Inglaterra

O dia em que o Wolverhampton, destino de Arias, virou potência europeia e ‘criou’ a Champions

Muitos vão reclamar que está indo para um clube pequeno na Inglaterra, o que eu não concordo

É triste acordar num mundo onde a gente não tem mais o Jhon Arias para desfrutar. Tem sido um prazer enorme acompanhar o florescimento de um jogador tão interessante, mostrando para ele mesmo e depois para os outros que trata-se de um atleta capaz de brilhar em qualquer companhia.

Porém, podemos concordar que ele merece realizar o sonho dele de jogar na Europa. Muitos vão reclamar que está indo para um clube pequeno na Inglaterra — aí não podemos concordar tanto.

Há tempo que o Wolverhampton Wanderers não figura entre a elite do país. Mas tem a sua própria grandiosidade. Durante a década de 50, era a maior potência do futebol inglês, ganhando o título em 1954, 58 e 59, e vencendo a Copa (na época tão importante quanto) em 60.

De uma certa maneira, o clube está responsável pelo nascimento da competição conhecida hoje em dia como a Liga dos Campeões.

Como o Wolverhampton ‘criou’ a Champions League

No auge da sua supremacia, os Wolves organizavam amistosos contra grandes adversários da Europa, usando a novidade excitante de iluminação artificial, com tudo passando ao vivo pela televisão. Em dezembro de 1954, o time visitante era o Honved, de Bucareste, capital húngara, com a base daquela seleção maravilhosa da Hungria.

O Honved era melhor, e logo abriu 2 a 0. Mas houve um lado bem “Dick Vigarista” no Wolves. Molhou tanto o campo que mais parecia um campo da batalha da Primeira Guerra Mundial. A bola deixou de rolar, e o estilo físico do Wolves conseguiu se impor. Ganhou por 3 a 2, com os setores mais ufanistas da imprensa inglesa declarando que os Wolves eram os campeões do mundo.

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Time do Wolverhampton antes da partida contra o Honved, em 12 de dezembro de 1954 (Foto: Imago)

Lendo isso, os franceses — com toda razão — ficaram revoltados, e resolveram achar uma maneira mais justa para definir o campeão do continente. Aí, no ano seguinte, nasceu a nova Copa Europa. Hoje, conhecida como UEFA Champions League.

Teria acontecido sem os eventos de dezembro de 1954? Sim. Mas talvez não com tanta pressa. O novo clube de Jhon Arias colocou dinamite no processo.

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Por que tantos clubes ingleses viveram épocas douradas

Se fala muito hoje em dia sobre o Big Six na Inglaterra. Mas na verdade é que no andamento da história, muitos clubes desfrutaram de seu momento ‘Wolves na década de 50.’ Quase todo mundo tem um passado glorioso para lembrar. Isso tem duas explicações: uma bastante positiva, a outra nem tanto.

O primeiro é que o futebol na Inglaterra se desenvolveu cedo. Aconteceu antes da mídia eletrônica, num momento em que a vida era fortemente local. E era uma vida muito ligada ao processo industrial. A Inglaterra ainda se via como “a oficina do mundo”, e quase todas as cidades eram responsáveis pela produção de alguma coisa específica.

O clube do futebol servia como uma extensão da cidade, uma expressão da sua identidade diante o resto do país. E ainda serve. As fábricas fecharam, e muitas cidades provincianas têm hoje em dia um ar melancólico, lugares com um passado grandioso mas com um futuro incerto. O constante nisso tudo é a presença do time do futebol como fonte de orgulho local.

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Troféu no estádio Molineux com a legenda “Viva os Wolves, campeões do mundo” comemora vitória do Wolverhampton sobre o Honved em 1954 (Foto: Imago)

A segunda explicação tem a ver com a maneira que, durante várias décadas, o futebol inglês maltratava os seus jogadores.

Não tinha liberdade de contrato. O jogador estava preso ao seu clube durante a carreira inteira. O clube somente o negociava se quiser. Houve também um limite do salário — bem baixinho, por sinal.

Era muito difícil um jogador pressionar o seu clube para sair, e também faltava um motivo bem importante: o teto salarial não permitia ele ganhar mais mesmo indo para um clube maior.

Grandes nomes, então, ficavam defendendo times bem modestos. Stanley Matthews — o “Garrincha inglês”, que deitou e rolou em cima de Nilton Santos em 1956 mesmo com 41 anos — representou o Stoke City e Blackpool. Um outro ponta, Tom Finney, entre os candidatos a ser o melhor inglês de todos os tempos, passou a carreira inteira com o Preston North End. Um clube italiano quis contratá-lo, e ia multiplicar o seu salário por um fator de dez. Finney nem sabia. O Preston não quis vender, e nem informou sobre a oferta.

Por bem e por mal, então, havia uma distribuição de talento dentro do futebol inglês que permitia uma fase dourada para quase todos os clubes — inclusive o Wolverhampton Wanderers.

Sorte para o Jhon Arias agora na busca de mais glória para o Wolves!

Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

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