Colo-Colo agradece a Claudio Borghi

Quem acompanha o futebol latino-americano ficou de olhos arregalados ao ver Boca Juniors 4×3 Colo-Colo. Foi um dos melhores jogos do ano e é forte candidato a ser o melhor desta edição da Libertadores, ainda que falte mais da metade da competição. Duas equipes bem montadas, com ataques rápidos e disposição para se entregar em campo. A manchete em quase todos os veículos é que o Boca Juniors confirmou sua condição de candidato ao título ao virar com 10 homens em campo. E pouca gente se atentou ao fato que, no dia seguinte, Cláudio Borghi deixou o cargo de técnico dos colocolinos.
Sem exagero, pode-se dizer que é o fim de uma fase do clube mais vencedor do Chile. Não que o Colo-Colo entrará em decadência. Pelo contrário, talvez continue a crescer. Mas, se isso ocorrer, será pelo legado deixado pelo treinador argentino. Borghi fez um enorme trabalho em Macul. Pegou um grande em crise e desacreditado e, rapidamente, construiu uma hegemonia local e recolocou os albos na lista de equipes de respeito no cenário continental.
Em 2005, o Colo-Colo era um projeto sem executor. O clube havia sido privatizado. Essa reestruturação administrativa trouxe algum dinheiro ao clube, principalmente depois da entrada na bolsa de valores. Mas tal plano só seria viável em médio prazo se, em campo, o desempenho atendesse às expectativas. O que não vinha acontecendo. Naquele ano, o time caiu nas quartas-de-final duas vezes, sempre para times pequenos e em casa: no Apertura, tomou 5 a 0 (placar somado) do Huachipato e, no Clausura, caiu diante do La Serena.
Foi quando Borghi assumiu. Até então, o argentino era mais conhecido como promessa de craque que não explodiu. Na década de 1980, Borghi levou os Argentinos Juniors ao título da Libertadores e mereceu a convocação para a Copa de 1986 (foi reserva de Maradona, o que não é demérito para ninguém). Foi vendido ao Milan e emprestado ao Como. A partir daí, se perdeu. Não conseguiu mais mostrar a técnica e habilidade do início da carreira. Chegou até a jogar no Flamengo, em 1989. Encerrou a carreira no Santiago Wanderers.
Esse era o currículo do ex-meia. Como técnico, trabalhara no pequeno (e, na época, menor do que é hoje) Audax Italiano e na seleção da Universidad de las Américas. Mas, em Macul, mostrou impressionante intimidade na função de comandar equipes.
Logo de cara, montou um time rápido, com base nos talentos que tinha em mãos. A dupla de armação era Valdivia e Matías Fernández, que criavam jogadas para o rápido e oportunista Suazo. Um pouco atrás, o time tinha a experiente dupla de volantes Sanhueza e Meléndez e o versátil Fierro.
E assim o Colo-Colo seguiu. Valdivia deixou o cube, mas chegou Alexis Sánchez. Sánchez também saiu, mas Fierro se adiantou e passou a jogar como meia-atacante. Suazo foi vendido, mas chegou Biscayzacú. Matías Fernández deu lugar ao colombiano Giovanny Hernández. O Cacique conseguiu criar um sistema em que equipes estrangeiras despejavam milhões em seu caixa. Assim, os investidores tinham retorno e o clube podia repor as vendas, mantendo sempre o estilo de jogo ofensivo, envolvente e confiante.
No Campeonato Chileno, o Colo-Colo foi tetracampeão mostrando superioridade nos torneios de pontos corridos (Apertura 2007) e capacidade de crescer nos mata-mata (Apertura e Clausura 2006 e Clausura 2007). Nunca u futebol chileno tivera um tetracampeão, nem na época do Ballet Azul da Universidad de Chile dos anos 1960. No cenário internacional, o Colo-Colo teve um vice da Copa Sul-Americana (2006) e grandes duelos contra argentinos e mexicanos.
Apesar dos resultados, a saída de Borghi era esperada. O técnico já recebera bons convites do México e da Argentina, mas ficara por causa de aumentos de salários no Chile. Mesmo assim, o treinador se desgastara por sempre estar ao lado dos jogadores na negociação por prêmios. Foi esse o motivo da demissão.
A diretoria Alba não definiu os prêmios por títulos ou bom desempenho no Apertura e na Libertadores. Os jogadores pressionavam e Borghi se demitiu no começo da semana. Voltou atrás para não deixar a equipe órfã contra o Boca Juniors, mas pediu o boné no dia seguinte à épica derrota. Deixa o clube após 137 partidas (83 vitórias, 27 empates e 27 derrotas, 307 gols marcados e 157 gols sofridos), um aproveitamento de 67,15% e quatro títulos nacionais. Ainda ajudou o clube faturar alguns milhões, abrindo o caminho para a recuperação do respeito internacional e de um futuro financeiro mais tranqüilo.
Clássicos na Colômbia
Com 18 clubes em grupo único, a primeira fase do Campeonato Colombiano tem 17 jogos, certo? Errado. A Dimayor (liga de clubes) criou um curioso modo de faturar mais e sem prejudicar muito a igualdade esportiva. Cada campeonato tem 18 rodadas, sendo que a rodada a mais é formada por clássicos locais (quem não tem um rival local, enfrenta um adversário de região próxima). Assim, cada time joga metade das partidas em casa e ainda repete o duelo de maior audiência e público. No Apertura 2008, esta rodada de clássico foi no último fim-de-semana.
