“O que havia nas partidas, todo mundo viu. Todos sabem o que Maradona era capaz de fazer. Mas nos treinos ele tinha gestos ainda mais especiais. Era o único capaz de fazê-los. Eu me lembro de um vídeo em particular, em que ele ficava na linha da pequena área e tentava acertar o travessão, para receber a bola de volta. Ele acertava de primeira. E conseguia mais quatro ou cinco vezes. Tudo isso para mostrar que tinha uma precisão incrível”.
As palavras de admiração saíram da boca de ninguém menos do que Zidane. Já experiente, o craque francês tentou repetir a brincadeira de Maradona com o travessão. E ele mesmo se descreveu como “ridículo”, por conseguir repetir só uma vez, após mais de 20 tentativas, o que o argentino fazia com facilidade. A reverência de um dos maiores jogadores da história àquele que tantos chamam de “Dios”.
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Pode-se questionar a divindade de Maradona, um ser humano tão escancarado em suas quedas e em suas glórias. Um personagem riquíssimo em histórias e contradições. Porém, o talento do camisa 10 precisa ser imaculado em relação ao tornado de opiniões que envolve o argentino. Como Zidane mesmo afirmou, Dieguito era capaz de coisas que nenhum outro conseguiu. Que não seja Deus, e muito menos santo, Maradona era um gênio que até parecia ter poderes mágicos.
Talvez um dia a ciência descubra o magnetismo que existia entre o corpo de Maradona e a bola. Não importa como ela viesse, ele a dominava. E ela a obedecia. O objeto inanimado parecia se tornar algo vivo, adestrado pelo camisa 10. Seguia sempre os movimentos de seu mestre. Parecia uma extensão de seu corpo. A bola só se tornava bola de novo quando o craque a libertava em um passe cirúrgico para algum companheiro. Quando ele lhe tirava a vida e a fazia adormecer no fundo das redes.
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Maradona se transformava dentro de campo. O jogador extremamente habilidoso era complementado pelo homem de brio e competitivo. O camisa 10 apanhava muito, mas logo se levantava, para entortar o próximo marcador. Dribles se misturavam com a sua gana, assistências com o seu espírito coletivo, gols com a sua vocação à vitória. Nunca sucumbia. Assim, El Pibe transformou a maioria das equipes que passou. Fez com que elas fossem além, por seu talento, mas também por sua vontade.
Quando o jogo estava parado, no entanto, Maradona mostrava a sua outra face. Puramente o mágico que existia em si, o malabarista, o acrobata. A arte circense inteira em apenas um jogador. As firulas que valorizavam ainda mais a técnica objetiva que se via em campo. Que dimensionavam o que só o camisa 10 conseguia fazer. O que até Zidane desejou, mas nunca conseguiu. Uma lenda que completa apenas 55 anos nesta sexta-feira, mas parece já ter séculos, porque também durará séculos.
Abaixo, três vídeos de Maradona. No primeiro, o craque objetivo e competitivo, e ainda assim genial. Nos dois seguintes, o hipnotizador de bolas.



