Itália

‘É normal isso?’: Presidente do Napoli usa Modric para expor ferida do futebol italiano

Em semana desastrosa para seleção italiana, fala do dirigente recoloca em pauta as limitações técnicas e estruturais do Calcio

A eliminação da Itália para a Bósnia, nos pênaltis, na repescagem da Copa do Mundo, ainda reverbera no país. Fora do Mundial pela terceira edição consecutiva, a Azzurra viu a pressão sobre seu futebol aumentar de vez — e, no meio desse cenário, Aurelio De Laurentiis resolveu mirar em um ponto sensível.

Presidente do Napoli e figura influente no Calcio, o dirigente usou Luka Modric, do Milan, como exemplo para questionar o nível atual do futebol italiano. A fala, ao “Corriere dello Sport”, mexeu com um tema que voltou ao centro das discussões após mais um vexame da Azzurra.

— É normal que o Modric, que jogou poucos minutos no Real Madrid na última temporada, venha pra cá com 40 anos e vire titular absoluto, dominando o jogo? — questionou.

A provocação não é exatamente sobre Modric, mas sim sobre a capacidade de competição da Serie A e, por consequência, a dificuldade do futebol italiano de acompanhar a evolução do jogo em nível internacional.

O que De Laurentiis quis dizer ao usar Modric como exemplo?

Aurelio De Laurentiis, presidente do Napoli
Aurelio De Laurentiis, presidente do Napoli (Foto: Daniele Buffa/Gribaudi/ImagePhoto/Imago)

A observação de De Laurentiis toca em um debate inevitável neste momento: afinal, qual é hoje o real nível de competitividade do futebol italiano?

Quando um jogador consagrado, mas já em fase final de carreira, chega e se impõe com tanta naturalidade, a discussão deixa de ser apenas sobre talento individual e passa a envolver o ambiente em que ele está inserido.

Não se trata de diminuir Modric, um meio-campista cuja inteligência, leitura de jogo e capacidade de controlar o ritmo seguem em altíssimo nível. O ponto levantado é outro: o que o sucesso imediato de um veterano diz sobre a exigência do campeonato que o recebe?

A crítica ganha ainda mais força porque aparece justamente em uma das semanas mais constrangedoras da história recente da Azzurra. A queda para a Bósnia consolidou um cenário impensável até pouco tempo atrás: uma seleção tetracampeã do mundo ausente de três Copas seguidas.

Mais do que um tropeço isolado, a nova eliminação reforça a sensação de que o problema da Itália não está somente na troca de técnicos, em uma geração específica ou em um ciclo ruim de seleção. O debate passou a ser mais amplo e envolve a base do sistema: a formação de jogadores, o nível de exigência doméstico e a capacidade de o país produzir equipes e atletas realmente competitivos no topo do futebol mundial.

A Itália segue tendo camisa, tradição, torcida, estádios cheios em jogos grandes e clubes relevantes no continente europeu. O problema é que, quando o debate sai do peso histórico e entra no nível de exigência, intensidade e renovação, a distância para as principais potências parece cada vez mais evidente.

No centro da crítica de De Laurentiis está uma constatação incômoda: o problema já não parece ser apenas da seleção, mas de um futebol italiano que há tempos dá sinais de desgaste.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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