Champions LeagueLeste Europeu

O jogo mais espetacular da vida de Puskás: Honvéd 9×7 Vörös Lobogó

Ferenc Puskás, definitivamente, era um privilegiado. Não “apenas” pela qualidade técnica, pela capacidade de marcar gols ou pela inteligência que o permitiu liderar esquadrões históricos. O Major Galopante, que se ainda estivesse vivo completaria 88 anos nesta quinta-feira, também teve a honra de protagonizar algumas das maiores partidas de todos os tempos. Destronou a Inglaterra nos 6 a 3 de Wembley. Jogando no sacrifício, fez um gol e teve outro mal anulado, mas não evitou o Milagre de Berna na final da Copa de 1954. Balançou as redes quatro vezes nos 7 a 3 sobre o Eintracht Frankfurt, que deu o penta europeu ao Real Madrid. Mesmo assim, o jogo mais fantástico em que Puskás esteve permanece oculto sob poeira e desconhecido para a maioria.

ESQUADRÕES DA CORTINA DE FERRO: Honvéd, a armada húngara que revolucionou o futebol

Em tempos nos quais a televisão era uma novidade em todo o mundo, os registros em vídeo do Honvéd são escassos. Uma pena. Raras as imagens que evidenciam aquele que, inegavelmente, foi um dos melhores times do mundo nos anos 1950. Mas que não nos privam de resgatar a memória. Por mais que o acesso ao passado de um clube húngaro não seja dos mais simples, é possível encontrar relatos da partida épica. Em 9 de janeiro de 1955, o Honvéd venceu o Vörös Lobogó (atual MTK Budapeste) pelo espantoso placar de 9 a 7.

Naquele momento, o Honvéd contrastava o ápice de seu futebol com a perseguição aos craques vice-campeões mundiais. Puskás era rotineiramente insultado nos jogos com o clube por causa da derrota na decisão em Berna. Certa vez abandonou o campo, em outra abaixou o calção na frente dos torcedores mais exaltados. Já o goleiro Gyula Grosics foi acusado de espionagem e traição, desfalcando o time por 15 meses, em prisão domiciliar.

puskas

Em dezembro de 1954, o Honvéd sofreu a sua derrota mais famosa. Os húngaros visitaram o Estádio Molineux para um amistoso contra o Wolverhampton, então campeão inglês. O primeiro jogo transmitido ao vivo pela televisão britânica era tratado como uma final. E, em um campo encharcado de propósito, os Wolves atrapalharam o jogo fluido dos magiares e abusaram do estilo “kick and rush” para buscar a virada por 3 a 2, após sair perdendo por dois gols de diferença. A equipe estrelada por Billy Wright acabou proclamada como campeã mundial pela imprensa inglesa, título simbólico que motivou a criação da Copa dos Campeões.

LEIA MAIS: O dia em que o velho Puskás provou que sua barriga era muito menor que seu talento

Aquela derrota, no entanto, mexeu com os brios do Honvéd. A equipe reclamou de um pênalti não marcado pelo bandeirinha, o mesmo que havia anulado o gol do 3 a 3 contra a Alemanha Ocidental na final da Copa de 1954. Mas as queixas não valiam de nada. Se quisesse provar a sua superioridade, o clube de Budapeste precisava se impor em campo. E tinha uma excelente oportunidade para isso logo na volta à Hungria. Por causa da excursão, a reta final do Campeonato Húngaro de 1954 teve que ser adiada. Em janeiro de 1955, o esquadrão ratificou o título com a vitória inacreditável na última rodada.

O Honvéd já era campeão quando visitou o Vörös Lobogó. Porém, ainda que o título estivesse decidido, o duelo valia o moral de quem vencesse. O Vörös Lobogó não era qualquer adversário, mas sim o campeão anterior e segundo colocado na tabela vigente. Se o Honvéd cedeu oito jogadores à seleção na Copa de 1954, os rivais vinham logo atrás, com seis convocados – incluindo os titulares Mihály Lantos e Nándor Hidegkuti. O posicionamento do camisa 9 no clube, aliás, influenciou a tática da Hungria ao transformar o WM em 4-2-4. Uma inovação arquitetada pelo técnico Márton Bukovi, que posteriormente substituiu Gusztáv Sebes na seleção.

Hungary's Ferenc Puskas (l) lashes a shot at goal as West Germany's Werner Liebrich (r) tries to block

Diante do estilo de jogo das equipes e dos craques à disposição, o mínimo que se podia esperar era um jogo de muitos gols no Estádio MTK – o mesmo que, na década de 1980, abrigou as gravações do filme “Fuga para a Vitória”. Entretanto, as circunstâncias especiais ajudaram bastante o placar elástico. Se o lendário Grosics estava em prisão domiciliar, o Vörös Lobogó também não pôde contar com Sandor Gellér, seu goleiro reserva na seleção. Além disso, as duas equipes tinham mais quatro desfalques na zaga.

