México

Apertem os cintos, o time sumiu

Os jogadores do Nacional estão no túnel inflável para entrar no gramado do Parque Central e enfrentar o Villa Española. Eles entram, sob aplausos da torcida, sem perceber que, em outra parte do campo, o árbitro Líber Prudente se retira com a bola de baixo do braço. Só depois de uns poucos minutos que os bolsos perceberam: o jogo havia acabado antes de começar. E eles tinham perdido.

A cena foi surreal. Nacional x Villa Española, pela segunda rodada do Apertura uruguaio, estava programado para às 15h30 do último domingo. Às 15h25, o árbitro Líber Prudente, seus auxiliares e o quarto árbitro já estavam no gramado. Temendo atraso, o quarto árbitro foi chamar os dois times. O Villa entrou em campo imediatamente. O Nacional enrolou um pouco. Quando deu 15h30, o time se dirigiu ao túnel inflável e começou a entrar. Para Prudente, já havia se passado um minuto da hora prevista para o início. E o Nacional foi considerado perdedor por WO.

Uma atitude inusitada não foi aceita com naturalidade. Assim que o quarteto de arbitragem deixou o gramado, os times continuaram se aquecendo, como se nada diferente ocorrera. Depois de alguns minutos, o Nacional foi informado da decisão de Prudente. Dirigentes das duas equipes desceram para os vestiários, mas o árbitro se manteve irredutível. O resultado foi anunciado para o público, e a confusão começou.

Os torcedores não se conformaram e começaram a protestar. Alguns dirigiram sua revolta contra os árbitros e tentaram invadir os vestiários. A intervenção policial foi rápida e permitiu que Prudente e seus colegas deixassem o estádio em segurança. O mesmo não se pode dizer da imprensa. Os jornalistas também foram alvos da ira dos tricolores e três foram agredidos.

No dia seguinte, um grupo de torcedores do Nacional fez uma caminhada do Parque Central até a sede da AUF (federação uruguaia). Durante o trajeto, cantavam gritos de guerra contra Líber Prudente e Francisco “Paco” Casal, empresário que domina o futebol charrua.

Enquanto isso, outras medidas eram tomadas. O Círculo de Jornalistas Esportivos do Uruguai divulgou comunicado em que informa que profissionais de imprensa não voltarão ao Parque Central até que o Nacional tome as devidas atitudes com os agressores dos jornalistas e dê segurança a quem for cobrir jogos do clube. A federação uruguaia informou que devolverá o valor dos ingressos para quem foi ao estádio no domingo. A comissão de arbitragem decidiu não punir Prudente, que seguiu o regulamento do campeonato ao pé da letra. E o Tribunal de Penas decidiu que resultado do jogo foi Nacional 0x2 Villa Española. É a primeira vez que o Villa vence o Nacional em sua história.

O Nacional não aceita essa última decisão e diz que vai recorrer. Mais que isso: ameaça deixar o campeonato caso a AUF não marque uma nova data para a partida. Além disso, o clube pede que Líber Prudente não apite mais partida alguma.

A Justiça esportiva uruguaia tem um histórico recente de manter punições duras a grandes clubes. O Peñarol já chegou a perder seis pontos por violência de sua torcida. No entanto, é verdade que o caso atual tem características diferentes e o não há um clamor público para punir o Nacional. Por isso, não seria de se estranhar se muita coisa mudasse nas próximas semanas.

Vexame norte-americano

Um perdeu em casa por 4 a 0 para um time de Trinidad e Tobago. O outro não passou por uma equipe do Panamá. O desempenho dos times da MLS na fase preliminar da Liga dos Campeões da Concacaf foi deprimente, para ser bondoso. O New England Revolution precisava apenas vencer em Boston com folga moderada o Joe Public, de Porto Espanha, mas foi goleado por 4 a 0 (derrota por 6 a 1 no placar somado). Enquanto isso, o Chivas USA não teve capacidade para vencer o Tauro, do Panamá, e ficou no 1 a 1 em Los Angeles (3 a 1 para os panamenhos no placar somado).

Isso não significa que os clubes dos Estados Unidos estejam em nível técnico abaixo dos vizinhos de confederação. Ainda que os estadunidenses não tenham colocado representante na final da Copa dos Campeões, no primeiro semestre (Houston Dynamo e DC United caíram nas semifinais para Saprissa e Pachuca), é inegável que têm poderio maior que os caribenhos e centro-americanos.

