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Wenger sobre investida chinesa: “Se houver forte desejo político, devemos nos preocupar”

Os brasileiros têm sofrido com as investidas chinesas por seus melhores jogadores há algum tempo, mas foi apenas quando Ramires aceitou a proposta do Jiangsu Suning para deixar o Chelsea que o restante do mundo prestou realmente atenção no que estava acontecendo. Depois disso, vários outros tomaram o mesmo caminho, saindo do futebol europeu para receber quantidades indecentes de dinheiro no futebol chinês: Gervinho, Jackson Martínez, Fredy Guarín e, mais recentemente, Alex Teixeira, que estava no radar de Chelsea e, principalmente, Liverpool, mas agora se junta a Ramires no Jiangsu. O número crescente de contratações e as cifras milionárias envolvidas já preocupam gente no Velho Continente, como o técnico Arsène Wenger, do Arsenal.

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Para o francês, a forte investida dos chineses em clubes europeus é motivo de preocupação para o futebol inglês, porque “a China parece ter o poder financeiro para contratar uma liga europeia inteira para lá”. O técnico dos Gunners lembrou que outros países emergentes no futebol também tiveram momentos de gastança que cessaram após algum tempo, citando o exemplo do Japão (nos anos 1980 e 1990), mas vê uma diferença no caso dos chineses.

“Estamos há tempo bastante neste trabalho para saber que isso é apenas uma consequência do poder econômico, e eles têm isso. Será que eles vão sustentar o desejo de fazer isso? Vamos lembrar que, há alguns anos, o Japão começou a fazer isso e desacelerou depois. Não sei o quão profundo é o desejo da China, mas, se houver um forte desejo político, devemos nos preocupar”, alertou Wenger.

O técnico do Arsenal tem razão ao comentar a importância do interesse político por trás dessa onda de investimentos no futebol chinês, e é justamente isso que torna a situação da China muito sui generis para que seja de imediato comparada ao período de investimento no futebol de países do Oriente Médio.

Xi Jinping, presidente da China, é um grande fã de futebol (AP Images)
Xi Jinping, presidente da China, é um grande fã de futebol (AP Images)

Segunda maior economia do mundo, a China agora é presidida por um político apaixonado por futebol. Em novembro de 2014, com forte influência da vontade de Xi Jinping, o governo chinês deixou claro que tinha três grandes objetivos para o futebol: voltar a participar de uma Copa do Mundo, sediar uma Copa do Mundo e, eventualmente, vencer uma Copa do Mundo. Para alcançar este último, o plano é extensivo, detalhado e já tem sido posto em prática: formar o maior número de jogadores possível.

O futebol tornou-se parte do currículo escolar obrigatório, nas aulas de educação física. Inicialmente, mais de 200 escolas especializadas no desenvolvimento de jogadores de futebol foram criadas, e muito mais está por vir. De maneira geral, a ideia é de que, até 2017, o futebol seja praticado compulsoriamente em mais de 20 mil escolas por todo o país. O esporte ainda virou um dos meios de se ingressar no ensino superior.

Por outro lado, visando um efeito mais prático e imediato, o governo encontrou uma maneira de envolver os empresários mais ricos do país no projeto. Chris Atkins, especialista em futebol chinês, afirmou, em entrevista à Sky Sports, que “na China, as empresas dependem de boas relações com as autoridades e, portanto, frequentemente estão inclinadas a ajudar com iniciativas vistas como de interesse nacional”. A simples predileção de Xi Jinping pelo investimento no futebol bastou, de alguma forma, para que os empresários seguissem o caminho.

Em conversa com outro site, o Newstalk, o mesmo Atkins explicou também como as mudanças de perfil econômico na China influenciaram os afortunados chineses a virarem sua atenção para o futebol: “O governo na China quer muito investir na indústria do entretenimento. A economia chinesa sempre foi primariamente baseada na manufatura, por muito tempo, mas a China agora desenvolveu essa grande classe média, com muita renda a ser gasta, então, para diversificar a economia, eles estão investindo em entretenimento, e o esporte é grande parte disso”.

Prestar atenção em todo esse contexto não significa dizer que o projeto de Jinping necessariamente prosperará ou será financeiramente viável por um período estendido de tempo. Apenas mostra que a situação não é tão simples de se entender quanto gostaríamos que fosse. Não temos garantia alguma de que o crescimento de protagonismo absurdo dos chineses no mercado de transferências seja passageiro.

Independentemente dos efeitos a longo prazo que isso pode ter, Wenger já enxerga uma consequência imediata da presença deste novo ator no mercado: “Eles podem (inflacionar o mercado)”. Nada que, entretanto, os ingleses já não estejam fazendo por conta própria. “Mas acredito que, de qualquer forma, a inflação está batendo à nossa porta com o próximo acordo de TV começando a valer a partir do verão. Isso elevará os preços das transferências. Tenho certeza de que, em breve, a marca dos £ 100 milhões será fácil de alcançar”, completou o técnico.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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