Quando o United frustrou a Trípice Coroa do Liverpool e venceu seu primeiro título pós-Busby
A Inglaterra apresentará ao mundo, neste domingo, o seu maior clássico. A animosidade entre cidades vizinhas transbordou aos gramados, à medida em que Manchester United e Liverpool candidatavam-se a principal clube do país. Lideram a lista de vencedores do Campeonato Inglês, com um combinado de 38 títulos, e enfrentam-se em Old Trafford em uma partida muito importante para a tabela da Premier League.
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Ambos estão em brigas cabeça a cabeça pelos seus objetivos. O Manchester United está em quarto lugar, um ponto à frente de Chelsea e Arsenal, querendo disputar a próxima Champions League. O desejo do Liverpool, porém, é mais profundo. Tem a chance de quebrar um jejum de 28 anos sem se sagrar o melhor time do país. Chegou a ser grande favorito ao título, antes de empatar em sequência com Leicester e West Ham.
Graças à final da Copa da Liga Inglesa, também neste domingo, contra o Chelsea, o Manchester City adiantou a sua 27ª rodada e assumiu a liderança, com um jogo a mais do que os homens de Jürgen Klopp. Para recuperá-la, precisam de pelo menos de um ponto em Old Trafford, onde os donos da casa, com suas próprias ambições em mente, farão de tudo para frustrá-los.
Como aconteceu em maio de 1977. Naquela época, guardadas as devidas proporções, o momento dos dois times era também diferente. O Manchester United tentava se reconstruir após a saída de Matt Busby e do rebaixamento à segunda divisão, enquanto o Liverpool dava início ao período dourado de sua história sob o comando de Bob Paisley. Na final da Copa da Inglaterra daquela temporada, ambos buscavam diferentes glórias.
Para o Manchester United, seria o primeiro título de uma nova era. Tommy Docherty havia dado bons sinais, desde que tirou o clube da segunda divisão. Na primeira temporada de volta à elite, havia sido terceiro colocado e chegado à final da FA Cup, na qual perdeu para o Southampton, por 1 a 0. Docherty, ao retornar a Manchester com a derrota nas costas, havia informado um público de 250 mil pessoas que se reuniram no centro da cidade que o seu time voltaria à decisão no ano seguinte.
Ele cumpriu a promessa. A temporada 1976/77 começou difícil para o Manchester United, que rapidamente se viu fora da briga pelo título inglês, com uma sequência de oito partidas sem vitória entre outubro e dezembro. Na Copa da Inglaterra, vingou-se do Southampton nas oitavas de final, passou pelo Aston Villa e pelo Leeds antes de marcar viagem para Wembley. Era concentração total para a partida contra o grande rival.
O Liverpool estava mais distraído. Quando a final chegou, no sábado, 21 de maio, os Reds já haviam renovado o status de campeão inglês – com um total de três títulos e dois vices em cinco temporadas – e estavam com os olhos voltados para a quarta-feira seguinte, quando enfrentariam o Borussia Monchengladbach pela final da Copa dos Campeões. A Copa da Inglaterra era importante porque, no contexto, significava a chance de conquistar a Tríplice Coroa, feito que, naquela época, apenas o Celtic havia alcançado.
Todos os gols saíram em um intervalo curto de tempo, no começo do segundo tempo. Stuart Pearson aproveitou vacilo da defesa do Liverpool, entrou na área e bateu cruzado para fazer 1 a 0. Jimmy Case empatou, dois minutos depois, com um belo gol: controlou a bola na entrada da área, girou e soltou a perna para superar o goleiro Alex Stepney. A retaguarda de Paisley, porém, voltou a errar, e Lou Macari pegou a sobra. Comemorou como se o gol fosse dele, mas, depois da partida, descobriu que a bola havia desviado em Jimmy Greenhoff antes de entrar.
Em todos os anos de dominação entre as décadas de setenta e oitenta, o Liverpool nunca mais chegou tão perto de conquistar a Tríplice Coroa. Conseguiu vencer a Copa da Inglaterra novamente apenas em 1985/86, quando fez a primeira Dobradinha nacional da sua história. Mas não teve nem a chance de completar a temporada com a Copa dos Campeões porque os clubes ingleses estavam banidos do futebol europeu, depois de Heysel.
De volta à varanda da prefeitura de Manchester, agora com o troféu da FA Cup em mãos, Docherty fez outra premonição: “Este é o começo de algo grande”. Daquela vez, ele estava errado. Foi demitido em um escândalo extra-campo – se apaixonou pela esposa de um fisioterapeuta do clube -, e o Manchester United começaria “algo grande” apenas em 1986, quando trouxe da Escócia um certo Alex Ferguson.



