Inglaterra

Se Cristiano Ronaldo quer ser negociado, talvez o melhor ao Manchester United seja deixá-lo ir

O craque de 37 anos pediu para ser negociado porque quer disputar a Champions League e não está feliz com as movimentações do Manchester United até agora

O torcedor do Manchester United estava angustiado. A promessa era de reformulação profunda. O novo técnico Erik ten Hag teria carta branca para vender e contratar, montar um time que combinaria com as suas ideias. O começo de um projeto coerente. Um mês depois do fim da temporada, ninguém havia sido contratado e isso parece ter incomodado um torcedor muito ilustre do United. Cristiano Ronaldo de repente pediu para ser negociado, segundo vários veículos ingleses importantes (The Times, Guardian, ESPN), porque não identificou ambição nas (faltas de) movimentações recentes. E talvez o melhor caminho seja simplesmente deixá-lo ir.

Está ficando louco? Você não viu quantas vezes o Manchester United foi salvo pelo Cristiano Ronaldo? Tem razão. Ele fez gols decisivos que ajudaram o United a conseguir resultados que impediram a última temporada de ser um desastre ainda maior. Mas não existe essa separação. Não são dois órgãos diferentes, como se o time fosse o Shun e Ronaldo fosse o Ikki, mas uma única entidade. Ronaldo fez tantos gols decisivos, frequentemente nos minutos finais, porque o Manchester United chegou aos minutos finais de tantas partidas precisando daqueles gols. E, novamente, ele não aparecia dos céus nos acréscimos como uma fênix: ele estava em campo o tempo todo. Era um membro de uma equipe cheia de problemas que nunca conseguiu encontrar equilíbrio e regularidade e arrancou alguns resultados na unha. Com certeza o mais brilhante individualmente, e ainda assim, nem tanto. Os 24 gols que marcou foram sua pior marca desde 2006/07.

Dizer que a temporada do Manchester United teria sido pior sem Cristiano Ronaldo é uma afirmação fácil, impossível de ser provada e que denota uma visão individualista do futebol. Com o mesmo treinador, e a maioria dos mesmos jogadores, as duas anteriores haviam sido melhores. Então a culpa é dele? Também não necessariamente. A formação de um coletivo é um jogo muito delicado de compensações. O Ronaldo de hoje em dia oferece uma qualidade de finalização sem igual, jogo aéreo muito forte, presença de área, fome pela vitória. Ao mesmo tempo, aos 37 anos, não se move como antes, não pressiona como os principais jogadores da posição. A contratação de Ronaldo melhora o elenco do ponto de vista técnico. Do ponto de vista coletivo, exige muitas compensações.

Tentando ser o mais preciso possível, podemos dizer que, mais do que melhorar ou piorar, Ronaldo modificou a temporada do Manchester United. O projeto estava caminhando para um certo lugar, a passos muito lentos, sob o comando de Ole Gunnar Solskjaer. De repente, as expectativas eram outras, as atenções eram maiores. O vestiário ficou diferente, ganhou uma presença muito forte – e isso teria causado problemas. A ideia que Solskjaer tinha para o time saiu voando pela janela. Uma outra ideia teria que ser concebida para tirar o melhor de um craque como Ronaldo, sem abrir mão do equilíbrio coletivo. Ele não foi o primeiro a falhar nessa missão, e a pergunta de milhões de euros do futebol europeu é justamente se ainda é possível montar uma equipe que compete no mais alto nível com Cristiano Ronaldo.

Solskjaer não foi o primeiro a falhar. Antes dele, na Juventus, Maurizio Sarri e Andrea Pirlo também não haviam conseguido. Allegri foi um pouco melhor, em parte por ser um excepcional treinador, em parte por ter uma ideia diferente. A realidade é que desde que Ronaldo saiu do Real Madrid não foram os melhores especialistas do mundo que tentaram encaixá-lo em um sistema de pressão – com exceção de Rangnick, que basicamente inventou o sistema de pressão, mas a sua tentativa foi feita em um contexto muito estranho, assumindo no meio da temporada, como interino, sem autoridade. Ronaldo também não esteve nos clubes mais bem administrados. São circunstâncias que ainda deixam a resposta em aberto. Talvez em uma situação melhor, com um técnico de primeira linha, ainda seja possível.

