Por que o Liverpool pode ser decepção nesta Premier League — e Iraola não tem culpa
Clube de Anfield decepciona no mercado e mostra grave problema em pré-temporada
Dá para dizer que todo integrante do Big Six da Premier League tem uma história interessante para se acompanhar em 2026/27. Seja a consolidação definitiva do Arsenal como a maior potência do país, a transição do Manchester City após Pep Guardiola, os investimentos massivos no Tottenham, a continuidade de Michael Carrick no Manchester United e os novos treinadores em Liverpool e Chelsea.
Há, porém, muitos motivos para se duvidar do desempenho desses clubes nesta temporada, especialmente em Anfield.
A aposta em Andoni Iraola parece certeira em uma tentativa de resgatar o estilo de jogo “Rock and Roll” de Jürgen Klopp, afinal, o técnico espanhol fez o Bournemouth ser o time mais intenso da Inglaterra com e sem a bola entre 2023 e 2026. A gestão dos Reds, no entanto, não tem entregado ao novo treinador o contexto ideal para que consiga replicar a era de maior sucesso neste século.
Pode ser um indicativo de outra temporada frustrante para o Liverpool, como foi a última, quando fez investimento recorde e terminou em quinto no Campeonato Inglês como atual campeão.
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Liverpool sofre fisicamente na pré-temporada
O Liverpool quer voltar a ser o “time de ataque intenso e heavy metal” — definição que veio do próprio ídolo Mohamed Salah em post nas redes sociais no fim da última temporada –, mas seu desempenho na pré-temporada tem mostrado uma continuidade problemática da última temporada.
— Neste momento, provavelmente os jogadores não têm energia para 90 minutos e começam a sentir o cansaço. Vai levar um tempo com eles, precisamos treiná-los mais — assumiu Iraola após a derrota para o Monaco em amistoso em 9 de agosto.
Na ocasião, os Reds haviam perdido por 3 a 2 após abrirem dois gols de vantagem com menos de meia hora de jogo em Anfield. Uma semana antes, tinham sofrido exatamente o mesmo roteiro frente ao Leeds United: 2 a 0 no primeiro tempo antes de tomar quatro gols na etapa final.
— O jogo com o Monaco foi bastante parecido com o que fizemos contra o Leeds. Jogamos muito bem na primeira parte, especialmente nos primeiros 30 minutos, mas, neste momento, provavelmente não temos muito mais em termos do nível exigido para jogar assim — analisou.
— Nas duas últimas partidas não conseguimos sustentar o nível que queremos durante todo o tempo. Assim que fazemos algumas mudanças, eles começam a sentir o cansaço, não conseguimos manter esse nível, então temos trabalho pela frente — completou, ainda na mesma entrevista coletiva.
As falas de Iraola complementam o que foi visto no Liverpool na última temporada com Arne Slot: um time muito longe da intensidade vista nos anos anteriores. Um time que subia pressão de forma descoordenada e sofria nas transições defensivas, o famoso “correr para trás”.
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Os números ajudam a ilustrar isso. A temporada de 2025/26 representou o menor índice de passes por ação defensiva (estatística chamada de PPDA) dos Reds desde 2018/19: eles demoraram 11.53 segundos para recuperar a bola em uma posse adversária.
O Bournemouth de Iraola, por outro lado, foi o quarto time em toda a Premier League passada, com 10.6, sendo líder em chutes após roubadas de bola no ataque, outro sintoma de um time que pressionava muito.
Ou seja, será complexo ao novo técnico do Liverpool conseguir replicar em Anfield o que fez nas três temporadas anteriores. Claro que, como disse o próprio espanhol, precisa de tempo para que o time fique na ponta dos cascos fisicamente. Falta, porém, material humano à disposição.
Físico poderia vir com o tempo, mas Iraola não tem contexto ideal
Um jogador do Liverpool, em anonimato, chegou a falar para a “BBC” que passou mal depois dos primeiros trabalhos com o comandante.
