México

Ciência sim, política não

Cena 1: 27 de maio de 2007. Em reunião de seu Comitê Executivo, a Fifa decide proibir partidas internacionais em locais acima de 2.500 m de altitude, a não ser que haja tempo para adaptação. Um tempo que, dentro do calendário internacional do futebol, seria inviável. Cena 2: 27 de maio de 2008, exatamente um ano depois. A Fifa anunciou que os jogos estão liberados em qualquer altitude, até que se tenha um estudo aprofundado sobre a influência de condições ambientais na saúde dos jogadores.

Finalmente, a entidade que dirige o futebol mundial coloca a ciência à frente da política. Desde que essa discussão ganhou corpo e passou a haver vetos à altitude e posteriores atenuações da medida, sempre foi em cima de política ou de estudos médicos elaborados por agentes com interesse na questão. Isso vale para as pesquisas da CBF sobre os malefícios da altitude e as da Bolívia sobre a ausência de riscos.

Ficou claro que a Fifa estava pautada pela conveniência do momento. Quando a pressão contra a altitude era forte, ela decidia contra os jogos nessas condições. Quando os países andinos reagiam, a entidade mundial voltava atrás. Tudo pouco coerente para quem dizia estar defendendo a integridade física dos jogadores.

Nunca houve plano de longo prazo de reunir uma comissão de profissionais que avaliassem a questão de verdade, e ainda comparassem os efeitos que a altitude pode ter no atleta com a influência de umidade do ar, calor ou frio extremos. A partir daí, pode-se ter parâmetros reais de que altitude, que temperatura e que nível de umidade relativa do ar são aceitos. E chega-se a uma regulamentação muito mais abrangente e justa, pois não atinge apenas os poucos países cujas principais cidades estão nas montanhas.

Pode parecer preciosismo colocar umidade e temperatura no mesmo cesto da altitude. Mas não é bem assim. No ano passado, conversei com Cláudio Borghi (técnico do Independiente, mas, na época, treinador do Colo-Colo) e perguntei se o time de Santiago sofria muito com os jogos na altitude, coisa que fazia duas vezes ao ano – quando visitava Cobreloa e Cobresal – apenas pelo Campeonato Chileno, sem contar competições internacionais. O argentino disse que a altitude não é grande problema para os times do Chile. Muito mais difícil é enfrentar a umidade, que desgastaria demais seus jogadores. Detalhe: o Chile nunca teve interesse em mandar jogos na altitude.

Claro, não se pode ser ingênuo a ponto de acreditar que Joseph Blatter simplesmente colocou a mão na consciência e percebeu que era preciso tratar a questão do ambiente com cuidado. Ele acabou provisoriamente o veto à altitude por pressão da Conmebol e dos países andinos. Esperemos que essa tenha sido a última influência política no debate sobre altitude, temperatura e umidade. Uma questão puramente científica, ainda que não tenha sido tratada de tal modo até hoje.

Veja o passo a passo dessa novela de um ano:

Maio de 2007: Comitê Executivo da Fifa veta os jogos internacionais em cidades a mais de 2,5 mil metros de altitude. Não fica claro, mas, em princípio, a decisão não afeta jogos de clubes.

Junho de 2007: A Conmebol pede para a Fifa retirar o veto pela falta de um estudo conclusivo sobre o assunto. Comitê Executivo da Fifa muda o limite para 3 mil metros de altitude, o que deixa La Paz sem condições, mas libera Quito e Bogotá.

Julho de 2007: Fifa permite que, nas Eliminatórias 2010, La Paz seja uma exceção na regulamentação da altitude e Bolívia confirma sua sede de governo como local de seus jogos nas eliminatórias. Para 2014, os bolivianos teriam de usar outra cidade.

Dezembro de 2007: Comitê Executivo da Fifa anuncia outra regra para a altitude: cidades a mais de 2.750 m não podem receber partidas sem aclimatação necessária da equipe visitante. La Paz está em risco.

Janeiro de 2008: Conmebol anuncia novo apoio à Bolívia e mantém La Paz como sede de jogos nas Eliminatórias. Além disso, confirma que a regra da Fifa não afeta a Libertadores e a Copa Sul-Americana.

