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Ranieri renasceu com o trabalho surpreendente no Leicester e enxerga muito bem como fez isso

A sobriedade de Claudio Ranieri ao falar do sucesso do seu Leicester na Premier League é mais um daqueles elementos que ajudam a explicar uma campanha que, antes do início da temporada, era inconcebível. O próprio italiano reverteu ao longo dos últimos meses a imagem que construíra no comando da seleção grega, quando fracassou na tentativa de levar a equipe à Eurocopa, e agora, mais do que serenidade, tem cautela ao falar da façanha pelas Raposas nos últimos meses. Sem deixar de reconhecer os pontos que levaram o time à primeira colocação do Inglês com cinco pontos de vantagem para o segundo colocado a oito jogos do fim.

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Em ótima entrevista ao jornal Marca, o italiano tocou em diversos assuntos, como a permanência de seus principais jogadores, Kanté, Mahrez e Vardy, as características da equipe e os fatores que explicam seu sucesso, seu projeto de trabalho no Estádio King Power e, claro, respondeu a comparações com o futebol espanhol.

Como já é sabido há algum tempo, o grande objetivo de Ranieri ao assumir o Leicester era manter a equipe na elite inglesa, algo muito vantajoso não apenas esportivamente, mas também financeiramente, considerando os novos valores de direitos de televisão que chegam a partir da próxima temporada. Ele revelou ao jornal espanhol que, ao longo dos três anos de contrato, passaria os dois primeiros apenas adaptando-se à Premier League, tentando a permanência na primeira divisão, para então sonhar em classificar o time a uma competição europeia. “No entanto, tudo mudou nesta temporada”, admite.

Junto da completa virada de paradigma veio a alteração de expectativa em cima do time, mas isso não pressiona Ranieri. “Tenho um vestiário compacto, maravilhoso, e a equipe funciona. Mas sabemos que ainda não fizemos nada. Todo o mundo espera que ganhemos a Premier League. É incrível que, na era do dinheiro, uma equipe pequena esteja realizando esta façanha. Se fôssemos o Chelsea, o Arsenal, o City ou o United, pensaríamos no título. Nós, não.”

Questionado sobre qual o segredo do Leicester, Ranieri afirma não haver nenhum. Vê uma explicação lógica de contexto do futebol inglês na temporada para ajudar a entender a posição de sua equipe na tabela. “Nosso sucesso se baseia em uma combinação de várias cricunstâncias. Os grandes da Premier League não estão fazendo a temporada que deveriam, e nós estamos realizando um ano que ninguém esperava.”

Após um início ruim na Premier League passada, o Leicester se recuperou na reta final e conseguiu evitar o retorno imediato para a Championship. Ao receber a oferta do cargo, Ranieri observou a equipe que nas rodadas derradeiras do Inglês conseguiu se safar do rebaixamento, observou bons sinais e prestou atenção ao que poderia fazer com o que já teria à sua disposição. Pensava poder mudar algumas coisas sem necessariamente mexer radicalmente no elenco – e mostrou estar certíssimo. “Mudamos o sistema de jogo. Antes de eu chegar, havia visto várias partidas, sabia como jogavam e fiz algumas modificações. Acreditava que alguns jogadores poderiam jogar melhor em outras posições, e está funcionando.”

Se for para resumir o ótimo futebol das Raposas em um só aspecto do trabalho de Ranieri, o melhor talvez tenha sido sua flexibilidade. Não chegou tentando impor algum estilo próprio ao time, mas sim buscou aquele que parecia ser o melhor para seus comandados. “No futebol, há muitos caminhos. Cada treinador tem seu método. No Valencia, por exemplo, jogávamos com transições muito rápidas porque havia jogadores que poderiam fazer isso. Em outros clubes, não joguei sempre no contra-ataque. O principal é conhecer as características de seus jogadores e tentar tirar o máximo deles.”