Ainda é um pouco cedo para tirar conclusões muito profundas sobre o que está ocorrendo na primeira LC da Concacaf. Mas parece que o novo torneio deu ânimo para os países supostamente mais fracos, criando um ambiente em que as equipes mais fortes precisarão se dedicar com mais afinco ao campeonato (que, quando era Copa dos Campeões, cansou de ver norte-americanos e mexicanos usarem equipes mistas ou reservas nas primeiras fases).

Isso fica mais claro quando se percebe que a queda de New England Revolution e Chivas USA não foram as únicas a surpreender. Um caso foi os 5 a 0 (5 a 1 no placar somado) do San Francisco do Panamá sobre o Jalapa, da Guatemala. Mas, como a classificação do Tauro sobre o Chivas USA, pode ser um reflexo do visível crescimento do futebol panamenho. Mas houve outra zebra gigantesca, menor talvez só que Revs 0x4 Joe Public: a classificação de Puerto Rico Islanders sobre a Alajuelense. Afinal, Porto Rico é um país em que o futebol está muito longe de representar algo e a Alajuelense é a segunda força da tradicional Costa Rica.

Desse modo, a LC da Concacaf chega à fase de grupos com perspectivas interessantes. Se os pequenos voltarem a mostrar bom futebol, o torneio terá uma distribuição de forças muito maior que a esperada, o que sempre é bom. No entanto, se as classificações de Joe Public, Puerto Rico Islanders, Taurus e San Francisco foram apenas acasos, haverá uma concentração muito grande entre os mexicanos e norte-americanos que ainda estão vivos.

Veja como ficou a fase preliminar da LC da Concacaf (o primeiro time é quem jogou em casa na ida):

Jalapa-GUA 1×5 San Francisco-PAN (1×0 e 0x5)
Joe Public-TRI 6×1 New England Revolution-EUA (2×1 e 4×0)
Alajuelense-CRC 2×3 Puerto Rico Islanders-PRI (1×1 e 1×2)
Cruz Azul-MEX 12×0 Hankook Verdes-BLZ (6×0 e 6×0)
Pumas de la Unam 3×0 Harbour View-JAM*
Tauro-PAN 3×1 Chivas USA-EUA (2×0 e 1×1)
Montreal Impact-CAN 1×0 Real Esteli-NIC (1×0 e 0x0)
Isidro Metapan-ELS 3×4 Marathon-HON (2×2 e 2×3)
* O jogo de ida entre Harbour View e Pumas de la Unam, marcado para Kingston, foi cancelado devido ao furacão Gustav. Assim, a eliminatória foi definida em partida única na Cidade do México

Agora, confira como ficou a fase de grupos:

Grupo A
Cruz Azul-MEX, DC United-EUA, Marathon-HON e Saprissa-CRC

Grupo B
Houston Dynamo-EUA, Luis Ángel Firpo-ELS, Pumas de la Unam-MEX e San Francisco-PAN

Grupo C
Atlante-MEX, Joe Public-TRI, Montreal Impact-CAN e Olímpia-HON

Grupo D
Municipal-GUA, Puerto Rico Islanders-PRI, Santos Laguna-MEX e Tauro-PAN

México: América não se emenda

Parecia um acidente de percurso ou uma crise mal solucionada que acabou durando mais do que deveria. A última colocação do América no Clausura 2008 não parecia algo tão permanente. Afinal, o time era muito forte no papel e, quando teve alguma tranqüilidade para trabalhar e trocou de técnico, chegou até as semifinais da Libertadores. No entanto, mudou a temporada, mudou o técnico, mudaram alguns jogadores e o dsempenho do time continua o mesmo.

Ainda que seja verdade que Chivas de Guadalajara, Pachuca e Atlas façam um Apertura muito ruim, a situação do América é particularmente pior. Afinal, as Chivas foram superlíderes (melhor campanha da primeira fase) do Clausura, o Pachuca conquistou a Copa dos Campeões da Concacaf e o Atlas chegou às quartas-de-final da Libertadores e à repescagem do Clausura. Ou seja, o começo do ano ainda dá uma margem para esses clubes.