Março de 2008: Fifa reafirma a decisão de dezembro e anuncia que, para jogos acima de 3 mil metros de altitude, o time visitante precisa de duas semanas para se aclimatar.

Abril de 2008: Todos os membros da Conmebol, salvo o Brasil, assinam um documento pedindo à Fifa que retire o veto a La Paz.

Maio de 2008: Comitê Executivo da Fifa decide retirar qualquer restrição à altitude, anunciando que nova decisão será tomada depois de o Comitê Médico da entidade realize um estudo profundo sobre a prática de futebol em lugares de condições ambientais extremas, como altitude, temperatura e umidade do ar.

Libertadores: Para decidir em casa

As semifinais da Libertadores continua abertas. As partidas de ida terminaram empatadas, deixando os anfitriões dos jogos de volta como favoritos. No entanto, o histórico dos visitantes dá margem para colocar essa condição em dúvida.

O exemplo mais claro é do Fluminense contra o Boca Juniors. Os cariocas tiveram um grande desempenho em Avellaneda e voltaram ao Brasil com um empate em 2 a 2. Ainda que os boquenses tenham dominado a maior parte do jogo, o Tricolor teve confiança pra absorver a pressão e evitar a vitória dos argentinos. Agora, basta vencer no maracanã (ou empatar em 0 a 0 ou 1 a 1) para o clube das Laranjeiras chegar à decisão. Algo mais complicado do que parece, considerando que o Boca já reverteu um empate em casa por 2 a 2 contra o Atlas e venceu o Cruzeiro no Mineirão.

Para chegar à final, o Fluminense precisará ter o domínio psicológico da partida. O empate em 0 a 0 classifica o time brasileiro à decisão. Com isso, não é necessário se expor demais nos primeiros minutos. O importante é quebrar o ritmo do Boca e impor seu jogo de modo que os xeneizes se sintam desconfortáveis e irritados. Aí, os erros podem aparecer e a vitória se torna mais fácil. Aos argentinos, resta impor seu futebol traiçoeiro, em que parece derrotado até o momento em que uma brecha se abre para o ataque definitivo.

Na outra semifinal, a situação da LDU Quito parece um pouco mais confortável. O empate em 1 a 1 com o América deu a vantagem aos equatorianos, que mostraram um conjunto mais organizado do que o dos mexicanos. Assim, os blancos se adaptam melhor às condições da partida e têm mais facilidade para explorar os erros do adversário.

O América ainda paga pelo período de crise pelo qual passou no Campeonato Mexicano. Ainda que o ânimo tenha voltado a Coapa e os principais jogadores do milionário elenco estejam em fase de crescimento, o padrão tático ainda não é tão sólido. A equipe varia momentos de bom futebol com apagões ou falhas inexplicáveis.

No duelo de Quito, o América precisará usar sua superioridade técnica (individualidades) para desestabilizar a LDU. Assim, será possível enervar o adversário e conquistar uma improvável vitória. Caso contrário, dificilmente os blancos deixarão de ir a sua primeira final de Libertadores.

México: Santos Laguna perto da glória

No Brasil, a crença popular é que um time tem “cara de campeão” quando as coisas “dão certo demais”. Na reta final do Clausura mexicano, a equipe que passa essa sensação é o Santos Laguna. O time de Torreón está bem próximo de seu terceiro título nacional depois de passar pelo Monterrey nas semifinais e de vencer o Cruz Azul no jogo de ida da decisão.

Contra os regiomontanos, o cenário era de desastre. Depois do empate em Monterrey, os rayados venciam em Torreón por 2 a 0 com gols no início do segundo tempo. A 13 minutos do fim, Vuoso recolocou o Santos na disputa. E aos 48 minutos, depois de várias grandes defesas, o goleiro Orozco, do Monterrey, falhou e permitiu que Arce empatasse a partida. Se houvesse a regra de gols fora de casa, os regiomontanos estariam classificados. No entanto, a melhor campanha na primeira fase era o primeiro critério de desempate.

