Serie A

Juventus de Pirlo reagiu, mas clube vive um dilema sobre reformulação

Com um rendimento abaixo do esperado, Juventus lida com a escolha de um novato e fica entre interromper o projeto e voltar algumas casas ou ter paciência e apostar no futuro

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No início da temporada, seria difícil imaginar que a Juventus teria que lutar para ficar entre os quatro primeiros e conquistar uma vaga à Champions League. Não só isso está acontecendo, como a situação chegou a um ponto perigoso nesta quarta-feira, quando o time disputou sua 29ª partida pela Serie A: o técnico Andrea Pirlo, sob forte pressão, corria o risco de demissão em caso de derrota para o Napoli. A Velha Senhora venceu e aliviou a pressão, mas os problemas continuam – e provavelmente a pressão continuará.

A escolha de Andrea Pirlo foi uma surpresa. Ele foi anunciado como substituto de Maurizio Sarri em agosto, dias depois de ser anunciado para comandar o time sub-23 do clube. Sua falta de experiência como técnico pesava contra e havia o risco do time não se desenvolver como o esperado. Era um risco que a Juventus deveria estar pronta a correr, já que escolheu pelo ex-jogador mesmo assim.

Paolo Cannavaro, antigo companheiro de Pirlo na seleção italiana e também ex-jogador da Juventus, comentou esta semana sobre o caso ao dizer que a Juventus erraria duas vezes se o demitisse. O clima, claro, não é dos melhores para Pirlo. E o ponto aqui é o que a Juventus acredita daqui para o futuro. Ao que parece, o próprio clube não tem essa resposta. E isso independe do destino do treinador.

Quando se contrata Pirlo, a ideia de um técnico que chegue para ser campeão de tudo parece otimista demais. Claro, se esperava que o time fosse mais competitivo na Serie A, especialmente, mas o problema é que a Juventus vem com expectativa de ganhar a Champions League nos últimos anos. Menos que isso tem sido considerado insuficiente – haja visto o que foi a temporada de Maurizio Sarri.

Ninguém contrata Cristiano Ronaldo para ganhar só o Italiano. Por isso, a contratação de Pirlo, vista por este prisma, já seria contestável. Se o time quer ganhar o mais rápido possível, afinal o português não está ficando mais jovem com o tempo e não deve ter muitos anos pela frente no alto nível, por que contratar um técnico sem qualquer experiência?

Talvez houvesse uma expectativa de repetir casos como o de Pep Guardiola, que assumiu o time principal do Barcelona em 2008 com a missão de reformular um elenco que parecia cheio de talentos, mas cheio de problemas. Há, porém, duas diferenças importantes daquele episódio para o da contratação de Pirlo. Primeiro, Guardiola era técnico do time B do Barça, acumulando experiência no banco e conhecimento do elenco de jovens do clube, o que o ajudaria muito no time de cima. Segundo, houve uma ampla reformulação, com a saída de nomes badalados como Ronaldinho e Deco para a abertura de espaço para antigos coadjuvantes, como Lionel Messi, para assumirem o posto de protagonistas. Nem Pirlo teve experiência no time de baixo, nem houve reformulação no clube.

A realidade se impõe e a Juventus sabe que não será campeã italiana pela primeira vez em nove temporadas. A Inter tem o título encaminhado e parece só uma questão de tempo para a confirmação. A Juventus claramente precisa de uma reformulação, e isso indica não só mudanças de nomes, com o rejuvenescimento da equipe em posições-chave, mas também uma limpa na folha salarial muito pesada do clube de Turim. Este é um ponto crucial, porque o clube tem se sacrificado financeiramente e a perda do título já terá um impacto. Se ficar fora da Champions, como ainda há risco, o impacto será devastador e a reformulação passa de desejável para imprescindível.

Em fevereiro de 2020, relatamos como a Juventus tinha alcançado uma marca preocupantes, com os gastos com salários alcançando 71% das receitas, algo que seria irregular na Uefa – mas foi flexibilizada após as perdas pela pandemia da COVID-19. Em agosto do mesmo ano, falamos sobre como o balanço da Juventus tinha pontos de preocupação, mas não era desesperador. A situação se mantém assim, exceto se o clube não for à próxima Champions League. Neste caso, a situação pode se tornar crítica.

Financeiramente, há um sinal amarelo. Esportivamente também. A vitória sobre o Napoli foi importante além do resultado, já que foi também uma boa atuação, muito mais convincente do que vinha sendo há algumas partidas. O ponto de alerta é porque a Juventus tem confrontos mais difíceis, em teoria, que o Napoli até o fim do Campeonato Italiano. Há confrontos em casa com o Milan, atual segundo colocado, e contra a líder Inter, na penúltima rodada. O Napoli, por sua vez, joga contra Inter e Lazio em casa até o fim da temporada, nos dois jogos mais difíceis entre aqueles restantes. Por isso, a Juventus de Pirlo precisará mostrar um desempenho similar nos nove jogos restantes para atingir o objetivo mínimo. O técnico sabe disso.

“Nós deixamos muito pontos pelo caminho. Queríamos ter tido a mesma atitude que tivemos contra o Napoli: quando você se sacrifica e você tem esse espírito, você pode levar o resultado para casa de forma segura”, disse Pirlo depois do jogo. Ele descreveu jogos restantes da temporada como “um mini-torneio de 10 jogos que espera por nós”. Além do Campeonato Italiana Juve tem a Copa da Itália pela frente, onde enfrentará a Atalanta, no dia 19 de maio.

