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Segundo Giggs, muita coisa mudou no United, menos uma: o espaço para os jovens

A estreia de Ryan Giggs pelo Manchester United completou 25 anos neste mês de março. Com apenas 17 anos, o então jovem galês fazia seu primeiro jogo, entrando no decorrer da derrota por 2 a 0 dos Red Devils para o Everton, em Old Trafford, em uma temporada em que o United passou longe de brigar pelo título, ficando na sexta colocação, a 24 pontos do campeão Arsenal. Ao longo de 23 anos como jogador e dois como assistente técnico, Giggs conheceu as fases mais áureas da história do clube, assim como também passou por momentos difíceis, de incerteza, como o atual, e consegue ver as coisas com uma perspectiva singular. E, para ele, a campanha decepcionante em 2015/16, sob o comando de Van Gaal, pode ser explicada de maneira singular – e sem desmerecer o ponto positivo: ainda há espaço para os jovens.

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Em entrevista ao jornal Telegraph, Giggs avaliou a temporada do Manchester United como frustrante pela falta de consistência de resultados, causada, para ele, em parte pelos problemas com lesão que diminuem as opções do técnico Louis van Gaal na hora de montar o time.

O galês fala da imprevisibilidade dos problemas físicos como algo difícil de se evitar e para o qual não dá para se preparar completamente. Algo que acaba forçando atletas a fazerem mais partidas do que deveriam, o que, por sua vez, prejudica o desempenho mesmo daqueles livres de lesão, sobrecarregados pelo número de jogos. “A consistência tem sido frustrante. Fazíamos uma boa sequência de resultados, e então vinha um resultado decepcionante. É claro que houve muitas lesões. Muitas delas malucas, como nos ombros, ou a da perna do Luke Shaw. Muitas pancadas, o tipo de coisa sobre a qual você não pode fazer nada. E então, quando o elenco fica reduzido, você pede que muitos jogadores joguem partidas em que talvez eles pudessem ser descansados ou poupados”, avaliou.

“Então, parece haver um efeito dominó quando você sofre algumas lesões, e nós nunca saímos disso. Temos nove, dez semanas restantes na temporada e ainda estamos na Copa da Inglaterra, ainda estamos na Liga Europa e ainda estamos tentando conseguir aquele lugar entre os quatro primeiros. Ainda estamos lutando e temos algo pelo que jogar”, completou, começando a projetar a reta final da campanha atual.

Apesar da sensação de temporada perdida por causa das seguidas frustrações e do nível de futebol abaixo do esperado, Giggs ainda encontra motivos pelo qual lutar por um encerramento melhor do que tem sido o andamento da temporada, vislumbrando uma conquista que não vem há muito tempo. “Há clubes em posições piores. A Copa da Inglaterra é uma competição em que temos uma história enorme, e não a vencemos há 12 anos, então é muito importante para nós. Temos o Liverpool e depois o City: dois grandes jogos em três dias. Se eu fosse jogador, estaria ansioso por eles.”

Como qualquer um que tenha acompanhado minimamente os últimos anos do Manchester United, Giggs vê a aposentadoria de Alex Ferguson como o grande ponte de mudança do clube, que o colocou em um momento muito diferente daquele a que o time tinha se acostumado sob o comando do escocês. Além disso, o futebol inglês como um todo tem sido surpreendente em 2015/16, e isso, em sua visão, talvez possa ajudar a diluir a pressão sobre os Red Devils.

“Nunca é fácil. Nunca foi quando estávamos vencendo alguma coisa. Ficamos três anos sem vencer a liga, de 2004 a 2006, e havia muita pressão sobre a gente. Então, vencemos a Champions League (em 2008). É claro que a diferença é que o Sir Alex não está mais lá, e teve o David Moyes, e agora o Louis. Muita coisa mudou, mas a expectativa é sempre de que o Manchester United vença troféus e vá bem. Como jogador, é isso que você quer. Você não quer lutar contra o rebaixamento. Você é colocado sob pressão, quer ir até o campo, onde você precisa ir bem. Precisa treinar a semana inteira e ter certeza de que a preparação foi boa. Há também o reconhecimento de que a temporada tem sido um pouco estranha em relação aos times que têm ido bem. Tem sido uma temporada estranha, em que apenas o Leicester, e talvez o Tottenham, tem sido consistente”, ponderou.

