Inglaterra

A torcida do Charlton não aguenta mais a displicência e a falta de tato da administração do clube

As torcidas inglesas têm feito cada vez mais esforços para tornar suas vozes ouvidas no futebol, em parte impulsionadas pela onda de conquistas coletivas que grupos como o Football Supporters’ Federation têm conseguido. Em outra parte, simplesmente porque não veem outra alternativa para salvar seus clubes do coração de péssimas administrações, como é o caso do Charlton. Atualmente na vice-lanterna da Championship, com apenas um ponto a mais que o último colocado, Bolton (que também vive crise financeira e administrativa), o time empatou em 1 a 1 com o Blackburn neste sábado, no estádio The Valley, mas o maior destaque foi para os protestos nas arquibancadas.

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Torcedores levaram faixas pedindo para que os atuais donos do Charlton “devolvessem” o clube. A demanda, na verdade, é mais específica: querem que o proprietário, o empresário belga Roland Duchâtelet, mude seus métodos de administração ou então venda o clube para outro interessado.

Neste sábado, a torcida se fez notar ao organizar um boicote a serviços oferecidos no estádio, pedindo que ninguém comprasse coisas como as revistas oficiais de cada rodada, que trazem uma prévia do jogo, além de conteúdo exclusivo sobre o clube, lanches, souvenirs ou camisas. A ideia é de que, com prejuízo financeiro e com uma relação delicada com os patrocinadores, Duchâtelet se veja forçado a repensar seus métodos atuais. Além disso, faixas e gritos contra o belga estiveram presentes na atmosfera do estádio antes, durante e depois do jogo.

Baseado em outros exemplos, muitos deles brasileiros, você pode ter se perguntado por que a torcida não vai além e boicota também os jogos, mas a CARD (Coalition Against Roland Duchâtelet, ou “Coalizão contra Roland Duchâtelet”, em português) descarta qualquer tipo de forma de protesto que envolva também abandonar a equipe. A ideia é de “apoiar o time, não apoiar o regime”.

Diferentemente de vários outros incidentes de torcedores insatisfeitos com administrações na Inglaterra, o caso do Charlton não tem a ver com dinheiro. O problema é a maneira distante e fria como Duchâtelet administra o clube, além da displicência com o projeto esportivo. O belga adquiriu a equipe em janeiro de 2014 e só compareceu a duas partidas no The Valley. Exemplo suficiente para que muitos torcedores ficassem indignados, mas a falta de tato de sua administração no Charlton teve um episódio ainda mais emblemático: Katrien Meire, atual diretora-executiva do clube, afirmou que as reclamações dos torcedores eram estranhas, porque eles tinham um senso de “propriedade” sobre o clube, quando na verdade seriam “consumidores”.

Dentro de campo, a posição do Charlton é o bastante para vermos como as coisas têm sido horríveis também esportivamente, mas os problemas são ainda mais profundos do que a vice-lanterna da segundona pode sugerir. Em outubro, o técnico Guy Luzon foi demitido por causa da falta de resultados. Uma decisão considerada justa pela parte da imprensa que acompanha o clube. O problema é que, desde então, Duchâtelet manteve como interino o belga Karel Fraeye, que, por falta da contratação de alguém para repor Luzon, segue no cargo. E continua não por uma boa fase no comando da equipe, já que o time está há 11 jogos sem vencer, com quatro empates e sete derrotas no período. Não há outra explicação senão displicência por parte da diretoria, o que se expressa também na falta de um chefe do sistema de olheiros e até mesmo de um diretor de futebol.

No período em que está no comando do clube, Duchâtelet já demitiu quatro treinadores, entre eles Chris Powell, ídolo da torcida. Uma série de jogadores importantes para o elenco foi vendida sob a administração do belga, sem substituições adequadas, forçando garotos das categorias de base a assumir postos na equipes de maneira precoce. Para repor algumas das saídas, chegaram ainda atletas de outros clubes também administrados por Duchâtelet, dono de Standard Liège, Újpest e Alcorcón.

O antigo diretor-executivo do Charlton, Peter Varney, ofereceu auxílio para tirar o time da péssima fase atual, mas sua oferta foi recusada pela administração de Duchâtelet. Ele relembra o episódio em que esteve perto de conseguir um investidor para o clube, mas foi rechaçado. “Em agosto, eu estive em uma posição de apresentar um investidor ao Charlton, com um acordo que iria, acredito, ser bom para o atual dono e para o clube. Roland Duchâtelet é um homem rico. Ele tem a capacidade de bancar um progresso do clube dentro e fora de campo, e ele já fez algumas coisas boas no estádio e no centro de treinamento. É um fato do qual não se escapa, entretanto, que são as atuações dentro de campo que definem o nível e o humor dos torcedores. O dono um dia irá perceber como seu bem está sendo depreciado a cada dia. Com uma redução nas receitas de £ 7 milhões à porta, caso o rebaixamento aconteça, ele precisará de um bom plano de negócio para seguir em frente”, escreveu Varney, em uma fanzine de torcedores do Charlton.

Sem perspectivas de melhora e esperando que sua pressão seja suficiente para fazer Duchâtelet cair na real, seja mudando sua abordagem ou decidindo se desfazer logo do clube, os torcedores seguem seus protestos. O desta rodada, contra o Blackburn, foi o quarto em um dia de jogo, e as manifestações têm acontecido com alguma intensidade desde novembro do ano passado. Imagens como a de baixo, gravada após o empate com os Rovers, serão cada vez mais frequentes e inflamadas, conforme o tempo passa e nada é feito.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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