Mas como? Meu questionamento não é original. Gurus da tática, como Jonathan Wilson, da Pirâmide Invertida, e Michael Cox, do Entre LInhas, não acham possível. Ralf Rangnick não acha possível, tanto que conduziu conversas para negociá-lo em janeiro, segundo o The Athletic. Porque a equação não fecha. Se o seu time se propõe a pressionar o adversário desde a linha de frente, e ela conta com um atacante que não pressiona o bastante – evidência um: os números; evidência dois: os olhos -, você tem um problema. Não é uma opinião, é um raciocínio básico. Mas ok, e se ele estiver em um time que não se propõe a pressionar tanto assim?

Boa sorte encontrar um desses entre os maiores da Europa, aqueles que disputam a Champions League pensando em ser campeão. A grande ironia é que Allegri, demitido após uma temporada com ele na Juventus, agora recontratado, é um dos únicos técnicos de primeira linha que não tem essa ideia como uma das suas marcas. Um outro seria Diego Simeone, mas é melhor evitar a guerra civil avassaladora que tomaria conta de Madri se Ronaldo fosse contratado pelo Atlético. Carlo Ancelotti seria uma boa tentativa. Topa um retorno ao Real Madrid? Não sei se Karim Benzema toparia.

A saída de Ronaldo fica complicada, não apenas pela questão financeira e por um salário quase proibitivo, mas também porque os times mais propensos a mudar tudo para encaixar o jogador que ele é hoje em dia não são os mesmos que ele colocou em sua lista de destinos favoritos. A maioria dos times-que-não-pressionam está do segundo patamar para baixo, e qual o sentido de deixar um clube no qual é tão identificado, sob a desculpa de que quer jogar a Champions League, para defender a Roma? Liga Europa por Liga Europa, fique em Old Trafford.

O Chelsea aparece como uma única possibilidade que mais ou menos une as duas coisas. Tem a capacidade financeira, tem um dono todo empolgado e tem um técnico que, apesar de entusiasta do sistema de pressão, é um pouco mais adaptável – e também excepcional. Ainda um grande enigma, mas Thomas Tuchel seria provavelmente o homem mais qualificado a tentar resolvê-lo. Dois problemas. O interesse por Raphinha e Raheem Sterling indica que o Chelsea está procurando outro tipo de atacante – caras mais rápidos e leves que saibam botar a bola na casinha – e o Manchester United relutaria bastante em reforçar um adversário direto por uma da quatro vagas na Champions League.

Mas agora o outro lado da moeda. Para o Manchester United, tirando a questão emocional da decisão, que não pode ser totalmente ignorada porque não é fácil abrir mão de um ídolo, o pedido de transferência pode ser uma bênção disfarçada. Erik ten Hag disse todas as coisas certas desde que foi contratado. Está super super animado para trabalhar com Cristiano Ronaldo. Mas está mesmo? Cria da filosofia cruyffiana do Ajax, seu estilo também depende de um organizado sistema de pressão. E ele não é tonto. Sabe que terá o mesmo problema dos seus antecessores. E também sabe que se as promessas forem cumpridas, e o seu trabalho for de médio a longo prazo, mesmo nos melhores cenários não dá para contar com um jogador de 37 anos daqui a duas ou três temporadas. Se uma hora terá que armar um time sem Cristiano Ronaldo, ter que antes armar um com Cristiano Ronaldo apenas atrasa o processo.

O que realmente complicou a vida do Manchester United foi o momento do pedido. Havia dado entrevista no começo de junho dizendo que acreditava que o clube “voltaria ao lugar ao qual pertence”, e aí algumas semanas sem contratações depois, ele não acredita mais? Agora muitos atacantes saíram do mercado: Darwin Núñez, Richarlison, Gabriel Jesus, Lukaku. Não que um desses seria alvo dos Red Devils, ou até possível, mas seria legal ter mais opções em vez de ficar com mãos atadas, precisando repor seu principal artilheiro a menos de um mês da primeira rodada da Premier League, depois de tantos negócios já terem sido feitos.

A nova era do Manchester United começou conturbada. Ralf Rangnick, novo técnico da seleção austríaca, deveria permanecer como consultor. Não rolou. A janela de transferências não caminha como se imaginava e a aparente intenção de montar um time de estrelas da Eredivise pode ser questionada – o clube tem um departamento de observação ou está só perguntando a Ten Hag: e aí, conhece algum zagueiro bom? E as especulações sobre o futuro de Cristiano Ronaldo, que começaram desde o anúncio de Ten Hag, finalmente se concretizaram e em um momento ruim. Nesse caso, talvez o melhor a se fazer é arrancar logo o band-aid.

Aliás, seja bem vindo, Tyrell Malacia. Não repara na bagunça.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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