México

Até tu?

O Boca Juniors era a tábua de salvação do futebol argentino. Depois de ver River Plate, Lanús e San Lorenzo caírem de forma humilhante na fase de grupos da Libertadores, restava a esperança de ver os Xeneizes manterem a tradição recente e chegar à decisão do torneio. Pois nem isso resta. A equipe mais popular da Argentina foi eliminada nas oitavas de final, perdendo em casa para o Defensor Sporting, e expôs o desgaste de seu modelo.

Era justamente esse sistema de trabalho que colocava os boquenses em uma categoria diferente dos compatriotas. Com grande apoio financeiro, o clube de La Boca se estruturou administrativamente a ponto de ter grande estabilidade política e financeira. Desse modo, conseguiu manter a produtividade de suas categorias de base e ainda resistir um pouco ao êxodo de jogadores que afeta a Argentina tanto quanto o Brasil (justamente o que minou os demais clubes argentinos).

O problema é que, depois de uma década de sucesso (conquistou quatro Libertadores, dois Mundiais e duas Copas Sul-Americanas entre 2000 e 2007), o Boca precisava de novos ares. O clube se aferrou a símbolos, como se eles fossem eternos. Assim, o clube acreditava que nada poderia suplantar La Bombonera. Também achava que a camisa e o espírito copeiro fariam o time jogar nos momentos decisivos, mesmo quando o futebol não era convincente.

Mas o maior problema é o apego dos boquenses a certas figuras. O sonho de ter de volta Carlos Bianchi motivou a diretoria a contratar seu auxiliar Carlos Ischia, cujo currículo como técnico principal era bastante discreto. O treinador fez um trabalho muito contestado no segundo semestre de 2008, mas a equipe conquistou aos trancos e barrancos o Apertura e não havia clima para demiti-lo. Ainda que a diretoria xeneize quisesse fazer isso.

Essa filosofia de venerar certos nomes se viu em campo. Ibarra, Morel Rodríguez, Abbondanzieri, Palermo, Palacio, Riquelme, Battaglia… Não se discute o talento desses jogadores e a utilidade deles para qualquer equipe da América do Sul. O problema é: precisa estar com todos eles juntos? A obsessão por manter essa base é tão grande que o Boca ficou envelhecido e “manjado” pelos adversários. Além disso, a falta de sangue novo faz que a motivação pela busca de um título já não pareça a mesma. Um processo semelhante ao que passa o Milan, só para dar um parâmetro europeu.

Enquanto se esforçava para convencer o Getafe a liberar Abbondanzieri, o clube poderia ter ido atrás de um goleiro mais jovem e confiável. Enquanto resistia às ofertas européias por Palacio, deixou Dátolo ir embora (sendo que Palacio já teria um substituto razoável, Lucho Figueroa, e Dátolo vinha em ascensão e foi o melhor jogador do time em 2008). Enquanto alimentava a mitologia em torno de Palermo, deixava de dar oportunidades a novos atacantes.

Esse fenômeno ficou claro na partida contra o Defensor. O clube uruguaio se fechou na defesa, marcou de perto os homens mais perigosos do time argentino e preparou-se para explorar as costas dos laterais para contra-atacar. Funcionou. O Boca teve poucas oportunidades (e as que surgiram pararam no bom goleiro Martín Silva) e ainda deu espaço para Diego de Souza abrir o marcador.

No segundo tempo, o Boca sentiu seu próprio desgaste. Não tinha mais forças para buscar novas opções, novas estratégias. Insistiu nas mesmas jogadas de sempre e pouco ameaçou o gol uruguaio. No final das contas, a vitória dos violetas foi merecida e mais tranqüila do que se supunha.

A eliminação precoce na Libertadores pode abrir os olhos do Boca Juniors para seus próprios erros. Logo após a derrota para o Defensor, já se falava em “fim de uma era”. O termo é meio apocalíptico e pode levar a exageros na dose do remédio. Ainda que tenham caído em casa para um time “apenas” organizado, os Xeneizes não deixam de ter um dos melhores times do continente. Uma equipe que, se bem conduzida, poderia brigar pelo título ainda em 2009.

