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‘Parei de jogar com 26 anos e tive depressão ferrada’: O vazio da aposentadoria precoce no futebol

Quando a carreira termina cedo, começa a luta para superar o rompimento abrupto e recomeçar fora dos gramados

O vazio continua. A gente só se adapta. Vejo jogo do Sport, jogos do Brasileirão acontecendo, e falo comigo mesmo: “Era para, hoje, eu estar no auge da minha carreira”. Tem hora que a tristeza bate.

O futebol é um jogo de sonhos. Desde cedo, muitos meninos e meninas crescem com a bola nos pés e a esperança de um dia viver daquilo que amam. Mas nem sempre o destino é justo. E para alguns, a história termina antes mesmo de alcançar o auge.

As lesões, implacáveis e muitas vezes silenciosas, não escolhem hora para chegar. E quando chegam, podem interromper carreiras promissoras de forma abrupta, deixando não somente cicatrizes físicas, mas também um vazio difícil de preencher.

A declaração do ex-meia Everton Felipe escancara uma realidade pouco discutida fora das quatro linhas: o que acontece com o jogador quando ele é forçado a parar antes da hora? Como lidar com o fim precoce de um projeto de vida?

Considerado uma das principais promessas reveladas pelo Sport na última década, o ex-meia pendurou oficialmente as chuteiras em junho de 2024, aos 26 anos. Em entrevista à Trivela, Everton contou como foi difícil — e segue sendo — assimilar o baque da aposentadoria precoce.

Parei de jogar com 26 anos. A gente que é atleta, quando sai de casa com 12, 13 anos, não se prepara a parar com 26 anos. Pensamos numa carreira com longevidade, parando ali com 35, 36. Para mim, foi muito difícil. Já tinha passado por um momento difícil em 2021, no São Paulo. Mas não chega nem perto de quando recebi a notícia do médico dizendo que eu não ia conseguir voltar a jogar futebol — lamentou.

Everton Felipe em ação pelo Sport
Everton Felipe em ação pelo Sport (Foto: Imago)

A primeira grande lesão na carreira de Everton Felipe aconteceu em 2017, quando rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo durante uma partida contra o Avaí. Depois de passar por cirurgia e um período de recuperação, conseguiu voltar aos gramados pelo Sport.

No ano seguinte, despertou interesse do São Paulo, que investiu alto em sua contratação. No entanto, a passagem pelo clube paulista não rendeu o esperado. Vieram, então, empréstimos sucessivos para Athletico-PR, Cruzeiro e Atlético-GO — ciclos curtos, com pouco destaque.

Em 2021, ele voltou ao Leão da Ilha, na tentativa de reencontrar o bom futebol. Mas não foi o que aconteceu. Após enfrentar uma série de contusões graves e tratamentos malsucedidos, seu corpo não aguentou. Era preciso colocar um ponto final em sua carreira esportiva.

Foi um choque grande.

“Fiquei mais ou menos um ano longe de social. Não conseguia ter contato e ver jogo de futebol, principalmente do Sport. Dei todas as camisas de futebol que eu colecionava, dos clubes que joguei (a favor e contra). Só fiquei com meu quadro de 100 jogos pelo Sport, porque minha mãe não me deixou dar. Ela disse: “Não, isso aí você me deu, é aqui da minha casa”.

Sequelas que permanecem pós-aposentadoria

Dores fortes, limitações físicas e uma rotina comprometida. A vida de Everton Felipe, desde que parou de jogar, tem sido marcada por adaptações e frustrações diárias. Movimentos simples, como subir escadas ou caminhar por mais tempo, se tornaram obstáculos.

Mesmo com sessões regulares de fisioterapia, o joelho já não responde como antes. A cada esforço além do limite, vem o inchaço, a dor, o aviso silencioso de que o corpo chegou a um ponto irreversível.

Ele aprendeu a viver com restrições — físicas e emocionais. O que antes era rotina, como uma simples pelada com amigos ou uma corrida na orla, hoje é impossível de se realizar. Qualquer tentativa de reviver o prazer de estar em movimento é rapidamente freada pela realidade de um joelho que não acompanha mais sua vontade.

— Estou há três anos e pouco, mais ou menos, sem jogar. Minha vida mudou totalmente. Eu não consigo mais jogar futebol, não consigo bater uma pelada, não consigo correr. Vejo meu joelho destruído mesmo. Tive uma depressão ferrada — desabafou.

