Suárez atacou a retranca de Mourinho e falou sobre escorregão de Gerrard contra o Chelsea

Apesar de ter minhas ressalvas quanto a autobiografias feitas quando a história ainda está sendo escrita, a de Suárez traz pelo menos um trecho bastante interessante. O uruguaio lançou o livro na última quinta-feira, e o jornal inglês Guardian publicou alguns excertos em que o ex-atacante do Liverpool fala daquele fatídico jogo com o Chelsea, em que a derrota por 2 a 0 praticamente determinou a perda do título da Premier League, dando suas impressões sobre o estilo adotado por Mourinho para o duelo e o peso emocional sob o qual Steven Gerrard ficou ao escorregar no lance-chave da partida.
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Com apenas três jogos restantes na temporada, o Liverpool era o líder do Campeonato Inglês e, recentemente, havia vencido o Manchester City em casa por 3 a 2. O clima de confiança dentro do vestiário era muito grande, e Suárez lembra em seu livro de que todos já falavam com certeza sobre a conquista ao fim da temporada. O Chelsea ia para Liverpool ainda com chances matemáticas de ficar com a taça, então todos esperavam que os Blues fossem partir para o ataque. Mas o que de fato aconteceu acabou surpreendendo a todos.
“Todo treinador joga da maneira que melhor combina com ele, então não me importo com isso. A única coisa que não gostei foi da maneira como ele desperdiçou tempo desde o ínicio do jogo. Ficava me perguntando: ‘Por que eles estão fazendo isso desde o primeiro minuto?’ Eu até mesmo perguntei para um dos jogadores deles. ‘O que você quer que eu faça? Se ele nos faz jogar assim, eu tenho que jogar assim’, ele respondeu. ‘O que mais eu posso fazer? Se eu não fizer, eu não jogo. O que você faria?’”, escreve em seu livro Suárez, no episódio talvez mais curioso daquela vitória por 2 a 0 do Chelsea.
“Tínhamos ido para o jogo sabendo que o empate era bom para nós. Com a atmosfera do Anfield, com o fato de que havíamos acabado de vencer o City, nossa atitude foi a mesma: queríamos vencer. Mas estávamos conscientes do fato de que, com um empate, ainda estaríamos à frente de todo mundo. O que eu não esperava é que eles fossem jogar pelo empate. É verdade que eles venceram o jogo, mas estou convencido de que, sem aquele golpe de sorte (escorregão do Gerrard), eles não teriam marcado”, completa.
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A expressão “park the bus” (“estacionar o ônibus”, em português), criada pelo próprio Mourinho após um empate do Chelsea por 0 a 0 contra o Tottenham, em 2004, virou sinônimo de retranca e se popularizou com o retorno do português a Londres, marcado nessa temporada de volta com muito pragmatismo. Após a derrota para os Blues naquela 36ª rodada da temporada passada, Brendan Rodgers, técnico dos Reds, chegou a falar que o técnico adversário havia estacionado não um, mas dois ônibus à frente da área. Isso dá uma boa ideia do que foi aquele jogo, complementada com o detalhamento de Suárez em seu livro.
“Não jogamos muito bem, mas eu sinceramente acho que não havia nada que pudéssemos ter feito diferente. Tínhamos dez jogadores à nossa frente, quase todos eles dentro da área. Podíamos tentar tabelas, ou então movimentar a bola rapidamente de jogador para jogar para tentar tirá-los de posição, procurando criar espaço, mas sempre teria outro defensor na nossa frente. O Mourinho sabia: se você desperdiça tempo, você quebra o adversário desde o início, eles ficam frustrados, começam a jogar loucamente, farão de tudo. Eles nos tiraram de nossa rotina normal. E, é claro, nunca imaginamos o escorregão, e aquilo foi o que realmente deixou difícil para nós. Nem eles esperavam, não dá para planejar que um jogador escorregue”, lamentou o atacante.
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Esse escorregão de Gerrard foi a cena mais marcante da perda do título do Liverpool na temporada passada. Pouco antes do fim do primeiro tempo, perdeu o controle na hora em que ia em direção à bola, quase na linha do meio do campo, deixando Demba Ba com ela e tendo todo o campo adversário aberto para levá-la até o gol. A defesa do Liverpool estava completamente fora de posição, consequência da retranca completa de Mourinho, que praticamente forçara os Reds a atacar sem pensar muito. Suárez descreve perfeitamente o que o lance representou e o peso que deve ter tido sobre o capitão.
“Se eu estivesse no lugar do Stevie (Gerrard), eu não sei se eu conseguiria seguir jogando. Emocionalmente, deve ter sido muito, muito difícil. Nas semanas anteriores, tanto havia sido dito sobre ele, tanta expectativa havia sido criada, a conversa sobre ele levar o Liverpool, seu time, ao primeiro título em mais de 20 anos, no aniversário de 25 anos do desastre de Hillsborough, no qual seu primo morreu, e então aquilo acontece. O capitão, que veio da base, o homem de um clube só, um scouser, nascido e criado, e ele teve o azar de cometer um erro crucial”, analisou.
Ele ainda não havia vencido o título da liga. Stevie tinha começado a acreditar, todos nós tínhamos. E então tinha sido virtualmente tirado dele, daquela maneira, com ele escorregando contra o Chelsea. Estou convencido de que, se o Chelsea não tivesse marcado daquela maneira, não teriam marcado de jeito nenhum. E uma vez que você está um gol atrás deles, é virtualmente impossível”, completou.
Ainda que tantos meses depois, é bem interessante conhecer a visão de alguém que esteve lá dentro sobre um dos capítulos mais fantásticos dos últimos anos do futebol inglês. Melhor ainda que essa figura seja Suárez, tão importante para o Liverpool na campanha agridoce dos Reds, que, apesar de voltarem à Champions, viram o título que parecia tão certo escapar dessa maneira, em cima de um erro de seu atleta mais emblemático. Quanto mais distantes ficamos daquela partida, mais percebemos o tamanho que ela teve.
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