O América teve um primeiro semestre tenebroso e, mesmo na Libertadores, só engrenou em três jogos do mata-mata (Flamengo no Maracanã e os dois confrontos com o Santos). Dos últimos 20 jogos pelo Campeonato Mexicano, o América venceu dois, empatou quatro e perdeu 14. Ainda que o risco de rebaixamento (via média de pontos nas últimas três temporadas) seja quase nulo, as águilas já caíram para nono lugar na “tabela de porcentagens” (como os mexicanos chamam o equivalente ao “promedio” da Argentina).

Os azulcremas se ressentem da falta de consistência. O ataque não é dos piores, ainda que fique dependente demais de Cabanas e Insúa (Alfredo Moreno, contratado como homem-gol para a temporada, fez um gol apenas). De qualquer modo, o América marcou em todos os jogos no atual campeonato. Mas, se é verdade que o ataque tem feito sua parte, a defesa compensa do ponto de vista negativo. As águilas sofreram gols em todos os jogos, mesmo tendo Ochoa, melhor goleiro mexicano na atualidade.

Desse modo, o time perde confiança, o que ficou muito evidente nas duas últimas partidas em casa. Contra os Jaguares, no último dia 24, os azulcremas fizeram 2 a 0 e permitiram a virada. Uma semana depois, sofreu mais três gols contra os Tigres de la UANL (derrota americanista por 3 a 1).

Esse cenário já coloca Ramón Díaz sob pressão. O técnico argentino, que chegou com o currículo qualificado por bons trabalhos no River Plate e no San Lorenzo, já tem o cargo em risco. Ele próprio admitiu que vive em um clima de pressão, por mais que jure que ficará em Coapa até o final de seu contrato de três anos.

Como ainda falta mais da metade da fase de classificação do Apertura e 10 dos 18 times chegam ao mata-mata, dá tempo para recuperar. Mas o clube precisa se reorganizar tática e psicologicamente. A parada para os jogos das Eliminatórias pode vir a calhar.

SELEÇÃO DA RODADA
Veja a seleção da 6ª rodada do Apertura mexicano do site Medio Tiempo: Guillermo Ochoa (América); Severo Meza (Monterrey), Javier Malagueño (Indios), Diego Ordaz (Monterrey) e Edgar Castillo (Santos Laguna); Lucas Lobos (Tigres de la UANL), Cristian Giménez (Pachuca) e Francisco Kikín Fonseca (Tigres de la UANL); Enrique Esqueda (América), Humberto Suazo (Monterrey) e Christian Benítez (Santos Laguna); Técnico: Ricardo La Volpe (Monterrey)

Veja a seleção da 7ª rodada do Apertura mexicano do site Medio Tiempo:
Federico Vilar (Atlante); Diego Martinez (Tigres de la UANL), Joel Sánchez (Tecos de la UAG), Javier Muñoz Mustafá (Atlante) e William Paredes (Monterrey); Lucas Lobos (Tigres de la UANL), Christian Riveros (Cruz Azul), Luis Ernesto Pérez (Monterrey) e Gabriel Pereyra (Atlante); Pablo Zeballos (Cruz Azul) e Juan Carlos Cacho (Pumas de la Unam). Técnico: Héctor Eugui (Indios)

Cartolas das cavernas

A preparação de Honduras para as rodadas de setembro as Eliminatórias da Concacaf para a Copa de 2010 sofreu um forte abalo. O meia Julio de León, do Parma, foi afastado do grupo por indisciplina, deixando os catrachos sem um de seus melhores jogadores.

O motivo da desavença foi uma entrevista de De León. O meia demorou para se apresentar porque preferiu ficar uns dias a mais em Parma para prolongar seu tratamento de uma lesão. Quando perguntado sobre o assunto, o jogador disse que os dirigentes do futebol hondurenho são “homens das cavernas” e “incapazes e comprar um aparelho para ajudar a recuperação dos atletas”. De acordo com De León, os cartolas preferiam comprar coisas inúteis e não se atualizariam.

De qualquer modo, o meia chegou se dizendo recuperado da contusão e estaria em condições de enfrentar o Canadá. No entanto, quando encontrou o técnico Ronaldo Rueda, foi cobrado pelo tom da entrevista. O jogador abandonou o hotel, mas retornou depois de ser convencido por Suazo e Amado Guevara. Aí, foi Rueda que não quis De León.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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