Tottenham rodou muito até chegar a Nuno Espírito Santo – e ainda parece não saber o que quer
Embora muito competente, estilo de Nuno Espírito Santo não se encaixa com o futebol "ofensivo" que o Tottenham diz procurar
Após conduzir negociações com pelo menos seis treinadores, apenas entre os que vieram a público, o Tottenham enfim decidiu quem será o seu comandante na próxima temporada. Nuno Espírito Santo, ainda mais diante das circunstâncias, é um ótimo nome pelo trabalho que conduziu no Wolverhampton. Por outro lado, por esse mesmo motivo, não parece talhado ao que o clube diz querer do seu projeto esportivo daqui para a frente.
“Eu já falei sobre a necessidade de voltarmos ao nosso DNA de jogar um futebol ofensivo e divertido e Fabio (Paratici, diretor-administrativo) e eu acreditamos que Nuno é o cara que pode pegar nosso talentoso grupo de jogadores, abraçar os jovens e construir algo especial”, afirmou o presidente dos Spurs, Daniel Levy. Ele havia feito a mesma, digamos, mea-culpa de ter “perdido de vista algumas prioridades” em uma carta ao conselho e prometeu que escolheria alguém cujos valores refletissem o “nosso grande clube” e o retorno a um futebol “com o estilo pelo qual somos conhecidos – expansivo, ofensivo e divertido”.
Ok, mas você viu algum jogo do Wolverhampton de Nuno Espírito Santo nos últimos três anos?
A dissociação entre o discurso e a prática já estava clara na lista de nomes que foram procurados antes do ex-treinador do Wolverhampton. Havia um mosaico de estilos: alguns mais fãs da posse de bola, como Mauricio Pochettino, Paulo Fonseca e Julen Lopetegui; Antonio Conte, o melhor deles, gosta de ataques mais verticais e bolas longas; Hansi-Flick é um especialista em pressão e Gennaro Gattuso… bom, ele grita bem alto.
A primeira tentativa mais séria foi Conte. Seria um grande pulo do gato contratar o atual campeão italiano e um dos melhores treinadores do mundo. Tão grande que naturalmente o Tottenham não conseguiu concretizá-lo. A história seguinte foi que Pochettino já estava de saco cheio do Paris Saint-Germain e havia pedido para retornar ao norte de Londres. Também não rolou. Hansi-Flick preferiu treinar a seleção alemã ao sair do Bayern de Munique.
As negociações chegaram a ficar avançadas com Fonseca, de saída da Roma, mas foram abandonadas pelo súbito interesse em contratar Gattuso, e aí a diretoria do Tottenham acabou recuando porque as conversas com o ex-técnico do Napoli não pegaram bem com a torcida. Foi feita uma oferta por Lopetegui, comandante do Sevilla e ex-seleção espanhola, também recusada.
“Alguns treinadores são mais motivados por fatores econômicos, mas Julen foi muito claro que está feliz aqui e que seria difícil encontrar um lugar melhor para trabalhar do que aqui”, disse o presidente do Sevilla, José Castro, confirmando que Lopetegui havia recebido “propostas às quais ele nem escutou”.
E, então, quando parecia cada vez mais provável que o Tottenham entraria na temporada ainda sob o comando do interino Ryan Mason, a contratação de Nuno Espírito Santo, um nome que estava na praça, desde o fim da temporada, foi anunciada nesta quarta-feira.
Em um vácuo, é uma contratação excelente. Nuno Espírito Santo ainda está um patamar abaixo de Conte e Pochettino, e não tem os troféus que Hansi-Flick conquistou no Bayern de Munique, mas o seu trabalho no Wolverhampton não deve em nada ao dos outros candidatos – é, inclusive, bem melhor que o de Fonseca e no mínimo no mesmo nível do de Lopetegui no Sevilla.
É verdade que teve a vantagem de contar com um canal de comunicação aberto com o super-empresário e amigo Jorge Mendes, próximo da diretoria do Wolverhampton, para formar uma pequena colônia portuguesa no seu clube. Teve alguns investimentos altos, como Rúben Neves, ainda na segunda divisão, Raúl Jiménez e Fábio Silva, mas nada no patamar dos clubes mais ricos da Inglaterra. Conseguiu terminar duas vezes a Premier League em sétimo lugar, sempre com um bom retrospecto contra equipes do Big Six.
O que ele não fazia, porém, era praticar um futebol “ofensivo e divertido”. O Wolverhampton de Nuno Espírito Santo era um time com uma defesa extremamente sólida que baseava suas ações ofensivas em contra-ataques verticais com os alas, como Adama Traoré, ou com a dupla de ataque – com Jiménez e Diogo Jota em seus melhores momentos. Tinha jogo pelos lados, tinha bola parada, mas nunca teve uma propensão especial ao ataque.
Foi o 12º time em posse de bola (49,7%) na última temporada, o décimo em finalizações por partida (12,2), o 11º em chutes no alvo (4,1), o 16º ataque da Premier League (36 gols em 38 rodadas) e foi o quarto clube cujas partidas tiveram menor média de gols – 2,32. Houve fatores atenuantes. Diogo Jota foi vendido, Jiménez se lesionou com seriedade e o jovem Fábio Silva ainda não estava pronto para liderar um ataque da Premier League.
Mas mesmo nas temporadas de maior brilho, os números não foram tão diferentes assim (47 gols em 2018/19, 51 gols em 2019/20) e bastava assistir a um jogo do Wolverhampton para perceber que não se tratava de um time ofensivo – e sem juízo de valor: há várias maneiras de ganhar partidas de futebol e a de Nuno Espírito Santo indiscutivelmente funcionou.
Mas é essa que o Tottenham quer? Pelo discurso de Levy, não. Mas aqui há uma ampla gama de possibilidades: ou o discurso é completamente vazio ou ele não faz ideia do estilo de Nuno Espírito Santo ou ele acredita que o treinador, com mais recursos à disposição, pode desenvolver um jogo mais em linha com o tal DNA que o dirigente está alardeando. Mas se era essa a prioridade, Nuno Espírito Santo, embora muito competente, não era o nome mais indicado.



