Tim Vickery: O futebol deveria celebrar melhor os contatos que ajuda a formar
Saída de Son deixa coreanos torcedores do Tottenham 'órfãos', mas passa longe de ser a primeira vez que outros países influenciaram o clube
Pode ser que agora vão ter menos visitantes sul-coreanos no estádio do Tottenham. Por uma década, eles têm sido uma presença constante e crescendo nas ruas do norte de Londres, indo para apoiar o seu conterrâneo, o atacante Son Heung-min, que agora deixa o clube onde joga desde 2015.
Alguns vão ficar, imagino. Nem todos os torcedores coreanos vão abandonar o clube. Alguns, com certeza, estabeleceram uma ligação de afeto, e vão continuar torcendo para o clube mesmo sem o Son na camisa branca.
Os contatos que o futebol ajuda a forjar são estranhos e até mágicos de certa forma. Deveríamos comemorar mais esse aspecto de nosso esporte.
Lembro bem os novos campeões do mundo, Osvaldo Ardiles e Ricardo Villa, chegando ao Tottenham 47 anos atrás. Hoje em dia, pode parecer comum. Mas naquela época, era surreal, quase além dos limites da imaginação.
Estávamos assistindo a esses jogadores com a camisa da Argentina, em partidas altas horas da noite na televisão. E, de repente, estão lá na nossa frente. Era maravilhoso — e importante.
Quatro anos depois, a Inglaterra e a Argentina estavam em guerra. A imprensa sensacionalista inglesa estava cheia de histórias ofensivas sobre os argentinos. Mas a gente já conhecia o Ardiles — mais cavalheiro, impossível.
A própria existência do pequeno artista do meio-campo já desmentiu o ódio saindo na imprensa. O futebol serve como um mecanismo para reduzir distâncias — quase desde o início.

Tottenham cresceu com grande influência estrangeira, mas de perto
Os primeiros anos do Tottenham mostram como isso aconteceu — e a rapidez extraordinária com que o futebol desenvolveu.
Final de verão de 1882, com a temporada de críquete terminando, um grupo de adolescentes conversa debaixo de um poste de luz e resolveram fundar um clube de futebol. Somente 19 anos depois, o seu clube ganhou a Copa da Inglaterra (FA Cup). Tantas coisas aconteceram em menos de duas décadas alucinantes.
O Hotspur FC virou Tottenham Hotspur. Conquistou uma torcida. Virou profissional em 1895 — o momento em que perdeu quase qualquer ligação com a turma que fundou o clube.
Virou empresa — uma proteção contra os riscos de construir o estádio White Hart Lane, inaugurado em 1899. Foi o lar do time até poucos anos atrás, e o estádio atual está basicamente no mesmo lugar.
Contratou um técnico da Escócia, o John Cameron, que levou vários conterrâneos. O time dele ganhou a Copa de 1901 contra o Sheffield United depois de um empate de 2 a 2 em Londres (diante de uma torcida de 110 mil pessoas — a maior na história na época) — e vitória no segundo jogo por 3 a 1 no Bolton, arredores de Manchester.
Nos onze do Tottenham, cinco vinham da Escócia — incluindo o próprio Cameron, que era jogador e técnico ao mesmo tempo. Houve também 2 de País de Gales e um da Irlanda. Espaço, então, para somente três ingleses — e nenhum local. O mais próximo cresceu 160 quilômetros ao norte de Londres.
Pelos padrões da época, em que a vida era muito mais limitada, o time que representava o Tottenham era uma coleção de estrangeiros. Não eram coreanos, mas tratava-se de pessoas com sotaques e costumes bem diferentes — que, como Son Heung-min tantos anos depois, viraram ídolos em Londres e ajudaram a aproximar pessoas de origens diversas.