No entanto, a desclassificação pode dar a oportunidade aos boquenses de redirecionar seu trabalho. Alguns jogadores podem e devem ser mantidos, mas é preciso dar mais espaço para correções de rumo durante o tempo. O Boca ainda é um dos grandes da América do Sul, mas é nítido que está desgastado e precisando de sangue novo.

Necaxa em liquidação

A fase de classificação do Clausura mexicano terminou há duas semanas e o Necaxa terminou como o pior time na média de pontos das últimas três temporadas. Ainda assim, a equipe não estava rebaixada. Um detalhe no regulamento dava aos hidrocálidos a esperança de jogar uma repescagem com o Xoloitzcuintles de Tijuana, desde que o Petroleros de Salamanca vencesse o Clausura da segunda divisão. É uma conta para lá de enrolada e não vale a pena se estender nisso (se tiver dúvida, deixe um comentário que eu respondo). O importante é que, no último domingo, o Tijuana bateu os Petroleros e não há mais possibilidade de os necaxistas permaneçam na elite na próxima temporada.

A sobrevida de duas semanas obrigou o clube a manter seu elenco em atividade durante esse tempo, mas poucos realmente esperavam que o milagre ocorresse. Os jogadores que estavam nos Hidrorrayos por empréstimo foram devolvidos e os demais receberam férias. A reapresentação está marcada para 1º de julho, mas a sensação é que os trabalhos recomeçarão em um cenário muito diferente do atual.

O rebaixamento bateu fundo na administração do Necaxa. Controlado pela Televisa (gigante das comunicações e também dona de América e San Luis), o clube não via a queda de divisão como algo possível. No início do ano, estava ameaçado de rebaixamento, mas teve uma ajudinha dos irmãos: a Televisa exigiu que o bom San Luis cedesse seus principais jogadores e o técnico à equipe de Aguascalientes, que, assim, deveria fazer os pontos necessário para a salvação. Mas o trabalho “não deu liga” e os Hidrorrayos se afundaram mais ainda na sua crise.

A situação atual é caótica. A diretoria resolveu iniciar a renovação do elenco prontamente e anunciou que todos os jogadores são negociáveis. Além disso, o próprio presidente Roberto Muñoz disse que está disposto a, na temporada 2009/10, fazer do Necaxa um clube-satélite de uma equipe da primeira divisão.

Pela tradição do time, dificilmente seria uma solução permanente, que o transformasse oficialmente em equipe B. Provavelmente seria um convênio temporário, que se desfaria com eventual retorno à elite. De qualquer modo, seria um destino muito melancólico para o clube que foi terceiro colocado do Mundial de 2000, à frente de Real Madrid e Manchester United

SELEÇÃO DA RODADA
Veja a seleção do site Medio Tiempo para as quartas de final do Clausura mexicano: Cirilo Saucedo (Indios); Sidney Balderas (Indios), Javier Malagueño (Indios), Alejandro Acosta (Puebla) e Efraín Velarde (Pumas de la Unam); Manuel Pérez (Indios), Israel Castro (Pumas de la Unam), Gabriel Caballero (Pachuca) e José Francisco Torres (Pachuca); Ramón Núñez (Puebla) e Christian Giménez (Pachuca). Técnico: José Luis Sánchez Solá (Puebla).

Bolha estourando

Não faltou emoção no Clausura venezuelano. O Deportivo Táchira chegou à última rodada com 35 pontos, um a mais que o Caracas. Mas tudo mudou. Em casa, os aurinegros empataram por 3 a 3 com o Estudiantes de Mérida (que também tinha chances) e permitiram que os caraqueños, que fizeram 3 a 1 no Zamora, pulassem à frente e ficasse com o título. Não é uma conquista plena, pois o Campeonato Venezuelano só é decidido em uma final entre os vencedores de Apertura e Clausura. Assim, os Rojos del Ávila ainda precisam superar o Deportivo Italia.

O final empolgante poderia deixar os torcedores venezuelanos animados. No entanto, o clima é sombrio. Com o campeonato encerrado para 16 dos 18 clubes da primeira divisão, é hora de fechar as contas da temporada. E, apenas dois anos depois de sediar a Copa América, a Venezuela percebe que está difícil dar sustentabilidade a seu projeto de futebol profissional. Várias equipes estão no vermelho e ameaçam fechar as portas.

