América de decepções

É difícil saber o que se passa com o América. Quer dizer, não é bem questão de ser difícil. Os possíveis motivos para as frequentes decepções de um dos maiores clubes do futebol mexicano tanto dentro do país como em âmbito continental até são fáceis de identificar. Difícil mesmo é apontar qual(is) deles é o principal e como resolvê-los de vez.
Desde a conquista do título do Clausura em 2005, já se vão sete temporadas completas sem títulos nacionais das águias. O temor da fanática torcida da capital mexicana é a repetição do jejum de 13 anos que atingiu o clube de 1989 a 2002, período ainda bem vivo nas lembranças da torcida canária. E as decepções se acumularam. Confira um resumo das campanhas do clube desde então:
2005/06Apertura: Superlíder, mas derrotado já nas quartas-de-final após fazer 3-1 no Tigres em Monterrey e ser goleado em casa por 4-1 no jogo da volta
Clausura: 13º colocado na primeira fase
2006/07
Apertura: eliminado nas semifinais da Liguilla pelo arquirrival Chivas
Clausura: derrotado na final da Liguilla pelo Pachuca, perdendo em casa por 2-1
2007/08Apertura: eliminado na repescagem dos playoffs com uma derrota por 3-0 pelo Morelia em pleno estádio Azteca
Clausura: lanterna da primeira fase
2008/09
Apertura: 13º colocado na primeira fase
Clausura: 3º colocado do grupo 2 e eliminado na 1ª fase
2009/10
Apertura: eliminado pelo Monterrey nas quartas-de-final da Liguilla
Clausura: eliminado pelo Toluca nas quartas-de-final da Liguilla
2010/11
Apertura: eliminado na semifinal com uma derrota por 2-1 para o Santos em pleno estádio Azteca
Clausura: eliminado pelo Morelia nas quartas-de-final da Liguilla
2011/12
Apertura: vice-lanterna da primeira fase
Mais do que apenas olhar as seguidas decepções e pensar que o time disputou oito das 13 Liguillas desde então e uma hora deverá alcançar o título, é necessário perceber que em nenhuma das decepções em todo esse período o time foi eliminado injustamente. Ou seja, jogando um futebol superior, mais envolvente e empolgando sua torcida e a mídia ou tornando-se favorito, vítima apenas de “um momento”. As águias não jogam um futebol de time grande, não se impõem como favoritos nem mesmo contra times menores ou tecnicamente inferiores, o que resulta em eliminações vexatórias ou quedas prematuras.
A frequente queda de rendimento no momento decisivo também coincidiu com a saída de um dos maiores ídolo da história do conjunto de Coapa. Sem o atacante Cuauhtémoc Blanco desde 2007 o clube perdeu uma importante referência no ataque e para todo o time como fonte de experiência e norte.
Outro fator importante nos fracassos americanistas é a desordem administrativa por qual o clube passa constantemente. Um dos grandes responsáveis pela bagunça foi seguramente o ex-presidente Michel Bauer, que deixou o cargo no último ano. Ele assumiu a presidência do clube em 2008, após a saída de Guillermo Cañedo, e durante três anos trouxe mais problemas do que soluções, a despeito da montagem de fortes elencos, até ser substituído pelo ex-jogador Ricardo Peláez.
O elenco, aliás, não parece ser um dos problemas, possuindo variação, profundidade e qualidade para disputar o título. Uma prova de que esse não é o ponto fraco do clube foi que os azulcremas não fizeram o menor esforço para manter Ángel Reyna, artilheiro do Clausura 2011, ao fim da última temporada, confiando em Benítez e Vuoso e entregando de bandeja ao Monterrey uma chave para compor o que hoje é tido como o ataque mais forte do futebol azteca. Quer dizer, é e não é. Não dá para eximir totalmente de culpa atletas bem pagos e estrelas já consagradas e com experiência no futebol internacional que não conseguem se impor em mesmo contra times mais fracos.
A pressão da torcida talvez seja outro fator determinante. A falta de títulos gera uma insatisfação tanto da torcida, que torna o estádio Azteca mais um fator que joga contra do que a favor do time, quanto do dono do clube, o empresário Emilio Azcárraga, também proprietário da Televisa.
Enquanto as águias, a despeito de suas famosas campanhas de marketing que provocaram seus adversários no último Apertura com o slogan “América es Grande. Muy Grande”, não consegue fazer frente a clubes com elencos bem mais entrosados como Monterrey, Santos, Tigres, Morelia e até aos rivais Pumas e Chivas. O fato é que o time vai ficando para trás e perdendo terreno para equipes que antes nem mesmo faziam frente em território mexicano e hoje já conquistam o continente.
Nesse turbilhão de pressão, fanatismo em massa, decepções, cifras milionárias e falta de títulos, o América se encaminha para mais um fim de temporada sem grandes resultados e poucas esperanças para seus torcedores.