Caso garanta a classificação à próxima Champions League, a Juventus estará diante de um dilema. A aposta em Pirlo não deu o resultado esperado. O desempenho na Serie A, até aqui, é ficou aquém da expectativa, ao menos em um clube que tem sonhos europeus de sair da fila do maior torneio de clubes da Europa e levantar a taça pela primeira vez desde 1996. Na Champions, foi decepcionante com a eliminação diante do Porto. Fica cada vez mais latente que o time precisa de uma reformulação no seu elenco. Há nomes muito importantes que estão na reta final das suas carreiras, como Giorgio Chiellini, de 36 anos; Leonardo Bonucci, 33; e Cristiano Ronaldo, 36. Quanto tempo eles ainda podem render em alto nível? Não se sabe. Depender deles passa a ser um risco maior a cada dia que passa.

É possível adiar a reformulação por mais um ano trazendo um técnico tarimbado para tentar um último tiro em busca da Champions na temporada que vem? É possível. Isso, porém, seria romper com Pirlo, criar um novo trabalho e apostar em um resultado rápido com quem vier. Mesmo que venha um técnico com experiência e capaz de organizar o time rapidamente, é uma aposta de risco e no curto prazo. E, mesmo assim, provavelmente seriam necessários reforços, especialmente no meio-campo, o que vai significar ao menos uma certa mudança no elenco.

Se a Juventus quiser manter Pirlo por acreditar que ele pode desenvolver um bom trabalho, será inevitável que a reformulação aconteça. E isso pode significar não ter tempo o bastante para aproveitar os melhores anos de Cristiano Ronaldo para tentar a conquista do título da Champions League.

As reformulações não são previsíveis e os resultados podem não chegar imediatamente. Há uma base jovem que pode servir para o time se reconstruir, como os zagueiros Merih Demiral, de 23 anos; e Matthijs de Ligt, de 21; Rodrigo Betancur, de 23 anos, e Weston McKennie, de 22 anos; no ataque, Dejan Kulusevski, 20 anos, e Federico Chiesa, 23 anos, são nomes para o presente e para o futuro. Paulo Dybala é um jogador de muita técnica, talento e capacidade e ainda tem muito tempo de carreira aos 27 anos. Mas há dúvidas sobre ele, físicas e de regularidade. O que o clube quer fazer em relação a ele? Tentar recuperá-lo e torná-lo parte fundamental do projeto ou fazer caixa com ele, dimuir a folha e ganhar fôlego para contratações? É uma parte do dilema que o clube vive.

Para amenizar a alta folha salarial, será preciso negociar os jogadores que são meros coadjuvantes no elenco e possuem salários altos, como Adrien Rabiot, de 26 anos; Aaton Ramsey, de 30; e mesmo Alex Sandro, lateral esquerdo de 30 anos que é titular, mas não tem rendido mais da mesma forma. Há nomes que ainda podem render, como Federico Bernardeschi, de 27 anos, e Álvaro Morata, de 28. Arthur, mesmo sendo jovem, com 24 anos, não tem correspondido. Talvez possa ganhar uma nova chance na próxima temporada para fazer diferente, mas não deve ter um grande papel no elenco.

À medida que luta por uma vaga na Champions, a Juventus se aproxima de ter que lidar com o dilema de apostar em Pirlo e em uma reformulação se faz necessária, ou tentar adiar para buscar a última raspa do tacho e apostar em um possível título da Champions League. Não é uma decisão simples e passará, de qualquer forma, pelo mercado que o clube terá pela frente no meio do ano. O que acontecer até o dia 22 de maio, data da última rodada, será importante, mas só o primeiro passo dos próximos que a Velha Senhora terá que dar. Resolver esse dilema passa por muito mais que Pirlo. passa pela diretoria e por qual caminho que o clube quer tomar para os próximos anos.

Fuoriclasse

  • Depois de dois anos em que foi campeão, mas não foi artilheiro, Cristiano Ronaldo está exatamente na situação inversa: é artilheiro da Serie A com 25 gols, contra 21 de Romelu Lukaku. Apesar da Juventus estar longe do título, ao menos essa conquista pessoal parece bastante possível que fique em Turim. É algo importante para Cristiano, que foi artilheiro na Inglaterra e na Espanha e quer ser também na Itália.
  • A Inter está na rota do título italiano e seria preciso algo muito improvável para evitar que o scudetto fosse para as mãos dos nerazzurri. Os 11 pontos à frente na tabela parecem irreversíveis, já que são nove jogos pela frente. Para não depender de ninguém, a Inter precisa de cinco vitórias e em empate nas nove rodadas finais. Provavelmente precisará menos de menos do que isso.
  • No meio da disputa entre Napoli e Juventus está a Atalanta. Em quarto lugar, com 58 pontos, um a menos que a Juventus e dois a mais do que o Napoli. Por isso, está ameaçada também. Embora o time tenha um ótimo desempenho em campo, a diferença de pontos não permite qualquer tropeço. O Milan ainda corre risco, mas o desempenho ao longo da temporada indica que é improvável que o time perca uma vaga na Champions. A briga deve ficar restrita mesmo a Juventus, Atalanta e Napoli, e esta será a disputa mais interessante na reta final da Serie A.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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