Para o torcedor, mimado pelos frequentes títulos na Era Ferguson, talvez seja difícil se acostumar ao novo momento e enxergar as coisas que têm dado certo em meio a tanta instabilidade na temporada, mas Giggs, que cresceu dentro do clube, vê com positividade a manutenção da identidade de clube formador do Manchester United, ainda que o perfil das contratações tenha mudado e se tornado muito mais parecido com o que acontece em outros clubes da estatura dos Red Devils.

“As coisas fundamentais não mudam. O Sir Alex costumava nos assistir nas categorias de base. Naquela época, o elenco não era tão grande. Se ele tivesse visto você jogar na semana anterior, visto você treinar com o time principal, isso poderia ter um efeito”, explicou.

“Há aquele princípio único de jogar bem nas categorias de base, jogar bem no time B… Se alguém, se machuca, sempre digo para os jogadores jovens: ‘Se você ganhar uma chance ou for chamado de última hora, aproveite sua oportunidade, pode ser sua última. Se você está treinando com o time principal, cause alguma impressão. Faça algo. Se conseguir isso, conseguirá a atenção do treinador e talvez, se ele estiver com dificuldades para encontrar substitutos, qualquer coisa pode acontecer’. É maluco o que pode acontecer.”

“Maluco”, de fato, é uma boa palavra para descrever o período curto em que, por exemplo, Marcus Rashford, de 18 anos, foi de jogador da base a novo herói com os quatro gols nas duas primeiras partidas como jogador do United, sendo que só ganhou sua primeira oportunidade durante o aquecimento para o duelo contra o Midtjylland, pela Liga Europa, com a lesão de Martial na atividade. Como ele, outros jovens ganharam espaço e receberam elogios na temporada, como o defensor Borthwick-Jackson e Jesse Lingard.

“(O clube) Mudou de muitas maneiras, mas é o mesmo de muitas maneiras. Mudou em relação à exposição. Há muita pressão neles, porque depois de um ou dois jogos, todos veem os gols, os melhores momentos. É diferente. O que ainda não mudou é que você tem que ir para o campo de treinamento ou de jogo e tem que ir bem. O que é ótimo sobre o United é que sempre há um caminho para o time principal. Não acho que era mais fácil chegar lá (na minha época), mas era mais fácil permanecer, o que é sempre o mais difícil. Qualquer um pode ganhar uma chance e ir bem, mas aí você tem que permanecer no time.”

É de se imaginar que, com 23 anos como atleta em um só clube, sendo parte fundamental da mudança de patamar da equipe no cenário mundial, conquistando 13 títulos ingleses, duas Champions Leagues, dois Mundiais de Clubes, entre tantos outros, e com 963 partidas com uma das camisas mais tradicionais do mundo, Giggs não poderia estar mais satisfeito com sua carreira como jogador. Mas o galês carrega consigo um grande porém, fora de seu alcance para que pudesse ser diferente. “A única coisa que me frustra às vezes é que meu filho nunca realmente me viu jogar. Então, pelo que ele sabe, eu só joguei pelo United por poucos anos e só. Esqueça sobre mim, Neymar é seu jogador favorito, depois o Cristiano Ronaldo, o Messi. Então, e isso é algo que nunca tinha feito, tenho que me aumentar para ele. Tenho que dizer para ele: ‘Eu costumava ser mais rápido que o Messi’. E ele fala: ‘Não, você não era, eu sou mais rápido que você’. Ele simplesmente não consegue ver isso. Pego-me dizendo: ‘Olha o papai na TV, aqui está um dos gols dele, veja isso’. E ele fica andando pela sala!”

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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