Como costuma acontecer, a jornada de dérbis deixa marcas no andamento das equipes. Derrotas ou vitórias têm efeitos mais sensíveis e, no caso, em massa. Paraíso para América de Cali e Independiente Medellín, purgatório para Millonarios e Independiente Santa Fe, inferno para Deportivo Cali e Atlético Nacional.
O duelo mais esperado era o dérbi vallecaucano. Além da inerente rivalidade entre Deportivo Cali e América, era o primeiro reencontro dos grandes de Cáli desde a briga entre torcida escarlata e polícia há três semanas. Como mostra de boas intenções, as duas torcidas foram vestidas de branco. Em campo, o jogo também foi diferente do anterior. O favoritismo do Cali se transformou em surpreendente goleada do América, que dominou a partida e aproveitou descontrole emocional do rival a partir do segundo tempo para fazer 4 a 0.
Em Medellín, o clássico era esperado pela boa fase das duas equipes. E, como ocorreu em Cali, o vencedor do primeiro dérbi e deu mal no segundo. Com uma marcação forte, o Medellín anulou o setor de criação do Atlético Nacional e pôde ser mais incisivo ofensivamente. Além dos dois gols, um em cada tempo, o DIM poderia ter feito outro se o árbitro marcasse um pênalti claro de Ospina sobre Diego Álvarez.
O clássico de Bogotá acabou sendo o mais polêmico. Em campo, o Millonarios dominou o primeiro tempo e saiu na frente. No segundo, o Santa Fe foi melhor e conseguiu o empate. O jogo foi muito disputado, com algumas jogadas ríspidas. O que se refletiu no final. Quando o árbitro encerrou a partida, jogadores azuis foram reclamar e um (Bedoya) foi expulso. O mesmo ocorreu com o técnico Mario Vanemarack, que tentou agredir o colega Fernando Castro, do Santa Fe.
Com esses resultados, a liderança passou a três equipes: Medellín, Santa Fe e o surpreendente La Equidad, todos com 17 pontos. Com 15, outra zebra, o caçula Envigado. Entre os grandes, o pior é o Atlético Nacional. Com dificuldades para conciliar Campeonato Colombiano e Libertadores, os verdolagas estão na antepenúltima posição, com 9 pontos.
México: Crise sem fim em Coapa
Já está difícil justificar. No começo do Clausura, dava para entender que o América estava em fase de transição pela troca de técnico. Depois, sentiu as ausências de alguns jogadores importantes. Mas, mesmo com o time completo, as águilas continuam patinando. Na última semana, perdeu em casa para o Toluca e fora de casa para o Deportivo San Martín.
Com esses resultados, o América está na última posição do Campeonato Mexicano (8 pontos em 11 rodadas) e divide a lanterna da chave na Libertadores com a Universidad Católica. No torneio doméstico, são seis derrotas e um empate nas últimas sete rodadas. A perspectiva para os azulcremas não é das melhores. Na Libertadores, vencer os jogos em casa (contra River Plate e Deportivo San Martín) pode ser suficiente para se classificar, mas o cenário no Clausura não dá motivo para otimismo.
A lanterna não é algo definitivo. Faltam seis rodadas para o final e apenas 10 pontos separam o último colocado do terceiro. Considerando que se classificam 10 para o mata-mata, é matematicamente realista imaginar uma série redentora de vitórias na reta final. No entanto, o time já foi tomado pelo desânimo.
A torcida azulcrema já especula com uma eventual falta de vontade dos jogadores. O técnico Rubén Romano diz que isso não ocorre. A má fase seria apenas soma de azar com falta de confiança do elenco. O ídolo Memo Ochoa dá o tom do clima em Coapa. O goleiro afirma que a vitória contra o Veracruz (pior time na média do rebaixamento e segundo pior no Clausura) e necessária para recuperar a honra. Como se já não houvesse chances de classificação.
Para piorar, o time ainda sofreu desfalques em massa. O clássico contra o Cruz Azul há duas semanas foi marcado pela reação épica dos americanistas, mas também pela briga de jogadores. Nesta semana, a comissão disciplinar da federação mexicana anunciou as penas: Sabah e Vigneri (Cruz Azul), Mosqueda, Villegas e Óscar Rojas (América) estão suspensos por seis partidas. Desse modo, só poderão voltar aos gramados na última rodada.
Do modo como a situação se desenha, é pouco provável que o América consiga se classificar para o mata-mata. Um vexame para um time tão bom no papel e com verba para ser a força dominante do país – talvez só igualada pelas Chivas.
SELEÇÃO DA RODADA
Veja a seleção da 11ª rodada do Clausura mexicano do site Medio Tiempo: Carlos Alberto Trejo (San Luis); Sergio Ponce (Toluca), Paulo da Silva (Toluca), Marco Antonio Palacios (Pumas de la Unam) e Ramón Morales (Chivas de Guadalajara); Gonzalo Pineda (Chivas de Guadalajara), Jesús Arellano (Monterrey), Luis Pérez (Monterrey) e Luis Sandoval (Tecos de la UAG); Itamar (Jaguares de Chiapas) e Aldo de Nigris (Veracruz). Técnico: Efraín Flores (Chivas de Guadalajara).



