Inglaterra

‘Foram dois anos de horror. Já terminei jogos com a cabeça enfaixada, mas isso machuca a alma’

Tomás Soucek, volante do West Ham e capitão da seleção tcheca, revela quadro de depressão acompanhado de crises de insônia

A discussão sobre saúde mental tem ganhado cada vez mais espaço no futebol à medida que mais atletas expõem suas vulnerabilidades. O caso mais recente é o de Tomás Soucek, meio-campista do West Ham e capitão da seleção da República Tcheca, que revelou estar enfrentando um quadro de depressão acompanhado de crises de insônia. Ele fez o anúncio durante o lançamento de sua autobiografia “Suk”.

Foram dois anos de horror. Durante muito tempo, morri de vergonha de falar sobre isso. Nem mesmo meus pais, até eu decidir escrever minhas memórias, faziam ideia do que estava acontecendo e de como era grave. Era algo que me perturbava tanto que cheguei a pensar em encerrar minha carreira — disse.

Apesar da gravidade do quadro, Soucek contou que tentou conviver em silêncio com o sofrimento, mantendo a rotina competitiva e a postura de liderança em clube e seleção, como se nada estivesse acontecendo. A pressão por corresponder, somada ao receio de expor fragilidades em um ambiente que ainda cobra força constante, prolongou o desgaste e agravou o estado emocional.

Segundo ele, a sensação era de que seu corpo ainda respondia em campo, mas a mente já não acompanhava — e foi nesse limite que a situação se tornou impossível de esconder.

— Insônia, depressão, medo do futuro. Mesmo olhando para trás, ainda não consigo entender como isso aconteceu. Onde outros não tinham coragem de colocar o pé, eu colocava a cabeça, sem medo da dor.

Nem consigo contar todas as cicatrizes que tenho no corpo. Já terminei partidas com a cabeça enfaixada, mas isso aqui machuca a alma. No começo dava para aguentar, mas depois se tornou insustentável. Comecei a jogar todas as partidas sem dormir. Imaginem o que isso significa.

Soucek durante o lançamento de seu livro
Soucek durante o lançamento de seu livro (Foto: Imago)

A revelação gerou surpresa no futebol inglês, sobretudo por se tratar de um jogador conhecido pela intensidade e pela postura combativa em campo. O depoimento também contrasta com o desempenho consistente que Soucek tem apresentado no West Ham, onde segue como peça fixa da equipe.

Na última temporada, o volante disputou 38 partidas e marcou nove gols, números que reforçam como o drama se manteve oculto mesmo em meio à regularidade competitiva.

Fala de Soucek reacende debate sobre saúde mental entre jogadores

O relato de Soucek ecoa em outras histórias recentes, inclusive no Brasil. Entre elas está a de Everton Felipe. Apontado como grande promessa do Sport, o ex-meia viu sua trajetória ser interrompida pelas lesões no joelho e, com apenas 26 anos, foi obrigado a encerrar a carreira. Em entrevista recente à Trivela, ele admitiu que o fim precoce trouxe um vazio difícil de administrar.

— O vazio continua. A gente só se adapta. Vejo jogo do Sport, jogos do Brasileirão acontecendo, e falo comigo mesmo: “Era para, hoje, eu estar no auge da minha carreira”. Tem hora que a tristeza bate — afirmou Everton à Trivela.

A ruptura foi especialmente dura porque o futebol não era apenas profissão, mas identidade construída desde a infância. Everton passou anos tentando se reerguer: voltou ao Sport, buscou novos clubes, insistiu em tratamentos, mas o corpo não respondeu. Quando recebeu o diagnóstico de que não poderia mais atuar em alto nível, sentiu que tudo o que projetava para o futuro se desfazia de uma vez.

O impacto emocional se somou às limitações físicas. Everton ficou meses afastado de qualquer contato com o esporte. A relação com o Sport também se deteriorou, marcada por um sentimento de abandono durante o período mais crítico de sua carreira.

Hoje, Everton tenta reconstruir sua vida fora dos gramados, produzindo conteúdo e redescobrindo aos poucos a própria relação com o futebol. Sua história, assim como a de Soucek, reforça que o sofrimento psicológico no esporte de alto rendimento não é exceção — apenas permanece, muitas vezes, silencioso.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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