México

Agonia e êxtase

A Copa Sul-Americana está longe de ser a prioridade dos clubes brasileiros na temporada. Aliás, não é assim nem em outros países do continente (com exceção de clubes carentes de títulos), quanto mais no Brasil. De qualquer modo, o que ocorreu por esta competição nas noites das últimas quarta e quinta podem pautar o desempenho de duas grandes equipes brasileiras até o final do ano. Pelo trauma ou pela empolgação.

Os reflexos da rodada deste meio de semana já são sentidos no Botafogo. Perder do River Plate no Monumental de Núñez é um resultado mais que aceitável. O problema foi o modo como se deu a desclassificação botafoguense da Copa Sul-Americana. Com um time que esteve apático, passivo diante do adversário e sem aparentar compromisso com o resultado. Tanto que mudanças já estão em curso, com perspectiva de mais coisa até o início da próxima temporada.

O jogo esteve ao feitio dos cariocas em quase todo o tempo. No primeiro tempo, o Botafogo aproveitou a ansiedade dos argentinos e abriu o marcador com Lúcio Flávio. Depois, viveu um momento de incerteza com o gol de empate do River e a expulsão infantil de Zé Roberto. Ainda assim, o Alvinegro chegou ao intervalo com um confortável empate no placar. Com o gol de Lúcio Flávio, o Botafogo só seria desclassificado se perdesse por dois gols de diferença.

O início do segundo tempo foi perfeito para o time de General Severiano. Lusenhoff recebeu cartão vermelho por entrada violenta e os millonarios perderam o controle do jogo. Partiram desesperadamente para o ataque, oferecendo todo o espaço do mundo para os contra-ataques brasileiros. O fato de o Botafogo ter criado várias oportunidades de gol foi conseqüência natural disso.

Dodô fez o segundo gol botafoguense, mas perdeu outras duas chances claríssimas. Havia uma certa insolência dos alvinegros nas conclusões, tamanha era a certeza da vitória ou, pelo menos, da classificação. Ainda mais depois que os riverplatenses tiveram um outro jogador expulso e ficaram em inferioridade numérica.

Faltavam pouco mais de 15 minutos e o River Plate precisava fazer três gols tendo um homem a menos em campo. É inadmissível crer que, diante desse cenário, os argentinos terminarem o jogo com a classificação. E foi o que ocorreu.

O gol de empate do River deveria ser apenas um fato menor em campo. Mas o Botafogo se assustou e recuou. Mesmo com um jogador a mais, não conseguia ter o controle da bola e permitiu que os argentinos promovessem uma pressão desesperada no final.

Pior que a postura tática botafoguense foi a falta de determinação. Quando se recebe pressão, o time de obrigação de se atirar em cada bola como se fosse a última do jogo. As finalizações precisam sempre ter obstáculos, com alguém travando e o goleiro se atirando à bola mesmo sabendo que jamais a alcançará. O gol pode até sair, mas o adversário não pode ter a sensação de que foi algo fácil. Tudo o que o Botafogo não fez.

Iniciar uma caça às bruxas não é a saída, até porque o Alvinegro tem uma boa equipe e reúne condições de lutar por uma vaga na próxima Copa Libertadores. A saída de Cuca até é compreensível, porque ele próprio pediu o boné e dificilmente teria autoridade para dizer algo aos jogadores.

A tarefa do Botafogo agora, sob o comando de Mário Sérgio, é acalmar dentro do possível e recolher os cacos. Uma reformulação não é necessariamente obrigatória, desde que a diretoria seja hábil em encarar o problema e tentar reconstruir o moral. Caso contrário, uma eventual classificação para a Libertadores 2008 será inócua. Com um time reformulado e traumatizado em competições internacionais, o futuro não seria muito longo.

No Morumbi, só festa
Exatas 24 horas antes do desaire botafoguense, o São Paulo via as oitavas-de-final da Sul-Americana como mais um elemento para impulsionar a impressionante campanha deste segundo semestre. Com determinação e uma dose de técnica, o Tricolor superou o Boca Juniors e ganhou ainda mais confiança. Se é que isso era possível.

O futebol apresentado não foi particularmente brilhante. No entanto, vencer o Boca Juniors dá a convicção – ainda que possivelmente falsa – de que os são-paulinos são o melhor time das Américas. Além disso, reforça a aura de equipe de decisão, que cresce em jogos importantes contra adversários supostamente temíveis.

Entre os bons sinais apresentados está o futebol maduro de Breno, Hernanes e Dagoberto. Ambos se mostram cada vez mais fundamental ao time do Morumbi, com técnica e leveza se unindo à capacidade de se sobressaírem em seus setores. O trio tomou conta do campo e foi fundamental para o São Paulo até surgir o gol de Aloísio. Breno anulou boa parte das ações de Palermo, Hernanes anulou o setor de criação do Boca (insosso durante boa parte do jogo) e Dagoberto desestabilizou a defesa argentina com dribles desconcertantes e muita velocidade.

No final da partida, o Boca Juniors impôs uma esperada pressão. O São Paulo até recuou demais e correu muito risco de sofrer o empate. No entanto, mostrou o que faltou ao Botafogo: vontade de se entregar em campo para evitar o gol adversário. Os atacantes boquenses não conseguiram finalizar uma vez sequer sem que houvesse um pé são-paulino para travar ou desviar o chute. Nenhum argentino subiu para cabecear sem ser acossado por um tricolor.

Depois de uma vitória como essa, vista como “vingança” por alguns são-paulinos (referência à derrota para o Boca na Recopa Sul-Americana de 2006), a Copa Sul-Americana entrou definitivamente na agenda do clube neste ano. Como a vantagem na ponta do Brasileirão é folgada, Muricy tem condições de gerenciar o calendário para conquistar as duas competições. Se isso realmente ocorrer, a Copa Sul-Americana já tem um favorito.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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