VEJA TAMBÉM: Há 60 anos, o futebol vivia o seu ‘Jogo do Século’, Inglaterra 3×6 Hungria

Na tarde nublada e congelante de Budapeste, 25 mil pessoas tiveram o privilégio de assistir ao épico. E se a seleção começava os seus jogos em ritmo acelerado, o mesmo se refletia entre os seus principais clubes. O Honvéd abriu o placar com Lajos Tichy, aos três minutos, mas permitiu a virada do Vörös Lobogó logo na sequência. Hidegkuti empatou e Károly Sándor balançou as redes mais duas vezes antes dos 20 minutos. Provocaram a ira do Honvéd e, sobretudo, de Puskás. Começava ali o grande show do Major Galopante.

Entre os 24 e os 44 do primeiro tempo, o Honvéd marcou seis gols. Não deu tempo para o Vörös Lobogó sequer respirar. O artilheiro Sándor Kocsis apareceu primeiro, antes de igualar o placar aos 32. A partir de então, Puskás armou a sua metralhadora de gols. Aos 34, aos 36 e aos 38. Isso mesmo: em cerca de cinco minutos, o Major Galopante anotou um hat-trick contra uma das melhores equipes do Leste Europeu. E, antes que o juiz apitasse o intervalo, Tichy fechou o primeiro tempo com o marcador apontando 7 a 3.

O Honvéd terminaria de devorar os adversários no início do segundo tempo. Puskás anotou o seu quarto gol na partida logo aos três minutos. Hidegkuti fez o quarto do time da casa, enquanto Kocsis fechou a conta para os visitantes ao completar o seu hat-trick. Com o cronômetro marcando mais meia hora de jogo, o Honvéd se deu ao luxo de relaxar quando já tinha marcado nove gols e vencia por cinco de vantagem. A brecha para que o Vörös Lobogó terminasse de tornar o placar ainda mais grandioso. Endre Kárász deixou o seu, enquanto Hidegkuti fez mais dois e também completou quatro na tarde.

puskas 1

Quem não esperava muita coisa de um jogo para cumprir tabela, certamente se satisfez com o duelo de tantas bolas na rede. “Se uma partida tem 16 gols, você pode dizer que ela não foi realmente séria. Mas este não é o caso. Pelo contrário, o que resultou nesse placar brilhante é que cada um dos times queria mostrar o seu melhor”, escreveu, na época, o repórter da revista Képes Sport. Infelizmente, não há vídeos que registrem essa maravilha.

VEJA TAMBÉM: O fim de um recorde fabuloso: os oito anos invictos do Real Madrid no Bernabéu

O Honvéd fechou a campanha do Campeonato Húngaro de 1954 com cinco pontos à frente do Vörös Lobogó e exatos 100 gols em 26 rodadas – destes, 32 marcados por Kocsis e outros 21 de Puskás. Mas os vice-campeões ganharam um ótimo consolo: por causa do calendário anual, a Uefa deu vaga na primeira edição da Champions ao campeão de 1953. O Vörös Lobogó caiu nas quartas de final para o poderoso Stade Reims, de Raymond Kopa, perdendo por 8 a 6 no placar agregado. Após a derrota por 4 a 2 na França, fizeram um eletrizante 4 a 4 em Budapeste. O atacante Péter Palotás, curiosamente ausente no 9 a 7, foi vice-artilheiro da Champions naquela edição, com seis gols.

Além disso, o Vörös Lobogó venceu a Copa Mitropa de 1955, o torneio continental mais importante da Europa Central. Na semifinal, outros dois grandes jogos contra o Honvéd: o time do exército venceu por 5 a 2 no jogo de ida, em julho daquele ano. Cinco dias depois, o troco veio no limite para a classificação, com o triunfo por 5 a 1. Já na decisão, o Vörös Lobogó massacrou o Dukla Praga, base da seleção tchecoslovaca, por 8 a 1 no placar agregado. Com Josef Masopust do outro lado, os húngaros enfiaram 6 a 0 em Budapeste, com três gols de Hidegkuti.

O Honvéd, por sua vez, fechou o ano com o bicampeonato húngaro. A equipe encerrou a campanha quatro pontos à frente do Vörös Lobogó e 99 gols marcados no total. Aquele foi o último título do esquadrão comandado por Puskás. Em 1956, o Campeonato Húngaro precisou ser interrompido por causa da revolução que se desdobrou no país, com a invasão do exército soviético em outubro. Enquanto viajava para disputar a Champions de 1956/57, parte do elenco resolveu não voltar ao país. Entre eles, o eterno camisa 10, que partiria para escrever a sua grande história com a camisa do Real Madrid.

PS: O link está no meio do texto, mas não custa enfatizar. Vale conhecer esta história que publiquei aqui na Trivela em 2013, contada por George Best, quando um Puskás (ainda mais) barrigudo e aposentado impressionou um grupo de crianças  australianas. O meu conto real sobre futebol preferido.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo