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Copa de 2022 no Catar sofre mais um golpe, agora da FA

O presidente da Football Association (FA), a federação inglesa de futebol, Greg Dyke, disse ser contrário à realização da Copa do Mundo de 2022 no Catar durante o período tradicional, junho e junho, por causa do forte calor que faz no país nesse período do ano. A solução, segundo ele, deveria ser mudar a competição para o inverno ou mudar o país sede. É mais um capítulo dessa saga sobre a Copa do Mundo de 2022, que começou com as suspeitas de corrupção e vem sendo especulada para mudar para outro período do ano, quando as temperaturas são mais amenas. Essa possibilidade causa discórdia em grande parte do mundo do futebol, especialmente clubes e ligas, que veriam seus torneios serem interrompidos para a disputa da Copa. A Fifa assiste a essa briga, interessada no que pode sair dela, tentando tirar proveito disso.

“Não sei quantas pessoas já estiveram no Catar em junho. Eu estive. E uma coisa que eu posso dizer é que não dá para jogar um torneio de futebol no Catar em junho”, afirmou. “Eu tenho muita simpatia pelos cataris. Eles se candidataram e venceram. Eu acho que o Comitê Executivo da Fifa provavelmente cometeu um erro naquele momento. Nós teremos que viver com isso”, afirmou o Greg Dyke. “A questão é: como solucionar esse problema?”. Bom, Greg, a Fifa parece já ter algumas ideias na cabeça. A briga pode resultar no cenário ideal para a Fifa tirar a Copa do Mundo do Catar, evitar o risco das denúncias de corrupção da escolha do país como sede, e ainda contemplar um outro país com o seu principal produto – o que é um enorme capital político.

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A mudança da Copa do Mundo de junho e julho, verão no hemisfério norte, para dezembro e janeiro, inverno, seria uma forma de amenizar os efeitos devastadores que as temperaturas de 50°C no Catar podem causar aos atletas e especialmente aos torcedores que forem ao Mundial. No inverno, as temperaturas chegariam a 30°C, muito mais amenas, ainda que também seja quente. O problema é que essa mudança é muito mal vista pelos clubes e, especialmente, pelas ligas ao redor do mundo. O presidente da Premier League, Richard Scudamore, foi um dos que criticou essa possível mudança no calendário dizendo que seria um caos para o calendário. Blatter, que também já defendeu a mudança da Copa para o inverno abertamente, também deve querer uma reação das ligas e dos clubes com essa posição. A FA representa a seleção da Inglaterra e, assim como as demais seleções, a posição tende a ser da realização do torneio no inverno. Até porque os jogadores chegariam menos desgastados. Só que os clubes e ligas não gostariam disso, porque quem mais perde com isso são justamente eles.

Greg Dyke assumiu a presidência da FA há pouco mais de um mês (AP Photo/Sang Tan)
Greg Dyke assumiu a presidência da FA há pouco mais de um mês (AP Photo/Sang Tan)

“A posição da FA é que não se pode jogar no verão no Catar. A Fifa, então, tem duas opções. Ou muda o período que a Copa é jogada, ou muda para outro lugar”, afirmou o dirigente. “Eu suspeito que ambas opções irão acabar em alguma briga, mas aí alguém deveria ter trabalhado nisso em 2010, quando a sede foi escolhida”, afirmou Dyke. A escolha da sede foi em dezembro de 2010, quando também foi escolhida a sede de 2018, na Rússia.

O Comitê Organizador da Copa do Mundo de 2022 divulgou um comunicado sobre o fato. “Foi a decisão certa dar a Copa do Mundo para o Oriente Médio em 2022. O futebol é o esporte mais popular no Oriente Médio e as pessoas da nossa região merecem a oportunidade de ter a história sendo feita na sua parte do mundo”, diz a nota. “Nós estamos comprometidos em cumprir as promessas que fizemos na nossa vitoriosa candidatura. Nós estamos prontos para sediar uma Copa no verão ou no inverno. Nós sempre dissemos que essa questão requer o acordo da comunidade internacional do futebol. Uma decisão que altere as datas da Copa do Mundo de 2022 não irá afetar o nosso planejamento de infraestrutura”, continua o informativo.

A Fifa irá discutir a questão na próxima reunião do Comitê Executivo, em outubro. O que parece é que a entidade quer colocar um bode na sala, criando um problema que cai no colo dos clubes, das seleções e das ligas, que precisam lidar com ele. Uma briga que faz exatamente o que a Fifa quer: cria um embate entre clubes e seleções, que obrigará a entidade a uma mudança. Não dá para saber, nesse momento, qual será essa mudança. O que parece improvável é que a Copa aconteça no verão do Catar.

A mudança para o inverno ou a mudança de sede dependerá da força política de cada lado – clubes, seleções, ligas e até do próprio Catar, para não perder a Copa. Parece que a Fifa quer arrumar uma desculpa para tirar a Copa do Mundo do Catar, mas ela mesma não quer tomar essa decisão. Então, coloca esse bode feio e malcheiroso na sala para que todos digam que ele precisa sair dali e ela tenha a desculpa para transferir o Mundial para outro país. Seria interessante para a Fifa, porque as suspeitas de corrupção na escolha do Catar são grandes. Em novembro de 2012, o investigador contratado pela Fifa, Michael J. García, disse haver indícios de corrupção no processo de escolha da Copa do Mundo de 2022.

Se a Copa for realizada no inverno, ou no fim do ano, no final do outono, mostrará que o Catar e seu dinheiro têm um enorme poder de influência política na Fifa. Ou que a investigação contratada pela Fifa é mais para fazer parecer honesto do que efetivamente investigar. É importante lembrar o quanto o Catar entrou no futebol nos últimos anos. A Qatar Sports Investment, o braço esportivo da Qatar Investment Authority, empresa de investimentos ligada à família real e ao governo do Catar, comprou o Paris Saint-Germain e já conseguiu levar o clube ao título francês e às quartas de final da Liga dos Campeões, gastando milhões de euros em contratações milionárias. A Qatar Foundation, também ligada ao governo do Catar, é a principal patrocinadora do Barcelona. É o maior patrocínio de camisa do mundo. Isso para falar só dos catarianos, sem falar dos Emirados Árabes, que investem muito no futebol com a Emirates, linhas aéreas que atua mundialmente, e possui clubes como o Manchester City. Mas não dá para considerar que os dois países tenham o mesmo interesse, ainda que seja de se imaginar que sim. Veremos onde isso vai dar.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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