumas de la Unam, reconheceu que errou ao colocar formações reservas na Interliga.

– Pela terceira rodada do Clausura, o América venceu o clássico contra as Pumas de la Unam por 2 a 0, o campeão Atlante perdeu em casa para o frágil Tecos de la UAG (1 a 2) e as Chivas de Guadalajara enfiaram 6 a 0 no Morelia.

– Veja a seleção do site Médio Tiempo da terceira rodada do Clausura mexicano: Edgar Hernández (Jaguares de Chiapas); Xavier Báez (Chivas de Guadalajara), Joel Sánchez (Tecos de la UAG), Paulo da Silva (Toluca) e Edgar Solís (Chivas de Guadalajara); Alejandro Argüello (América), César Villaluz (Cruz Azul) e Hugo Droguett (Tecos de la UAG); Salvador Cabañas (América), Sergio Santana (Chivas de Guadalajara) e Miguel Sabah (Cruz Azul). Técnico: Efraín Flores (Chivas de Guadalajara).

PARAGUAI
– Na última sexta, o zagueiro Gamarra anunciou o fim de sua carreira. Ele trabalhará como gerente do Rubio Ñu, time da segunda divisão que tem um projeto ousado: Rubén Ruiz Díaz (ex-goleiro, eterno reserva de Chilavert na seleção paraguaia) seria o presidente e Francisco Arce (aquele mesmo, ex-Grêmio e Palmeiras) ficaria como técnico.

PERU
– Com a classificação do Sport Ancash para a Copa Sul-Americana, o estádio Rosas Pampa terá de passar por reformas no primeiro semestre de 2008. A esperança dos adversários era que o time substituísse a altitude de Huaraz (3.027 m) pela litorânea Chimbote. Nada disso. A casa provisória será o estádio Municipal de Caraz, a 2.235 m.

URUGUAI
– O Nacional conquistou a Copa Suat. Mesmo com 10 homens desde o primeiro tempo, bateu o Peñarol por 2 a 1 de virada. Depois,

VENEZUELA
– Na abertura da terceira rodada, o principal clássico do futebol venezuelano na atualidade: Unión Maracaibo x Caracas. Os capitalinos se deram bem, venceram por 2 a 1 e mantiveram os 100% de aproveitamento.

– A Venezuela empatou em 1 a 1 com o Haiti em amistoso. O jogo foi realizado em Puerto La Cruz.

– Saiu a lista de convocados para o II Jogo das Estrelas do futebol venezuelano. Seleção de venezuelanos: Leonardo Morales (Deportivo Anzoátegui), Geancarlos Martínez (Deportivo Itália), Gerzon Chacón (Deportivo Táchira), Gabriel Cichero (Deportivo Italia), Elvis Martínez (Estudiantes de Mérida), Grenddy Perozo (Deportivo Anzoátegui), Juan Fuenmayor (Unión Maracaibo), Tomas Rincón (Zamora), Miguel Mea Vitali (Unión Maracaibo), Armando Maita (Unión Maracaibo), Alejandro Guerra (Caracas), Evelio Hernández (Zamora), César González (Deportivo Anzoátegui), Salomon Rondón (Aragua), Jorge Rojas (Unión Maracaibo), Jarrin García (Mineros), Johny Carneiro (Mineros) e Cristian Cásseres (Deportivo Itália). Técnico: Noel Sanvicente (Caracas). Seleção de estrangeiros: Juan Carlos Henao (COL/Unión Maracaibo), Daniel Vélez (COL/Guaros de Lara), Wilson Cuero (COL/Mineros), Lucas Bovaglio (ARG/Deportivo Táchira), Marcelo Maidana (ARG/Deportivo Itália), Lidio Benítez (PAR/Deportivo Táchira), Roberto Armúa (ARG/Trujillanos), Fabián Cuéllar (COL/Monagas), Andrés Buendía (COL/Atlético El Vigía), Elkin Amador (COL/Atlético El Vigía), Guillermo Beraza (ARG/Unión Maracaibo), Rolando Escobar (PAN/Deportivo Táchira), Nicolas Massia (URU/Mineros), Amir Buelvas (COL/Atlético El Vigía), Andrés Buelvas (COL/Atlético El Vigía), Zamir Valoyes (COL/Deportivo Anzoátegui), Jaílson dos Santos (BRA/Mineros) e Rodrigo Gómez (URU/Zamora). Técnico: Jorge Pellicer (CHI/Unión Maracaibo).

– O jogo será em 13 de fevereiro.

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Equipe Trivela

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