Entre os clubes com problema está o Minerven, uma das potências locais nas décadas de 1980 e 90. O clube de Puerto Ordaz chegou a encerrar as atividades, mas, em nome da tradição e apostando no embalo da Copa América, foi reaberto há dois anos. Não demorou para o “novo velho” time ter problemas. Os azuis terminaram a temporada com três meses de salários atrasados e seu presidente considera a possibilidade de mudar-se para alguma cidade que lhe ajude a arcar com as despesas. Outros clubes que têm vários meses de salários atrasados são Estudiantes de Mérida, Aragua, Portuguesa e Carabobo.

Os dirigentes culpam a crise econômica mundial, mas qualquer análise minimamente profunda percebe que o problema é outro. A Venezuela simplesmente não soube estruturar adequadamente seu futebol.

O Campeonato Venezuelano cresceu apostando no aumento da popularidade do futebol no país e a melhoria do nível técnico dos jogadores locais. A partir daí, o governo resolveu bancar o esporte como modo de se aproximar mais dos vizinhos sul-americanos e investiu pesado na organização da Copa América. Construiu diversos estádios novos, todos de grande porte. O público até que teve bom comparecimento às arquibancadas no torneio de seleções e deu ânimo para a FVF aumentar de 12 para 18 os integrantes da primeira divisão.

Tudo muito precipitado e artificial. Devido ao apoio estatal, o futebol venezuelano conta com sete estádios com 40 mil ou mais lugares (Maturín, Maracaíbo, San Cristóbal, Mérida, Ciudad Guayana, Barquisimeto e Puerto La Cruz). Ainda que o futebol tenha realmente crescido, a maior parte do seu público está nas classes A e B. Assim, não surpreende que apenas Unión Maracaíbo, Caracas e Deportivo Táchira levassem mais de 3 mil torcedores em todas as partidas. Nos demais clubes, a regra era ter público pagante entre 500 e 1 mil.

Enquanto isso, o beisebol ainda é, com sobras, o de maior apelo popular no país. Sabe qual o maior estádio da Liga Venezolana de Béisbol Profesional? O La Ceiba, de Ciudad Guayana, com 30 mil lugares.

Se quiser seguir vivo, o futebol venezuelano precisa urgentemente de um projeto de verdade. A FVF deve deixar de lado os interesses políticos e redimensionar o campeonato nacional, buscando custos menores e condizentes com o apelo de mercado do esporte no país. Aos poucos, é possível aumentar o público e tornar viável o uso de arenas gigantescas. Foi o que fez a Major League Soccer. Ainda que seja difícil, hoje, ver a Venezuela se inspirar nos Estados Unidos, seria um bom caminho.

Impasse na Costa Rica

Herediano e Liberia farão uma surpreendente final do Torneo Verano (Clausura) da Costa Rica. Quer dizer, eles acham que farão a final, porque um imbróglio judicial pode melar a decisão do campeonato.

O problema envolve o Saprissa. O Monstruo Morado foi eliminado pelo Libéria nas semifinais, mas não se conformou. Acusou o clube adversário de usar três jogadores irregularmente (todos teriam tomado o quinto cartão amarelo na partida anterior e, por isso, estariam suspensos) no jogo de volta. O atual pentacampeão costarriquenho pediu anulação do jogo na Unafut (Unión de Clubes de Primera División, a liga local), mas não foi ouvido. No desespero, apelou para a Fedefútbol (federação costarriquenha), que lhe deu suporte.

Isso criou um impasse entre as duas entidades. O campeonato é organizado pela Unafut, que mantém a vaga do Liberia na decisão. A federação, porém, exige que o jogo só seja realizado se a liga analisar o protesto do Saprissa. Caso isso não ocorra, a Fedefútbol anularia a indicação do quarteto de arbitragem (sua responsabilidade) para a partida.

Liberia e Herediano não aceitam a interferência da federação e anunciaram que se apresentarão ao estádio na hora marcada pela Unafut. Se os árbitros não aparecerem e não houver jogo, eles não cederiam com antecedência seus jogadores para a preparação da Costa Rica para enfrentar os Estados Unidos na próxima rodada das Eliminatórias da Copa 2010.

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Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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