Raio-X do lateral longo na Premier League: Números mostram perda de tempo ou realidade?
O 'latereio' mais que dobrou em quantidade na Inglaterra, mas números sobre aproveitamento levantam debate
Os laterais longos voltaram com força total na Premier League. A sensação visual de que eles estão por toda parte não engana: os números confirmam uma explosão no uso desse recurso na temporada 2025/26.
Depois de anos com uma média inferior a 1,52 lateral longo por jogo, o número saltou para 3,92 por partida, segundo dados da “Opta”. Isso é mais que o dobro do recorde anterior.
Todos os clubes da liga já utilizaram esse tipo de jogada ao menos cinco vezes, e alguns transformaram isso quase em uma estratégia central de ataque. O problema é que volume não significa eficiência.
O que os números dizem sobre lateral longo na Premier League
O caso mais citado de sucesso é o do Brentford, que marcou cinco gols a partir de laterais longos nesta temporada, repetindo o protagonismo que já havia demonstrado no ano anterior. Naturalmente, isso influenciou outros times: se há uma vantagem a ser explorada, ninguém quer ficar para trás.
Mas os dados mostram que replicar esse sucesso é muito mais difícil do que parece. Em 301 jogos disputados até agora, houve 1.179 laterais longos segundo a Opta e apenas 24 gols originados dessas jogadas.
Por um lado, esse é o maior número da década, de longe, e a temporada ainda não acabou. Depois de 14 gols dessa forma na temporada passada, são dez a mais na atual campanha. Antes, o maior número do período era de 12 gols em 2018/19.

Por outro lado, isso significa que sai um gol a cada 49 tentativas, ou, em média, um gol a cada 12,5 partidas. Para efeito de comparação, os escanteios, que também são considerados ineficientes, geram um gol a cada 20,8 cobranças.
Ou seja: mesmo dentro do universo das bolas paradas, o lateral longo é uma das ferramentas menos produtivas, com menos da metade do aproveitamento dos escanteios.
O próprio Brentford, líder em gols dessa forma com cinco, teve 142 tentativas. Crystal Palace (130), Leeds (119) e Sunderland (106) também passaram das 100 tentativas.
- - ↓ Continua após o recado ↓ - -
O impacto profundo do ‘latereio’ na Premier League
Alguns exemplos ajudam a ilustrar esse contraste. O Tottenham, por exemplo, já tentou 74 laterais longos na competição e não marcou nenhum gol sequer. Em contrapartida, há casos pontuais de sucesso, como o do Manchester United, que venceu o Newcastle United no Boxing Day graças a um lance iniciado dessa forma. Os Red Devils têm dois gols em apenas 39 tentativas.
Ainda assim, esses momentos são exceções, e não regra. O ponto central é que insistir em uma estratégia pouco eficiente pode até gerar resultados ocasionais, mas dificilmente compensa no longo prazo. E vai além: pode ter efeitos colaterais importantes no próprio jogo.
Um deles é o tempo perdido, alvo de grande crítica na atual temporada também com escanteios. Em 2025/26, a bola ficou fora de jogo por uma média de 10 minutos e 42 segundos por partida apenas em cobranças de lateral, segundo dados da Opta. Isso é quase dois minutos a mais do que na temporada anterior.
Long throws put in by each team this season, and the number of goals they've scored from them.
Eight teams on zero… pic.twitter.com/ExU9CLiOjl
— Opta Analyst (@OptaAnalyst) March 20, 2026
Em alguns casos extremos, partidas chegaram a ter mais de 15 minutos de paralisação só nesse tipo de reinício. Isso impacta diretamente o ritmo do jogo e possivelmente até a quantidade de gols.
Após quatro temporadas com médias historicamente altas, a atual edição da Premier League registra apenas 2,73 gols por jogo, uma queda considerável. Paralelamente, os gols com bola rolando também diminuíram, atingindo o menor nível desde 2009-10.
Não dá para afirmar que os laterais longos são os únicos culpados, mas eles fazem parte de uma tendência mais ampla: o foco crescente em bolas paradas, muitas vezes em detrimento da fluidez ofensiva.
Há, claro, nuances. Um lateral longo pode gerar um escanteio, manter a pressão ou contribuir indiretamente para um gol em fases posteriores da jogada. Além disso, muitos times ainda estão em fase de adaptação e podem se tornar mais eficientes com o tempo.
Mas, no cenário atual, as evidências apontam para uma conclusão desconfortável: para a maioria das equipes, os laterais longos parecem gerar mais custo, seja em tempo, ritmo e qualidade de jogo, do que benefício real.



