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A “seleção” armênia que conquistou a URSS e desafiou o Bayern de Beckenbauer

Abril costuma ser um mês de luto para a comunidade armênia em todo o mundo. Neste ano, de maneira mais forte: o início do Genocídio Armênio completa 100 anos nesta sexta-feira. Um massacre promovido pelo antigo Império Otomano durante a Primeira Guerra Mundial e que matou estimadamente 1,5 milhão de armênios, muitos deles presos em campo de concentração. Outros milhares de sobreviventes fugiram do Cáucaso, na chamada Diáspora Armênia. Rússia, Estados Unidos, Ucrânia, Irã, França e Líbano estão entre os países que possuem as maiores comunidades armênias atualmente, enquanto Argentina e Brasil também receberam um número significativo de imigrantes.

Apesar do rastro de sangue, a história do povo armênio começou a ser reescrita a partir do final da Primeira Guerra Mundial, quando o Império Otomano acabou dividido e a recém-criada República da Armênia se integrou à União Soviética. Apesar da autonomia política relativa, o período inicial sob o regime comunista não foi totalmente tranquilo, especialmente sob a ditadura de Stalin. Entretanto, a partir da década de 1950, os armênios passaram a desfrutar de maiores liberdades. O que se refletiu também no futebol, com o surgimento de uma potência soviética no início da década de 1970: o Ararat Yerevan.

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Fundado em 1935, como uma organização esportiva popular, o Ararat chegou à elite do Campeonato Soviético em 1949. Era apenas o segundo clube do Cáucaso a disputar a primeira divisão e, assim, acabou capitalizando as forças das principais organizações na República Socialista Soviética da Armênia.  No final da década de 1960, a equipe se estabeleceu no alto escalão. Para se tornar uma das forças do país entre 1971 e 1976, com um título da liga, dois da Copa Soviética e outros três vice-campeonatos nacionais no período.

O sucesso é explicado pela “seleção armênia” montada no final da década de 1960. O Ararat convidou alguns dos principais jogadores da etnia para se juntar ao clube e representar a força local. Deu certo, também pelo bom trabalho de formação de jogadores nas categorias de base. O time era liderado pelo atacante Eduard Makarov, que disputara a Copa de 1966 pelos soviéticos. Já no banco de reservas, um dos primeiros técnicos trazidos para comandar o time foi Oleksandr Ponomarov, que depois assumiu a seleção. Em seu lugar, entrou Nikita Simonyan, dono de dois títulos nacionais com o Spartak.

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Sob o comando de Simonyan, o Ararat conquistou a dobradinha em 1973. Superou o Dynamo Kiev de Oleg Blokhin no Campeonato Soviético por três pontos e também os venceu na final da Copa Soviética. A passagem para a Copa dos Campeões de 1975/76. O Ararat teve tranquilidade nas duas primeiras fases, atropelando Viking (Noruega) e Cork Celtic (Irlanda). O azar veio nas quartas de final, diante do Bayern de Munique, que rumava ao tricampeonato continental. Com Maier, Beckenbauer, Rummenigge e Gerd Müller em campo, os armênios perderam na visita à Alemanha por 2 a 0. Já em Yerevan, o triunfo por 1 a 0 foi insuficiente. Como prêmio de consolação, Makarov dividiu a artilharia do torneio com Müller.

O envelhecimento da geração culminou com a derrocada do Ararat a partir do fim da década de 1970. O clube armênio se manteve na elite, mas sem disputar o topo. E o fim da União Soviética também iniciou uma crise interna no time, que venceu apenas uma edição do Campeonato Armênio, em 1993. Por causa de problemas financeiros, o Ararat passou três temporadas de fora da elite nacional, abrindo mais margem para a hegemonia do Pyunik Yerevan.

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Com a queda do Ararat, os maiores orgulhos do futebol armênio foram os filhos da diáspora. Descendentes de imigrantes, Youri Djorkaeff e Alain Boghossian conquistaram a Copa do Mundo de 1998 pela França. No Brasil, Marcelo Dijan foi o principal representante dos descendentes no futebol. E o Irã, de colônia significativa, teve como principais nomes Andanik Eskandrian (zagueiro na Copa de 1978, que jogou com Pelé no Cosmos) e Andranik Teymourian (volante que disputou o Mundial de 2014 e fez história ao se tornar o primeiro católico a capitanear a equipe nacional do país islâmico).

No entanto, a seleção armênia também passou a apresentar suas próprias forças nos últimos tempos. A equipe manteve viva as esperanças de se classificar à Euro de 2012 e à Copa de 2014, com a geração encabeçada por Mkhitaryan e Movsisyan. Para, quem sabe, atingir em âmbito internacional também o mesmo sucesso que o Ararat Yerevan teve nos anos 1970. De certa forma, a seleção atual é a herdeira do que o clube conseguiu em seu auge.

Os clubes da diáspora
Estádio República de Armênia, do Deportivo Armênio
Estádio República de Armênia, do Deportivo Armênio

A Diáspora Armênia espalhou diversas colônias pelo mundo. E, muitas delas, integradas à sociedade, também originou os seus próprios clubes. O principal deles é o Deportivo Armênio, fundado em 1962 na província de Buenos Aires e que chegou a disputar a primeira divisão do Campeonato Argentino. Responsável por revelar Teymourian e Eskandrian, o Ararat Tehran chegou a ser um dos principais clubes da capital iraniana na década de 1950. A França conta com o Ararat Issy, atualmente militando na quinta divisão. Já no Brasil, a presença é marcada pelo Juventude Armênia Fedainer, que disputa campeonatos de futebol de salão em São Paulo. Líbano, Estônia, Rússia, Estados Unidos, Áustria, Bélgica e Chipre também possuem equipes amadoras de descendentes.

Talvez o caso mais interessante seja do Taskim SK, fundado na região de mesmo nome de Istambul, em 1940. Símbolo dos armênios que permaneceram e voltaram à Turquia após o genocídio, o clube disputou a segunda divisão do Campeonato Turco na década de 1960 e permaneceu na terceirona até 1974. Atualmente, está limitado aos torneios amadores da capital turca.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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