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Relembre a grande obra de Howard Kendall: o timaço do Everton nos anos 1980

Antes do apito inicial contra o Manchester United, o clima de lamentação tomava conta das arquibancadas do Goodison Park. No telão, a imagem de Howard Kendall anunciava a morte do ex-jogador e treinador dos Toffees, neste sábado, aos 69 anos de idade. Parte de uma equipe memorável do Everton nos tempos de atleta, foi como técnico que Kendall escreveu de maneira mais contundente seu nome na história do clube, com o grande time do Everton dos anos 1980.

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Campeão inglês pelo Everton em 1969/70, os últimos passos de Kendall como jogador foram acompanhados de seus primeiros como treinador. No Blackburn, o inglês acumulou as funções durante duas temporadas, entre 1979 e 1981. Sua empreitada de sucesso, levando os Rovers à primeira divisão em 1979/80, chamou a atenção dos Toffees, que buscaram-no para Goodison Park em 1981. Naquele ano, penduraria as chuteiras, mas seguindo na prancheta da equipe de Liverpool.

O período em que Kendall assumiu o comando do Everton foi justamente aquele em que o Liverpool, maior rival do clube, vivia um sucesso como nunca tivera antes. Entre as temporadas 1972/73 e 1983/84, os Reds venceram oito de 12 Campeonatos Ingleses possíveis. Já na década de 1980, um dos únicos times capazes de terminar à frente da equipe de Shankly, Paisley e Fagan foi justamente o Everton de Kendall (o outro foi o Aston Villa, em 1980/81). Conquistou dois títulos.

O primeiro título do técnico no Everton, que prepararia o terreno para a tomada da supremacia no futebol inglês no ano seguinte, aconteceu na temporada 1983/84. A equipe derrotou o Watford por 2 a 0 na final da Copa da Inglaterra, em Wembley, com gols de Graeme Sharp e Andy Gray, encerrando uma sequência de 18 anos sem títulos na competição. Autor do tento que fechou a vitória, Gray foi uma das boas contratações conseguidas por Kendall após sua chegada ao Goodison Park. O atacante, que se destacara por Aston Villa e Wolverhampton nos dez anos anteriores, assinou no início da campanha de 1983/84 e se tornou o grande destaque do time logo em sua temporada de estreia.

Na temporada 1984/85, o Everton conquistaria o seu primeiro Campeonato Inglês, o oitavo do clube em sua história. Mais do que retomar o topo do futebol nacional, os Toffees encerravam a maior sequência de títulos da história do Liverpool. Os Reds eram os atuais tricampeões e acabaram com o vice naquele ano. A distância entre os dois, no entanto, não deixava dúvidas sobre a superioridade azul: o Everton chegou ao título com 13 pontos de vantagem.

Jogo que garantiu ao Everton o título em 1985:

Apesar de feliz com o desempenho do time, Kendall queria mais velocidade ao seu ataque do que Andy Gray poderia dar. Foi então que o treinador tomou uma decisão complicada, mas que se provou acertada pouco tempo depois. Permitiu a saída de Gray e contratou para o setor Gary Lineker.

A primeira temporada de Lineker pelo Everton foi fantástica. Só pelo Campeonato Inglês, o atacante marcou 30 gols, chegando a 40 em todas as competições, em 1985/86. Hoje apresentador de programas de futebol na BBC, Lineker, maior artilheiro da seleção inglesa em Copas do Mundo, com dez gols, ainda vê aquele Everton de 1985/86 como a melhor equipe em que atuou. Mesmo com esse status, o time não ficou com o título do Campeonato Inglês daquele ano, que foi para o Liverpool. Mas mesmo isso não apagou a imagem construída pela equipe na temporada, que, entre seus grandes momentos, conseguiu uma vitória sobre os Reds em pleno Anfield.

Tendo sido campeão inglês em 1985, o Everton poderia ter disputado a Copa dos Campeões de 1985/86, mas a Tragédia de Heysel resultara na expulsão dos clubes ingleses. Portanto, o grande time de Kendall não pôde colocar seu talento à prova em âmbito continental. O vice-campeonato na temporada seguinte, ficando atrás do Liverpool, também garantiria ao Everton a participação na Copa da Uefa, mas novamente, impedido de disputar a competição, como todos os outros ingleses, a equipe teve que se contentar com a disputa nacional.

Em 1986/87, mesmo sem Lineker, que após a Copa de 1986 acabou transferido para o Barcelona, o Everton manteve a competitividade que apresentara nas temporadas passadas. Mais uma vez conquistou o Campeonato Inglês, tendo, de novo, o rival Liverpool como segundo colocado. Aquele, no entanto, foi o limite para Kendall. Além de ser impedido de ir atrás do título que seria histórico para os Toffees, a ausência de competições europeias ainda dificultava contratações de nome de peso para um time que, nacionalmente, já havia se estabelecido.

Ao fim da temporada 1987, Kendall deu fim à sua primeira passagem pelo banco do Everton. Entre 1981 e 1987, construiu a geração mais vencedora da história do clube, que poderia ter tido feitos ainda maiores, não fosse a punição da Uefa. O veterano ainda voltaria ao clube em mais duas ocasiões: entre 1990 e 1993 e na temporada 1997/98, mas em nenhuma delas conquistou um título relevante. Já havia conquistado o reconhecimento que merecia. Entre torcedores do Everton, Kendall é uma lenda, mas sua história poderia ser ainda mais conhecida além da Inglaterra em circunstâncias diferentes.

Foto de Leo Escudeiro

Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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