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Vitória do respeito: Após virar as costas a seu ídolo, Newcastle terá que indenizar Jonás Gutiérrez

O lugar de Jonás Gutiérrez na história do Newcastle e seu respeito junto aos torcedores do clube são indiscutíveis. Durante suas primeiras cinco temporadas, o argentino se dedicou ao máximo para honrar a camisa alvinegra, resgatando os Magpies da Championship em 2009/10. Já em seus dois anos finais em St. James’ Park, a partir de outubro de 2013, o meio-campista virou exemplo de superação. Descobriu um câncer de testículo, se tratou, se recuperou, voltou a campo e salvou o time do rebaixamento, anotando gol e assistência na rodada final da Premier League 2014/15. Um herói para todo e qualquer fanático. Menos para a própria direção do clube, que negligenciou apoio ao atleta ao longo do tratamento. Por conta disso, Gutiérrez decidiu processar os ex-patrões. E ganhou a causa em um tribunal do trabalho britânico.

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O jogador de 32 anos entrou com ação contra o abandono do Newcastle, alegando discriminação por deficiência. O clube chegou a emprestá-lo ao Norwich apenas três meses depois da descoberta do tumor, assim como não o ajudou a arcar com os custos do tratamento e da operação, realizados na Argentina. Além disso, o meio-campista acusou o Newcastle de dificultar a renovação de seu contrato. Mesmo recuperado fisicamente, o atleta foi mantido afastado da equipe principal. Segundo sua alegação, os dirigentes tomaram esta decisão para que não cumprisse o número de jogos mínimos que ativaria a extensão automática de um ano de seu vínculo. Cinco dias após salvar os Magpies da queda, com o término de seu contrato, o argentino foi dispensado por telefone.

“Eu penso que eles temiam que minha doença significaria que eu não poderia mais atuar em alto nível e me consideraram um impossibilitado, ao invés de um ativo do clube. Eu tenho a impressão de que eles pensavam que eu não seria o mesmo jogador de novo ou que eu seria um peso nas costas do clube por causa dos efeitos prolongados da doença. Isso me causou muito estresse, diante do meu trabalho duro e comprometimento com o clube nos cinco anos anteriores”, declarou o meia, atualmente defendendo o Deportivo de La Coruña. “Durante a minha quimioterapia, nem o técnico ou os diretores me contataram para ver como eu me sentia ou para me parabenizar pela recuperação”.

Gutiérrez não conteve as lágrimas no julgamento e sua mãe afirmou que chegou mesmo a considerar suicídio, diante da maneira como o clube dispensou o filho “como se fosse um cachorro mau”. Enquanto isso, o advogado do Newcastle acusou o argentino de entrar com o processo apenas pelo dinheiro. “Não estou aqui pelo dinheiro. Estou para fazer isso por todas as pessoas que têm problemas com seus empregadores”, respondeu o veterano.

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O tribunal avaliou que Gutiérrez sofreu discriminação do Newcastle após o seu diagnóstico e também durante o retorno. Segundo a justiça, o meio-campista deveria seguir nos planos do clube também a partir do momento de sua ausência, o que não aconteceu. Já em relação à cláusula de renovação, o tribunal concluiu que o clube deveria rever o número mínimo de jogos requerido para acionar a extensão, diante da ausência do atleta. A diretoria terá que indenizar o meio-campista em £ 2 milhões. A forma do pagamento do valor será negociada em uma nova audiência.

“Apenas duas semanas após retornar o clube em novembro de 2013, na sequência de seu diagnóstico e tratamento, e no ponto em que ele estava pronto para voltar a campo, Jonás recebeu a notícia de que não estava mais nos planos do clube. Nós concluímos que essa decisão de abandonar o requerente foi tomada por causa de sua doença”, declarou a sentença. Entre as testemunhas a favor de Gutiérrez, esteve o técnico Alan Pardew – que chegou a pedir para que procurasse outro time, durante a recuperação. Já as provas apresentadas pelo diretor Lee Charnley, diretor-executivo do Newcastle, foram consideradas “evasivas e sem credibilidade”.

A vitória de Jonás Gutiérrez é, sobretudo, uma vitória do trabalhador que exigia isonomia no tratamento. Ainda assim, dentro do futebol, tem uma representatividade maior. Simboliza o respeito que se exige ao ídolo e que, embora não esteja em cláusulas, muitas vezes acaba cumprido em consideração a sua dedicação. Aconteceu assim, por exemplo, na relação entre Aston Villa e Stiliyan Petrov, com o clube ajudando o seu capitão após a descoberta de uma leucemia. Ou na decisão do Union Berlim, que renovou com Benjamin Köhler, logo após o diagnóstico de um câncer. É lógico, não dá para se esperar benevolência sempre e o clube tem o direito de ser livre em sua decisão. Mas é sempre mais legal ver quando a consideração impera. O Newcastle, porém, passou longe disso e sequer cumpriu com suas obrigações.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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