Itália

Sarri exalta futebol da Inglaterra e se arrepende de ter ido embora: “Foi um erro”

Atual treinador da Lazio, Sarri passou apenas uma temporada no comando do Chelsea antes de retornar à Itália para treinar a Juventus

Após encantar com o Napoli e quase derrubar a hegemonia da Juventus, Maurizio Sarri foi contratado pelo Chelsea. Era uma tentativa dos ingleses de praticar um futebol ofensivo e divertido, mas a sua primeira e única experiência fora da Itália durou apenas uma temporada, com altos, como o título da Liga Europa, e baixos. O retorno para treinar a Velha Senhora pareceu ter sido tomada por dificuldade de adaptação, mas Sarri se arrepende de ter desistido da Premier League tão rapidamente.

Em entrevista ao La Repubblica, Sarri, agora na Lazio, fez algumas sugestões para melhorar o futebol italiano e exaltou o da Inglaterra como o único modelo “sustentável”. Acrescentou que realmente teve dificuldades para se adaptar ao Chelsea, mas estava se divertindo nos últimos meses daquela temporada e foi um erro ter saído para treinar a Juventus.

Sarri foi também uma tentativa de propor um futebol mais ofensivo – os dirigentes não são muito criativos em lugar nenhum. Conseguiu ser campeão italiano, mas com a menor pontuação da sequência de nove scudettos da Juventus e o nível de desempenho deixou a desejar. Tanto que Sarri foi trocado por Andrea Pirlo depois de apenas um ano.

– Nós tínhamos apenas que vencer a Champions League, mas era uma mensagem manchada. Eu venci a liga com um grupo no fim de um ciclo. O clube me contratou porque tinha o desejo, mas não a convicção, de mudar o seu estilo. No Chelsea, eu tive dificuldade de mergulhar em um clube atípico, sem um diretor-esportivo, no qual nenhum treinador dura dois anos. Mas nos últimos meses eu me diverti e eu errei em querer sair. Não tanto do Chelsea, que teria me mantido, mas da Premier League, um contexto de beleza única. Retornar à Itália foi um erro – disse.

Sarri exaltou alguns detalhes da Inglaterra que, na sua opinião, são responsáveis por manter a magia do futebol, como o blackout que impede que as partidas sejam televisionadas para o Reino Unido nas tardes de sábado e a tradição de realizar a final da Copa da Inglaterra sempre em Wembley.

– O único futebol sustentável é o inglês, o mais tradicional. Na tarde de sábado, não tem jogo na televisão porque as pessoas lotam os estádios das categorias menores. A final da Copa da Inglaterra é o jogo mais assistido do mundo depois da final da Champions League (nota: carece de fontes) e há 100 anos têm sempre os mesmos rituais e é disputada em Wembley, não na Arábia Saudita.

– Poderíamos pelo menos começar com as coisas pequenas, como abandonar as turnês de verão e trazer a Copa Itália de volta a agosto para os grandes times. Fazê-los jogar em campos da terceira divisão, que ganhariam dinheiro para sobreviver o ano inteiro. Eles certamente diriam que há um problema de ordem pública porque a Juventus não pode ir para Campobasso (pequena cidade italiana 100 kms ao norte de Nápoles).

– A Copa Itália é um evento clandestino moldado para o público da televisão nas fases finais. Mas não é futebol. (Futebol) é o Bayern perdendo para um time da terceira divisão. Há uma tentativa de não fazer o movimento de cair na globalização. Então são todos ricos, enquanto nossos ricos são os pobres da Europa. Futebol é um esporte de emoção. Se você retirar a emoção, certamente não é o melhor show do mundo para a televisão. É a criança que vai ao estádio que mantém a emoção viva, mas não há futuro se eles se concentrarem na audiência dos melhores momentos – completou.

“A Lazio nunca pode ser que nem o Napoli”

Em outras respostas, Sarri deu um giro por diversos assuntos. Como o calendário do futebol europeu, um dos mais quentes do momento, após a séria lesão de Gavi pela seleção espanhola. Afirmou que deveria haver no máximo 50 jogos e espera que alguém tenha a “honestidade intelectual” de reconhecer que ele “sempre disse certas coisas a vida inteira”, referindo-se a críticas ao excesso de jogos – que são ecoadas por diversos treinadores ao redor do continente.

Um ponto interessante da conversa foi a comparação entre o estilo do Napoli que o levou à fama entre 2015 e 2018, como um dos times mais ofensivos e incisivos da Europa, e a Lazio que treina atualmente, vice-campeã italiana com base em uma forte defesa. Neste começo de temporada, está sofrendo para fazer gols. Marcou apenas dois nos últimos quatro jogos.

– Eu não posso e não preciso necessariamente jogar o estilo de futebol do Napoli, mesmo se as pessoas esperem o mesmo estilo de jogo de mim. Ter armadores não é a mesma coisa que ter jogadores de contra-ataque. Eu tenho que me adaptar. A Lazio nunca pode ser que nem o Napoli.

– Immobile, por exemplo. Ele precisa atacar profundidade e não jogar contra suas melhores habilidades. Outro dia ele me perguntou: ‘Mister, o que eu preciso fazer para voltar a como eu era antes?’. Eu respondi: ‘Faça o que você sempre fez, não vá em direção à bola, continue tentando furar a defesa adversária, jogando em cima deles’ – explicou.

O último jogo antes da pausa internacional foi o clássico da capital italiana entre Lazio e Roma, e Sarri foi até poético ao descrever as suas sensações.

– O dérbi me esmaga. De fora, parece um exagero, mas, quando você o vive, é letal. Tudo que você respira se transforma no dérbi. Funcionários de armazém estão em clima de dérbi, cozinheiros estão em clima de dérbi. O dérbi destrói sua vida, mas é bonito – encerrou.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
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