Ardiles: A Inglaterra se curvou à Argentina
É inevitável falar da Guerra das Malvinas, quando nos relembramos da história de Osvaldo Ardiles, um dos grandes craques do futebol argentino. Descobertas em 1502, as Ilhas Falklands (conhecidas pelos argentinos como Malvinas) – localizadas no extremo austral da América do Sul – são disputadas por franceses, espanhóis, argentinos e ingleses desde o século XVIII. A Grã-Bretanha passou a controlar o arquipélago em 1883. Em abril de 1982, vésperas da Copa do Mundo da Espanha, o exército argentino invadiu as ilhas, dando início à Guerra das Malvinas.
Ardiles acabou sendo figura marcante na história desse conflito. Na Copa de 1978, com seu estilo elegante e seu cabelo sempre bem penteado, o então desconhecido meia-direita chamou a atenção da imprensa inglesa. Suas jogadas com muita categoria chamaram a atenção do técnico da seleção da Inglaterra, Ron Greenwood. Enquanto os argentinos ainda comemoravam seu primeiro título mundial, o Tottenham foi à Argentina e de lá tirou Ardiles, do Huracán de Buenos Aires, e Ricardo Villa, do Racing, dois campeões mundiais, pagando em torno de 750 mil libras. Era uma época em que o futebol inglês era inacessível a jogadores estrangeiros. Foi uma aposta de risco do inteligente Keith Burkinshaw, então técnico do Totthenham, clube pelo qual Ardiles estreou em agosto de 1978, num empate com o Nottingham Forest.
Futebol inglês
‘Ossie’ (diminutivo em inglês para Osvaldo) Ardiles enfrentou vários desafios no futebol britânico. O primeiro foi uma barreira burocrática, já que a legislação não aceitava jogadores estrangeiros fora da esfera do Mercado Comum Europeu. O segundo obstáculo foi a objeção do Sindicato dos Jogadores. Vencidas tais etapas, duvidava-se de que um jogador baixo e franzino fosse fazer sucesso no duro futebol britânico.
Fugindo das entradas ríspidas dos adversários e com jogadas de habilidade, o ligeiro ‘Ossie’ conquistou a exigente torcida do Tottenham e realizou o sonho de infância de um dia jogar em Wembley, onde foi bicampeão da Copa da Inglaterra (1981 e 1982).
A Guerra das Malvinas começou dia 1º de abril de 1982, deflagrando uma crise internacional. A vida dos argentinos na Inglaterra ficou complicada, e Ardiles estava convocado para a Copa de 1982. Mesmo com clima de guerra, o jogador disputou a semifinal da Copa da Inglaterra contra o Leicester, no que seria sua despedida, dois dias depois da invasão. Foi, talvez, o jogo mais tenso de sua vitoriosa carreira, mas ele saiu de campo festejado pela torcida e por seus colegas de time. Os Spurs venceram com um gol de Cookes, com assistência de ‘Ossie’. Mesmo faltando um ano para o final de seu contrato, Ardiles anunciou que sua missão na Inglaterra estava cumprida.
A Guerra das Malvinas durou dez semanas: a Argentina foi derrotada pela Grã-Bretanha e se rendeu em 14 de junho. A força aérea inglesa abateu um avião com um primo de Ardiles e sua seleção foi eliminada na Copa, perdendo de 3 a 1 para o Brasil no dia 2 de julho.
Carreira fora de campo
Mesmo com tanto drama, ele voltou a jogar pelos Spurs, ajudando na conquista da Copa Uefa de 1984. ‘Ossie’ também passou uma temporada infeliz no Paris Saint-Germain, devido a uma contusão, e terminou sua carreira de jogador em times menores na Inglaterra.
Em julho de 1989, Ardiles começo a carreira como treinador, no Swindow, time pelo qual jogava na segunda divisão. Como técnico, ‘Ossie’ implementou uma tática ofensiva, com características do futebol sul-americano. Nos últimos anos, conseguiu certo sucesso no futebol japonês. Em 2006, passou a comandar o Beitar Jerusalem, onde tem sido criticado por não ser um técnico ‘durão’.
Além de toda sua trajetória de sucesso no futebol, Ardiles participou, jogando bola, do filme “Fuga para a Vitória”, ao lado de Sylvester Stallone e Pelé, entre outros, em 1981.
Seleção argentina
De Córdoba para o mundo, Osvaldo Ardiles foi um dos maiores jogadores de todos os tempos. Ardiles saiu do pouco conhecido Huracán para a seleção graças à visão de César Luis Menotti, seu treinador em meados dos anos 70 no próprio Huracán. ‘Ossie’ conquistou sua fama de craque com jogadas de gol preparadas sempre com velocidade. A imprensa local chamou o técnico de incompetente quando convocou o jogador, mas a realidade provou que ele estava certo.
Coordenando o meio-campo com seu vasto repertório de jogadas, Ardiles foi um pilar na conquista da Copa de 1978, título mais marcante de sua carreira. Jogando com a camisa número 2 (a numeração da Argentina respeitava a ordem alfabética), o meia organizou o time, destacando-se com um futebol clássico. Para o povo argentino, a jogada mais importante de sua carreira foi o passe para Luque, que tocou para Mario Kempes marcar o primeiro gol da final contra a Holanda, no Monumental de Nuñez com quase 80 mil torcedores. Mesmo com Ardiles substituído no segundo tempo, a Argentina venceu por 3 a 1 na prorrogação.
Na Copa de 1982, Ardiles chegou a marcar um gol na vitória de 4 a 1 sobre a Hungria, porém não conseguiu repetir o título, mesmo com seu futebol ainda mais evoluído, combinando o talento sul-americano com a força que adquiriu nas competições européias.
Aliando o talento na organização das jogadas à raça tradicional do jogador argentino, Ardiles tornou-se um cidadão do mundo, num tempo em que não se falava de globalização. ‘Ossie’ deixou sua marca no futebol mundial dentro e fora de campo, com inteligência e um talento de campeão.