Everton Felipe durante treino do São Paulo
Everton Felipe durante treino do São Paulo (Foto: Imago)

No ano passado, na tentativa de recuperar parte da mobilidade, Everton viajou aos Estados Unidos para um tratamento especializado. Conseguiu progresso suficiente para voltar a andar com mais naturalidade, mas dentro de limites claros: nada de exageros. Esforços intensos, como uma caminhada prolongada, fazem o joelho reclamar.

Longe dos holofotes e do ritmo intenso do futebol profissional, o ex-jogador tenta reconstruir a própria vida dentro das novas limitações impostas por seu corpo. Não se trata “apenas” de aceitar o fim da carreira, mas de aprender a conviver com o que ficou dela.

— As sequelas que tenho são enormes. Faço fisioterapia para manter meu joelho um pouco fortalecido, mas chega a um ponto que não consigo mais fortalecer além daquilo. O joelho começa a inchar, e sinto muitas dores. Ano passado, fiz um tratamento nos Estados Unidos que me ajudou muito a conseguir andar normal. Mas não posso exagerar também. Se eu andar fazendo uma caminhada de uma hora à beira-mar, não consigo, o joelho começa a doer. E para subir escada, dói muito.

Hoje, Everton atua como influenciador digital. Despojado e descontraído na frente das câmeras, apesar de tudo que passou, o ex-meia é bastante ativo nas redes sociais e produz conteúdo relacionado a futebol, sobretudo Sport. São mais de 200 mil seguidores no Instagram.

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Ódio do clube e família inconsolável

Se a dor física e emocional já é difícil de suportar, Everton Felipe ainda tem de lidar com a mágoa profunda em relação ao clube que o revelou. O ex-jogador não esconde o ressentimento com o Sport, especialmente pela forma como foi tratado nos momentos mais críticos de sua carreira. A sensação de abandono por parte da instituição o machuca até hoje.

— Fiquei com muita raiva e ódio do clube quando parei de jogar. O clube que fui revelado, o clube do meu coração, virar as costas para mim, fazer mer** no meu joelho. Não esperava de maneira nenhuma. Acho que ninguém espera parar com 26 anos nessa situação. Se aposentou, por quê? Por que não quero mais jogar? Não, o meu foi pior do que isso. Me aposentei porque eu não conseguia mais jogar.

A aposentadoria abrupta impactou toda a família. Desde os primeiros passos de Everton no futebol, seus pais estiveram ao lado dele, acompanhando cada conquista e cada obstáculo superado. Por isso, foi doloroso assistir à transformação de um jovem cheio de alegria e propósito em alguém marcado por limitações físicas e feridas emocionais. O baque não foi só dele: atingiu em cheio quem sempre sonhou junto.

— Minha mãe é triste para caramba até hoje, meu pai também. Porque eles veem que não sou feliz como eu era. Não consegui ainda encontrar algo que preenchesse o vazio que o futebol me deixou. Só que a vida segue. O cara não pode se entregar, ficar na tristeza, baixar a cabeça. Tem que correr atrás das coisas que quer de uma maneira que você não estava preparado para fazer.

Dentro de casa, o sentimento é ainda mais intenso. A mãe de Everton, em especial, carrega um forte ressentimento contra o Sport. Qualquer menção ao Rubro-Negro pernambucano se tornou motivo de incômodo. Para ela, a instituição é a grande responsável por destruir o sonho da vida do filho — algo difícil de perdoar.

Minha mãe odeia o Sport de todo o coração. Se faço um vídeo sobre o Sport na casa dela, ela pergunta porque estou falando de um time que acabou com a minha vida. Eu assisto a todos os jogos do Sport hoje, porque entendi que quem fez as coisas comigo foram as pessoas que estavam gerindo o clube, não foi a instituição. A instituição não tem culpa, ela é responsabilizada pelas pessoas que estão administrando ela.

Everton Felipe durante jogo do Sport
Everton Felipe durante jogo do Sport (Foto: Imago)

Em abril deste ano, a 9ª Vara do Trabalho do Recife condenou o Sport a pagar cerca de R$ 4,6 milhões de cláusulas indenizatórias para Everton Felipe. Os valores são iniciais e podem chegar a aproximadamente R$ 6 milhões, resultado da soma de danos materiais e morais, além de montantes referentes a seguro obrigatório e estabilidade acidentária. A decisão é de primeira instância, e por isso o clube ainda pode recorrer.

A sentença, divulgada pelo “ge” na época, responsabiliza o Rubro-Negro em dois pontos principais: a falta de suporte médico adequado e a fraude trabalhista nos direitos de imagem de Everton. Segundo os autos, o valor mensal do contrato do ex-meia teria sido reduzido de R$ 40 mil para R$ 15 mil.

O laudo pericial do processo indicou que, já em agosto de 2022, exames de imagem apontavam alterações sérias no joelho do jogador. Entre os achados, estavam sinais de impactação óssea e afundamento da tíbia — indícios claros de um quadro de artrose em estágio avançado.

O perito também alertou que continuar jogando nessas condições, mesmo com o uso de analgésicos ou infiltrações para conter a dor — como foi o caso do meia — representava um risco real de agravamento das lesões. Na sentença do caso, o juiz Arthur Ferreira Soares destacou a omissão do clube diante da gravidade da situação.

Apesar de tudo isso, o vínculo afetivo com o Sport, construído desde a base, permanece. Everton reconhece o carinho da torcida e o papel do Leão da Ilha em sua formação. Ele é categórico ao separar o clube da atual gestão. A raiva e o desprezo são direcionados aos dirigentes que falharam em oferecer o suporte necessário num momento tão delicado de sua trajetória.

— Não tenho o que falar da instituição não. O Sport me acolheu com 12 anos, a torcida sempre me abraçou. Agora, as pessoas que estão no comando do Sport hoje, aí tenho raiva. Não quero conversa com esses caras. Eles seguem a vida deles lá, eu sigo a minha aqui. Infelizmente coloquei o clube na justiça, porque quem paga é a instituição, né? Se pudesse colocar o CPF, eu colocava — concluiu.

Resiliência e necessidade de se reinventar: Herácles viveu o mesmo drama

Assim como Everton Felipe, Herácles também precisou se aposentar dos gramados aos 26 anos. O lateral-esquerdo, formado na base do Athletico-PR, enfrentou uma batalha contínua contra lesões desde 2013, e decidiu pendurar as chuteiras em 2018. Natural de Caucaia, no Ceará, ele teve passagem por clubes como Avaí, Joinville e JMalucelli, além de integrar seleções brasileiras de base.

A transição para a vida fora dos gramados foi marcada por incertezas e desafios. Sem um plano B traçado, Herácles relembrou o impacto de ter que abandonar o futebol de forma precoce.

— Assim como a maioria, eu também não tinha nenhum plano em qualquer outra área fora do futebol. Até porque vivi no futebol desde os 13 anos e não tinha nenhuma perspectiva de encerrar a carreira tão novo. Então a necessidade de me reinventar realmente foi muito difícil e totalmente inesperada — explicou.

Com o tempo, ele encontrou novas formas de preencher o vazio deixado pelo esporte. Ainda que a saudade da rotina futebolística tenha sido intensa, pequenos momentos do dia a dia começaram a ganhar novos significados.

— Por muito tempo sentia falta dos treinos, jogos, das resenhas, do ambiente do futebol como um todo. Mas com o passar do tempo comecei a achar momentos, como, por exemplo, passar um fim de tarde com a minha esposa, um dia com a família. Tudo isso foi me fortalecendo e me ajudando a superar.

Herácles em momento de oração antes de jogo do Athletico-PR
Herácles em momento de oração antes de jogo do Athletico-PR (Foto: Imago)

A carreira de Héracles começou a mudar drasticamente em 2013. Durante uma partida da Série B do Campeonato Brasileiro, o lateral, na época no Avaí, sofreu uma entrada dura. O lance forte resultou na ruptura de três dos quatro ligamentos do joelho. Apenas o ligamento colateral lateral resistiu, embora tenha sofrido um estiramento.

A gravidade da lesão foi tamanha que, segundo os médicos, caso uma das artérias localizadas atrás do joelho tivesse sido atingida, ele teria que passar por uma cirurgia de emergência — com risco real de amputação da perna.

Depois de anos dedicados quase que exclusivamente ao futebol, lidar com a ideia de um recomeço repentino foi como encarar o fim de uma identidade construída desde a infância. Um baque imediato, tanto no campo emocional quanto no financeiro.

Os impactos pessoais e financeiros foram enormes. É muito difícil você precisar abrir mão do seu sonho, que você dedicou uma vida para alcançar, e quando estava começando a se tornar realidade, abruptamente se encerrou. Isso me trouxe uma tristeza profunda na época. Investi para ver se conseguia retomar a carreira, mas infelizmente não foi possível. Melhor forma de superar esses obstáculos foi minha família.

Diante de tantos desafios, Herácles entendeu que não conseguiria enfrentar tudo sozinho. O processo de reconstrução pessoal exigia mais do que força de vontade. Exigia apoio profissional. Foi aí que o acompanhamento psicológico entrou em cena como um ponto de virada fundamental em sua jornada.

— Me ajudou a descobrir que eu não me resumia somente ao futebol e tinha um universo de possibilidades no mundo extra campo, podendo ser muito feliz. Me fez abrir os olhos que eu não precisava viver num ambiente com uma exigência extrema em todas as áreas, que eu não precisava ser uma máquina. Além disso, me mostrou que eu tinha outros potenciais. Trabalhei como representante farmacêutico, trabalhei na área comercial, concluí minha faculdade de educação física e abri minha própria empresa de assessoria esportiva com meu sócio.

Aos poucos, Herácles começou a reconstruir sua autoestima e a redefinir seu propósito. Entendeu que, mesmo longe dos gramados, ainda poderia inspirar, contribuir e crescer. O apoio psicológico foi essencial para que ele compreendesse que sua identidade ia muito além do jogador de futebol.

— A ajuda psicológica me auxiliou muito com meu processo de autoconhecimento. Aprendi a perceber minhas virtudes e a respeitar minhas limitações. Hoje me sinto feliz e realizado com meu momento pessoal e profissional.

Qual a importância da psicologia nesses casos?

As histórias de Everton Felipe e Herácles são mais comuns do que se imagina no universo do esporte. Quando uma carreira promissora é interrompida de forma repentina, o impacto extrapola o físico — ele atinge diretamente a identidade e o emocional do atleta. Lidar com esse processo exige muito mais do que força de vontade: exige suporte adequado, inclusive psicológico.

Para compreender melhor os impactos emocionais causados por uma aposentadoria precoce — especialmente quando provocada por lesões —, a Trivela ouviu a psicóloga Ana Paula Pinho, especialista em psicologia esportiva.

Na entrevista, ela explicou como esse tipo de ruptura afeta profundamente a identidade dos atletas, os desafios que surgem quando o sonho de uma carreira longa é interrompido, e o papel fundamental da saúde mental nesse processo de reconstrução da vida fora dos gramados.

Muitos atletas relatam sentir um grande vazio após a aposentadoria. Quais são os principais desafios emocionais e psicológicos que esses jogadores enfrentam, e como a falta de uma transição planejada (já que a aposentadoria foi forçada) intensifica esse sentimento?

— Sua identidade, de certa forma, acaba se entrelaçando com sua ação esportiva. Assim, quando é surpreendido por uma grave lesão ou por uma aposentadoria, pode (surgir) uma “crise” sobre quem é e o que fazer. O desafio é justamente compreender este processo, se conhecer de forma mais ampla, para além do esporte e descobrir novas habilidades, visões e objetivos de vida. Nos deparamos com muitos atletas com depressão, ansiedade e outras situações que precisamos olhar com cautela para que tenham o tratamento adequado.

Herácles leva camisa ao rosto durante jogo do Athletico-PR
Herácles leva camisa ao rosto durante jogo do Athletico-PR (Foto: Imago)

A reconstrução da vida pós-futebol é um grande desafio. Nesses casos de aposentadoria forçada por conta de lesões, quais estratégias ou ferramentas o psicólogo utiliza para ajudar o jogador a redescobrir suas paixões, desenvolver novas habilidades e construir um novo plano de vida, indo além da identidade de “jogador de futebol”?

— Precisamos saber quem somos, olhar para vários âmbitos da nossa vida, entender nossa essência e nossa história, para então seguirmos em frente. Nossas avaliações sobre a vida devem ser cíclicas, independente se somos atletas ou não. São avaliações como seres humanos. Isso, certamente, nos abre muitas possibilidades para além do esporte e dentro deste âmbito também. É preciso seguir o fluxo da vida.

Olhando para a prevenção, qual a importância de se trabalhar a saúde mental dos atletas desde o início da carreira, preparando-os não apenas para o sucesso, mas também para lidar com a possibilidade de uma carreira mais curta do que o esperado?

— Trabalhar a saúde mental desde o início, nas categorias de base de qualquer esporte, é de uma enorme importância. Se os clubes, treinadores e pais investirem desde a base, teremos atletas mais seguros, saudáveis, conscientes, assertivos e preparados para lidarem com as adversidades do esporte e da vida. É preciso trabalhar até mesmo estas questões referentes às mudanças de planos que a vida nos impõe, como a aposentadoria e o remanejamento de objetivos, conferindo aos diferentes momentos de vida, novos sentidos.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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