León de volta à elite
Que o León tinha o melhor time da segunda divisão e era o mais preparado para disputar a elite em 2012/13, esse colunista já havia dito. Mas o que ninguém esperava era a pífia partida dos Esmeraldas em Ciudad Victoria, na primeira partida da final da Liga de Ascenso, a segunda divisão mexicana.
A derrota para o Corre, que pôs fim à invencibilidade ostentada em toda a campanha do título do Clausura, por pouco não transformou a temporada em um novo pesadelo para os Panzas Verdes. Com um 0-2 no placar e com a expulsão do artilheiro uruguaio Sebastián Maz, os comandados de Matosas contaram com uma pitada de sorte (e muito de competência, claro) para não sofrer mais gols com dez em campo e ainda diminuir, com Ignacio González, já nos acréscimos, obtendo um resultado que manteve a situação reversível e a chance de acesso ainda viva.
No Nou Camp, no último sábado, o clube de Guanajuato não deu chances aos universitários. Tudo bem que seria difícil o time jogar tão mal duas partidas seguidas, mas também não se esperava que, após perder a invencibilidade, o artilheiro e um pouco da aura de imbatível, os leões conseguissem se impor de maneira tão clara e ampla sobre a UAT. E golear por 5-0, garantindo a taça, o acesso e a indiscutível superioridade.
Sob o comando dos meias Hernán Burbano e Carlos Alberto Peña na partida decisiva, o time conquistou com facilidade o acesso e agora terá de se preparar para um desafio muito mais difícil na elite. O elenco do León ainda carece de alguns jogadores para posições-chaves e, principalmente, maior experiência na elite. Mas sua diretoria parece tomar o rumo certo após o presidente declarar que pretende oferecer ao treinador Gustavo Matosas um contrato de renovação com duração de 10 anos. Exageros à parte, nada tira o ânimo e a empolgação de uma torcida de volta ao topo dez anos depois.
Curiosidades Aztecas
Para familiarizar os leitores que desejam conhecer um pouco mais do futebol azteca e suas particularidades, trarei semanalmente uma curiosidade sobre o campeonato mexicano, seu formato de disputa, clubes e jogadores.
A chegada do León ao topo do futebol mexicano na próxima temporada resultará numa situação curiosa: dois clubes do mesmo grupo e/ou empresário disputando a mesma competição. O time esmeralda é de propriedade do Grupo Pachuca, que também é dono do clube de mesmo nome (C.F. Pachuca), militante da Primera Divisón desde 1998.
O presidente dos Tuzos é Jesús Martínez Patiño, enquanto o León é comandado por seu filho, Jesús Martínez Murguía, de apenas 27 anos, ambos integrantes do grupo empresarial que adquiriu os Panzas Verdes há um ano e meio e possui a propriedade de outros cinco times na Segunda División, equivalente ao terceiro nível do futebol azteca.
Algo conflitante em qualquer campeonato do mundo, mas comum no futebol mexicano. Também na Primera División, a TV Azteca é proprietária de Morelia e Jaguares, assim como a Televisa possuía, até bem pouco tempo atrás, os direitos de América e San Luis, antes de vender sua participação nos Tuneros.
Notas
Seleção da rodada do site Mediotempo: Jonathan Orozco (Monterrey), Osmar Mares (Santos), Hiram Mier (Monterrey), José Basanta (Monterrey) e Darvin Chávez (Monterrey); César Delgado (Monterrey), Rodolfo Salinas (Santos) e Luis Pérez (Monterrey); Darwin Quintero (Santos), Oribe Peralta (Santos) e Aldo de Nigris (Monterrey). T: Víctor Vucetich (Monterrey);
– No outro duelo das semifinais, uma partida emocionante definiu o Santos como adversário dos Rayados na decisão, reeditando a final da Conchampions de dias atrás;
– Os Laguneros saíram perdendo por 2-0 no TSM Corona, com gols do chileno Héctor Mancilla, e a torcida já deixava o estádio quando Oribe Peralta tornou-se o herói da classificação com dois gols já no fim da partida (41 e 44 do segundo tempo);
– Os Guerreros terão a chance de vingar-se da derrota na final continental a partir dessa quinta (no Tecnologico) e decidindo no domingo, em casa (no TSM Corona). Vale lembrar que o time perdeu as últimas quatro finais que disputou (três campeonatos nacionais e um continental);
– A decisão terá reflexos diretos entre os rivais Chivas e América, a despeito de ambos já estarem fora da disputa: a definição do campeão indicará, também, a quarta vaga na próxima Concacaf Champions League (Santos, Tigres e Monterrey já se garantiram);
– Se os Albiverdes levarem o Clausura, a vaga fica com o Rebaño Sagrado, maior pontuador do Apertura 2011. Caso a Pandilla fique com a taça, o América se qualifica pela melhor campanha no Clausura atual;
– Confira tudo sobre as partidas decisivas da Liguilla pelo twitter: @renanbarabanov