A onda de sorte continuou na final. Jogando na Cidade do México, o Cruz Azul tomou a iniciativa e dominou os laguneros desde os primeiros minutos. Ainda que o jogo fosse aberto e as duas equipes criassem oportunidades de gols, a Máquina Cementera era mais organizada e fez por merecer o gol de vantagem no intervalo, obra do uruguaio Vigneri.

No segundo tempo, o técnico Daniel Guzmán acertou a marcação do Santos e a dinâmica da partida se inverteu. Os guerreros passaram a ter controle sobre a partida e conseguiram o empate com Arce. A partir daí, o duelo se tornou muito equilibrado, com o Cruz Azul pressionando e o Santos partindo em rápidos contra-ataques, puxados por Benítez. E foi justamente o equatoriano que conseguiu mudar o marcador. Aos 40 minutos, o atacante fez grande jogada individual e deu a vitória aos torreonenses.

A partida de volta será neste domingo. O Santos Laguna conquista o título com uma vitória ou um empate. Vitória do Cruz Azul por um gol de diferença leva a decisão para a prorrogação. Triunfo celeste por dois gols ou mais de vantagem leva o título para a Cidade do México.

SELEÇÃO DA RODADA
Veja a seleção das semifinais do Clausura mexicano do site Medio Tiempo: Yosgart Gutiérrez (Cruz Azul); Jorge Estrada (Santos Laguna), Joaquín Beltrán (Cruz Azul), Julio César Domínguez (Cruz Azul) e Rogelio Chávez (Cruz Azul); Gerardo Torrado (Cruz Azul), Walter Jiménez (Santos Laguna) e Francisco Arce (Santos Laguna); Miguel Sabah (Cruz Azul), Humberto Suazo (Monterrey) e Matías Vuoso (Santos Laguna).

Listas de convocados

Bolívia, para as partidas contra Chile e Paraguai nas eliminatórias: goleiros: Sergio Galarza (Oriente Petrolero), Carlos Arias (Bolívar) e Hugo Suárez (Real Potosí); defensores: Limbert Méndez (Jorge Wilstermann), Ronald Rivero (Universitário), Santos Amador (Real Potosí), Ronald Raldes (Rosario Central/ARG), Luis Gutiérrez (Oriente Petrolero), Abdón Reyes (Bolívar), Lorgio Álvarez (Cerro Porteño/PAR), Gatty Ribeiro (Real Potosí) e Miguel Hoyos (Oriente Petrolero); meio-campistas: Didi Torrico (La Paz), Leonel Reyes (Bolívar), Wálter Flores (The Strongest), Ronald García (Aris/GRE), Jhasmani Campos (Oriente Petrolero), Mauricio Saucedo (San José), Ronald Gutiérrez (Bursaspor), Joselito Vaca (Blooming) e Limberg Gutiérrez (Oriente Petrolero); atacantes: Joaquín Botero (Bolívar), Ricardo Pedriel (Jorge Wilstermann), Juan Carlos Arce (Al-Arabi/CAT) e Marcelo Martins Moreno (Cruzeiro/BRA).

Equador, para os jogos contra Argentina e Colômbia pelas eliminatórias: goleiros: José Francisco Cevallos (LDU Quito), Marcelo Elizaga (Emelec) e Máximo Banguera (Espoli); defensores: Ulises de la Cruz (Reading/ING), Omar de Jesús (Barcelona), Isaac Mina (Deportivo Quito), Paúl Ambrossi (LDU Quito), Iván Hurtado (Barcelona), Giovanni Espinoza (Cruzeiro/BRA), Carlos Castro (Barcelona) e Jairo Campos (LDU Quito); meio-campistas: Patricio Urrutia (LDU Quito), Segundo Castillo (Estrela Vermelha/SER), Antonio Valencia (Wigan/ING), Luis Bolaños (LDU Quito), Edison Méndez (PSV/HOL), Walter Ayoví (El Nacional), Luis Fernando Saritama (Deportivo Quito) e David Quiroz (Barcelona); atacantes: Felipe Caicedo (Manchester City/ING), Joffre Guerrón (LDU Quito), Carlos Tenorio (Al Sadd/CAT) e Cristián Benítez (Santos Laguna/MEX).

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo