Serie A

Giuseppe Rossi encerra uma carreira de auge curto, mas dedicação sem fim

Giuseppe Rossi teve momentos excelentes dentro de campo, em especial com o Villarreal, e nos últimos anos colocou seu esforço acima de tudo, diante das persistentes lesões

Giuseppe Rossi teve um auge marcante. O atacante gastou a bola no Villarreal, enquanto também teve boas passagens por Fiorentina e Parma. No entanto, o italiano para sempre levará um “e se…” atrelado à sua biografia. As lesões destruíram as perspectivas do artilheiro, que sequer teve chance de disputar uma Copa do Mundo ou uma Eurocopa pela seleção da Itália. Os últimos anos contariam com uma luta até comovente de Giuseppe Rossi contra o seu corpo, mas ainda assim apaixonado pelo jogo. Independentemente da idade e dos problemas físicos, o veterano insistiu por um recomeço e não quis abandonar seu amor sobre a bola. Porém, neste sábado, ele confirmou seu merecido descanso, com a aposentadoria da carreira profissional aos 36 anos.

Rossi passou as duas últimas temporadas na Serie B do Campeonato Italiano, com a camisa da Spal. O veterano seguiu com dificuldades para manter o ritmo. Em 2022/23, disputou apenas cinco jogos e não evitou o rebaixamento do time. Seria hora de admitir o final e buscar novos horizontes, depois de uma batalha tão árdua contra as graves contusões. É um jogador para ser lembrado com carinho pelos bons momentos e também com respeito, pela maneira como tratou o futebol como prioridade acima de todas as dores.

Os números de Giuseppe Rossi

  • Villarreal: 192 jogos, 82 gols, 25 assistências
  • Fiorentina: 42 jogos, 19 gols, oito assistências
  • Celta: 29 jogos, seis gols, uma assistência
  • Parma: 20 jogos, nove gols, quatro assistências
  • Spal: 19 jogos, três gols
  • Levante: 17 jogos, seis gols, duas assistências
  • Manchester United: 14 jogos, quatro gols, uma assistência
  • Newcastle: 13 jogos, um gol
  • Genoa: 10 jogos, um gol
  • Real Salt Lake: sete jogos, um gol
  • Seleção principal: 30 jogos, sete gols, duas assistências
  • Seleção olímpica: quatro jogos, quatro gols
  • Seleções de base: 38 jogos, 15 gols

O ótimo início de carreira

(Foto: AP)

Giuseppe Rossi nasceu em Nova Jersey, nos Estados Unidos, filho de imigrantes italianos. O início de sua trajetória no futebol aconteceu dentro de casa: seu pai era treinador de uma equipe escolar e incentivou o garoto a seguir na carreira. Tinha talento para isso. Atuou primeiro no Clifton Stallions no Ensino Médio, antes de se mudar para a Itália quando tinha 12 anos. Ficou quatro temporadas no Parma e aprimorou seus atributos, até ser descoberto pelo Manchester United.

Levado para a base do United, Giuseppe Rossi não emplacou na Premier League. Marcou gols pelos Red Devils em 2005/06, mas limitado às copas nacionais, e não deslanchou mesmo num empréstimo ao Newcastle. Sua carreira só decolou quando voltou ao Parma, onde ganhou sequência e atraiu atenção do Villarreal. A partir de 2007/08, o atacante virou um dos principais atacantes em atividade no Campeonato Espanhol e acumulou muitos gols. Formou duplas azeitadas com Nihat Kahveci e depois com Nilmar no ataque do Submarino Amarelo. O italiano seria destaque numa campanha que levou os valencianos ao vice de La Liga e passou a disputar a Champions League com frequência. Arrebentou também na Liga Europa 2010/11, na qual alcançou as semifinais e caiu diante do Porto.

Giuseppe Rossi também se destacava com a seleção da Itália naquele momento. Suas convocações se acumulavam desde o sub-16 e continuaram a cada nível que subia. O atacante foi artilheiro das Olimpíadas de 2008, com quatro gols, e esteve presente na Copa das Confederações de 2009 – com direito a dois gols sobre os EUA onde nasceu na fase de grupos. Foi também pré-convocado à Copa de 2010, mas não permaneceu na lista final de Marcelo Lippi. Porém, em 2011/12, o calvário do atacante teve início numa temporada em que o Villarreal terminou rebaixado. Foram duas rupturas de ligamentos consecutivas, que interromperam sua trajetória no Submarino Amarelo e o tiraram da Euro 2012.

Os repetidos recomeços

Giuseppe Rossi (AP Photo/Fabrizio Giovannozzi)

Com o descenso do Villarreal, Giuseppe Rossi foi vendido à Fiorentina em janeiro de 2013. Por conta dos problemas físicos, o atacante só estreou no final da temporada. E o começo da Serie A 2013/14 até deu esperanças de que o atacante voltasse ao ápice, com um primeiro turno arrasador pela Viola. Entretanto, em janeiro de 2014 ele sofreu outra lesão ligamentar. Voltou a tempo de terminar o campeonato, mas não de ser convocado para a Copa do Mundo de 2014, cortado na pré-lista. E, para piorar, em agosto de 2014, o italiano sofreu mais uma séria contusão no menisco.

Sem conseguir uma sequência na Fiorentina, Giuseppe Rossi foi emprestado para o Levante em 2015/16 e teve algumas boas partidas, além de criar laços com a torcida. Depois, também ficaria mais um ano com o Celta em 2016/17. Não rendia tanto e, no segundo turno de La Liga, enfrentou mais um rompimento dos ligamentos. Na luta contra o próprio corpo, Rossi teve uma rápida passagem pelo Genoa em 2017/18, até passar um ano e meio sem contrato. Neste intervalo, treinou com o Villarreal e ganhou o apoio do clube, mas não ficou. O recomeço aconteceu em 2020, na MLS, com a camisa do Real Salt Lake. Na primeira experiência no país onde nasceu, disputou só sete partidas e pouco contribuiu antes de ser dispensado.

Giuseppe Rossi ficou sem contrato ao longo de 2021, até a Spal abrir as portas. O atacante passou semanas em treinamento e, dando indícios positivos em sua forma física, ganhou um contrato com os biancoazzurri. Em sua primeira temporada, ainda conseguiu anotar três gols em 14 partidas pela Serie B, mas sem alcançar o acesso. Ficou sem contrato e passou meses sem time, até retornar à própria Spal em fevereiro de 2023, na tentativa de evitar o descenso à terceirona. Mais uma vez, tudo aconteceu em vão.

Tecnicamente, Giuseppe Rossi poderia estar numa prateleira privilegiada do futebol italiano. O estilo de jogo que combinava habilidade, velocidade, capacidade de finalização e inteligência nos passes não o distanciava de Fabio Quagliarella ou mesmo de Antonio Di Natale. A criatividade de Rossi o permitia atuar inclusive como um camisa 10, por vezes comparado com Alessandro Del Piero no início da carreira. A versatilidade era outro de seus trunfos. No fim, esse talento acabou subaproveitado por causa das lesões. Mas nada que impeça o veterano de ser elogiado, em seus recortes, como um atacante digno de Copa do Mundo – mesmo a perdendo duas vezes. Acima de tudo, foi um apaixonado pela carreira de futebolista.

A carta de despedida de Giuseppe Rossi

Hoje eu anuncio minha aposentadoria do jogo bonito.

Foi uma jornada inesquecível! De correr ao redor do quintal quando criança com uma bola no meu pé e ter meu pai como técnico, a jogar no mais alto nível de futebol possível, nos mais bonitos estádios que o futebol pode oferecer e atuar com/contra os melhores jogadores e clubes no mundo… Sou eternamente grato por fazer parte desse jogo.

Meus sonhos se tornaram realidade. Minha vida é realizada.

Tudo que eu sempre quis foi ser o melhor jogador que poderia. Eu dediquei cada centímetro de mim, derramei sangue, suor e lágrimas por esse jogo. Posso deixar o esporte em paz, sabendo que fiz tudo o que eu poderia para atingir meus objetivos. Minha jornada é única. Muitos altos e alguns baixos. Esses momentos de baixa (a maioria lesões) nunca me definiram. Meu propósito era mais forte do que qualquer obstáculo que estava diante de mim. Nunca parei de sonhar quando as coisas que eu não podia controlar saíam de controle. Amo tanto esse jogo que nunca pude desistir. É por isso que estou escrevendo com o coração pesado, mas um grande sorriso no rosto – sou orgulhoso do que consegui!

Para minha família… seus sacrifícios e apoio sem fim me deram força e coragem para atingir objetivos que eu pensava que eram inalcançáveis. Muito obrigado.

Aos meus clubes… Foi uma honra fazer parte de vocês e representar a camisa! Vesti com orgulho e dei meu máximo, a cada e em todo jogo. Obrigado por confiarem em mim.

Aos meus companheiros… Tantas batalhas em campo juntos, tantos momentos incríveis compartilhados fora de campo. Obrigado por serem figuras importantes durante minha carreira, que me desafiaram a ser o melhor jogador que poderia ser.

Aos torcedores… O jogo não seria bonito sem vocês. Vocês sempre estiveram ao meu lado durante meus 19 anos de carreira. Compartilhamos alguns momentos que durarão por toda a vida! Obrigado.

Eu verdadeiramente vou sentir falta do jogo, mas sei que agora é a hora.

Rumo ao próximo capítulo.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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