Nos últimos anos, construiu-se uma ideia no futebol mundial de que ter a posse de bola era essencial para se ter sucesso. Esse visão de caminho único começou a ruir com a queda do Barcelona de Guardiola na Champions League de 2011/12, diante do Chelsea, mas o jogo com a bola no pé manteve parte de seu prestígio. Ranieri poderia ter sido afetado por esse zeitgeist futebolístico, mas acertou ao entender as limitações do Leicester. “Na Inglaterra, o futebol é muito dinâmico, há muita batalha e divididas. Não podemos ter a posse, porque não temos essa qualidade para abrir os times que se fecham. Por isso queremos jogar sempre rápido. Somos um dos times que mais cometem erros no passe, mas em um, dois ou três toques fazemos gol”, avaliou.

Alguns dos primeiros frutos da temporada impressionante do Leicester já começam a aparecer. Nesta quarta-feira, surgiu a informação na imprensa europeia de que o clube havia sido abordado pela Relevant Sports, convidando as Raposas para a disputa da International Champions Cup, a atual competição de pré-temporada mais importante do mundo. Um torneio que até pouco tempo atrás não cogitava times ingleses além dos gigantes tradicionais e dos novos ricos Manchester City e Chelsea. Com isso, é possível que o Leicester enfrente algumas das maiores equipes do mundo na preparação para a campanha 2016/17. Um tipo de confronto para o qual, na opinião de Ranieri, as Raposas não estão preparadas ainda.

Perguntado se o Leicester conseguiria repetir na Espanha a façanha que tem tido na temporada inglesa, Ranieri foi taxativo: “Acredito que não, porque é um estilo de futebol diferente. Conta mais o domínio e a posse. Quando uma equipe grande tem a bola em 60% da partida, vai vencer. O clube pequeno não consegue aguentar. Mas há outras vias. O Atlético de Simeone, por exemplo, não gozava tanto do controle da bola, mas levou a Liga”.

O bom humor também é uma arma para despachar comparações exageradas, como se poderia bater de frente com Real Madrid e Barcelona. “Mas não sei nem se posso ganhar o próximo jogo, contra o Crystal Palace! O que tenho claro é que não vamos mudar nosso estilo. Buscamos jogadores com alma e espírito, somos assim.”

Real e Barça, aliás, são alguns dos destinos especulados para dois de seus destaques individuais na campanha: N’Golo Kanté e Riyad Mahrez. A impressão que se tem é de que será difícil para o Leicester segurar os dois jogadores, mas Ranieri acredita que eles ainda têm o que amadurecer e se desenvolver e que isso pode ser motivo para sua permanência. “Aqui, no Leicester, são reis. Tudo dá certo para eles e todos estão contentes. Mas quando você vai para um clube grande, a pressão é enorme, e você tem que dar de tudo”, analisou, após ser perguntado se teriam sucesso nos gigantes espanhóis.

O trabalho incrível pelo Leicester fez renascer a carreira de Claudio Ranieri, que, embora consciente de que vinha perdendo espaço no cenário mundial, vê como normal a transitoriedade de fases de sua função e não se deslumbra com os elogios, apesar de aproveitar para provocar quem tanto o criticou quando chegou à Inglaterra no ano passado. “Não sabia de nada na época. E agora também não me concentro nos elogios. Penso no trabalho, que é o único que diz o que você é. As pessoas se esquecem. Há pouco, ascendi com o Monaco, fui segundo, atrás do PSG, e por quatro partidas ruins na Grécia recebi críticas. Assim é o futebol.”

Apesar de manter os objetivos de título e vaga na Champions League como combustíveis para a reta final, o italiano já vê a temporada como um sucesso, já que o objetivo inicial foi atingido. Agora, quer ir passo a passo alcançando outros patamares no clube que, espera, seja aquele em que se aposente após “um contrato longo, de seis ou sete anos”.

“O Leicester é um clube pequeno e precisa ir devagar. Conseguimos o objetivo mais importante. Já vencemos: na próxima temporada, jogaremos na Premier League. Agora, vamos lutar pela Europa. E, se seguirmos em cima, tentaremos entrar na Champions, e, em seguida, ser campeões. Mas tem que ir pouco a pouco.”

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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