Serie A

Não dá para saber se o Milan ganhou um grande técnico, mas todos ganhamos um grande personagem com Gattuso

Quando o Milan demitiu Vincenzo Montella e apostou em Gennaro Gattuso como seu novo técnico, confiou em vários fatores, mas não na tarimba de um grande treinador. Afinal, a carreira do tetracampeão do mundo na casamata possui uma amostragem bem pequena, e insuficiente para dizer que ele será um comandante de primeira linha. Quase sempre assumiu clubes conturbados em seus bastidores e com ambições um tanto quanto modestas. Não emplacou em Sion, Palermo e OFI Creta. Se teve um pouco mais de sucesso, foi no Pisa, conquistando o acesso nos playoffs da terceira divisão, antes de conseguir a proeza de ser rebaixado na segundona mesmo sustentando a melhor defesa. Já neste ano, havia voltado a Milanello, para treinar as categorias de base. Agora, vira carta na manga dos chineses que administram os rossoneri.

Gattuso repete a fórmula emergencial do Milan nos últimos anos de crise, e que pouco deu certo, na fogueira de treinadores que arde forte no San Siro. Tentará seguir os passos de Pippo Inzaghi e Clarence Seedorf, seus antigos companheiros em tempos históricos de clube. Mas com um perfil totalmente diferente dos antecessores. Fica claro que os milanistas não estão trazendo necessariamente um estrategista renomado – algo que Rino pode até se mostrar, especialmente por seu apreço em desenvolver sistemas defensivos. Suas virtudes para virar solução neste momento são outras.

O primeiro ponto é o conhecimento que o veterano possui do ambiente do clube. Gattuso foi Milan de corpo e alma por mais de uma década. Conhece os corredores de Milanello como poucos. No entanto, estava inserido em outros tempos, em outra realidade. De qualquer forma, transforma-se em símbolo para assumir a linha de frente, aplacando a insatisfação de torcedores e servindo de escudo aos jogadores. Não dá para questionar que os rossoneri ganham um cara apaixonado para dirigi-lo, que conseguirá absorver as críticas e trazer as arquibancadas novamente para perto do campo. É o raro tipo de técnico que tem seu nome gritado euforicamente antes dos jogos.

Além do mais, Gattuso é a dose diária de energia em um elenco que custou caro e possui sua qualidade, mas acumula atuações apáticas em seus principais desafios. Os novos donos do Milan seguem confiando no time que montaram, e muito por isso trazem um comandante que pode injetar adrenalina direto no peito. As contratações foram superestimadas e essa equipe começada praticamente do zero não dará certo? Fica difícil de saber, ao menos por enquanto. Mas Rino surge para acordar os jogadores com gritos na orelha. Seu papel como motivador também valem bastante na sua escolha.

Se cobravam Montella no início por um futebol mais atraente e efetivo, como se viu principalmente na pré-temporada, nesta altura do campeonato esse tipo de exigência se torna superficial. O que se pede é que o Milan de Gattuso, enfim, consiga emendar uma boa sequência e bata de frente com os grandes. Já está difícil tirar o prejuízo na Serie A e colocar os rossoneri na briga pela Liga dos Campeões. Porém, há uma lavoura a se salvar, especialmente pensando na Liga Europa. E o time, desde que jogue de maneira um pouco mais sólida, conquistando os pontos que precisa, já cumprirá a cobrança atual. Nesta etapa, Leonardo Bonucci deverá ganhar ainda mais importância, considerando o foco defensivo do novo treinador.

Neste momento, a jornada de Gattuso em sua volta ao Milan é uma incógnita, e com motivos para muita gente ficar com o pé atrás. A única certeza? A de que os rossoneri terão um verdadeiro símbolo. Independentemente do que acontecer em campo, serão várias as vezes em que os olhares se voltarão ao que acontece à beira dele. O Rino técnico não deixa de ser o cara extremamente passional e enérgico que se via como volante, seja para lidar com os jogadores ou mesmo para se manifestar com o árbitro. Que puxará a torcida, tal qual uma versão similar do que faz Diego Simeone no Atlético de Madrid.

O desafio a Gattuso, portanto, está justamente em mirar o exemplo do argentino. Não se limitar ao folclore ou à idolatria de outros tempos para se firmar como técnico. E isso sem muito tempo hábil, considerando a maneira como os treinadores do Milan são facilmente queimados. A missão que tem pela frente não será pequena. De qualquer forma, desde já, o futebol italiano recobra um de seus grandes personagens. Com a equipe rendendo ou não, os jogos dos milanistas serão interessantes de se acompanhar justamente por ver Rino – alguém que dignifica aquilo que se chama de amor à camisa.

Das coletivas às reações na área técnica, é como se o Milan tivesse um personagem de ópera para comandá-lo. O que elevará os dramas ou as glórias à décima potência. E o que se viu de Gattuso técnico não poderia ser mais Gattuso: a lendária entrevista coletiva no OFI Creta, a maneira como se manteve no clube grego carregado pelo povo, a importância de “Champions” que deu ao acesso do Pisa, a vibração que se repetiu várias e várias vezes na Serie B. O nível de expectativas à frente dos rossoneri será incomparavelmente maior. Mas, ainda que se questione muitas decisões de diretoria, e se indague sua própria capacidade de gerir o clube, é praticamente impossível não desejar o sucesso a um treinador que entregará sangue e suor a cada instante. Talvez não seja suficiente, há uma carreira em jogo aí. Mas, pelo bem ou pelo mal, certamente será marcante. Todos ganhamos um personagem que dá mais cor ao futebol. Mais sabor. O mais apaixonado será justamente aquele na borda do campo.

Abaixo, quatro vídeos marcantes do Gattuso técnico:

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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