“Iraola não tem medo de jogar no um contra um em todo o campo, de pressionar alto e de estar sempre tomando a iniciativa”, disse Milos Kerkez, do Liverpool, que trabalhou com o técnico nos Cherries, ao “The Guardian”. O espanhol ainda tem um “castigo” para os times perdedores nos treinamentos: correr até o outro lado do campo e voltar.
— Se você vir imagens de como todos nós ficamos depois dos treinos, todos deitados, então dá para ver para o que ele está nos preparando. Você definitivamente precisa ter pernas e estar em boa condição física para fazer o que ele quer — completou.
A questão é que a gestão dos Reds não tem entregado as opções ideais para Iraola deixar seu time fisicamente completo, principalmente pelo mercado muito abaixo. O elenco tem várias lacunas claras que não foram sanadas em praticamente todos os setores, com exceção do gol e do lado esquerdo (lateral e ponta).
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As lacunas no Liverpool que podem minar Iraola
As chegadas dos zagueiros Jérémy Jacquet, de 20 anos, e Ronaldo Araujo, que também joga de lateral-direito, não necessariamente resolvem os problemas da zaga, que ainda tem dois jogadores lesionados.
Araujo tem um longo histórico de problemas físicos, mesmo quando esteve em fase boa, e há pelo menos duas temporadas não entrega mais tecnicamente, período no qual falhou em momentos decisivos do Barcelona. Ele até chegou a ficar afastado por problemas de saúde mental.
Jacquet ainda é jovem, precisa se adaptar à Premier League e não chega 100% fisicamente, pois acabou de se recuperar de uma lesão que o tirou de combate por mais de 150 dias. Ou seja, a presença do capitão Virgil Van Dijk será decisiva no centro da defesa. Até hoje não houve uma grande queda de desempenho do holandês, mas, aos 35 anos, isso fatalmente vai acontecer.
Joe Gomez, outra opção para a defesa, lesionou-se durante a pré-temporada. Giovanni Leoni voltará a ser relacionado só no próximo mês, jovem de apenas 19 anos e só um jogo pelos Reds. Ele teve uma lesão no joelho e completará quase um ano sem atuar, o que pode acarretar novos problemas físicos.
A lateral direita, só com Jeremie Frimpong e tendo Conor Bradley ainda fora por uma ruptura no ligamento do joelho, é outra posição com questões, que pode ser resolvida com Araujo em alguns momentos.
No meio-campo, há muitas dúvidas sobre o desempenho de Ryan Gravenberch e Alexis Mac Allister depois da última temporada, que pode ter sido só algo atípico. O setor ainda tem pouca profundidade, agravada com a saída de Curtis Jones para a Internazionale.
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O ataque ainda não tem um substituto de Mohamed Salah às vésperas da estreia no Campeonato Inglês. A chegada de Bradley Barcola para isso só deve ser confirmada nos últimos dias da janela, aberta até 1º de setembro.
Além dele, outro ponta pode chegar, sendo os alvos recentes Ibrahim Mbaye e Yankuba Minteh. Ponta dos dois lados, Víctor Muñoz, terceiro reforço da equipe até aqui, foi um bom movimento, mas ainda não tem o peso para ser o titular definitivo.
No centro do ataque, Alexander Isak será o centroavante absoluto, pelo menos até o retorno de Hugo Ekitiké, vítima de uma ruptura no tendão de Aquiles e com previsão de recuperação só para o início do próximo ano. Mais um atacante central seria bem-vindo aos Reds.
O resumo da situação em Anfield é de dúvidas: um técnico novo, elenco com setores com poucas opções, jogadores lesionados, falta de confiança pela última temporada e um calendário lotado com as disputas da Premier League, Champions League e as duas copas locais.
Pesa favoravelmente um grupo de jogadores acostumados a ser campeão, visto o título inglês de um ano atrás, a margem para evolução de Isak e Wirtz após um ano de adaptação e a qualidade técnica de Dominik Szoboszlai, melhor jogador da temporada passada, Alisson, Van Dijk e outros.
Reds não são os únicos candidatos a decepção no Big Six da Premier League
As dúvidas nos Reds apontam para uma possível decepção na disputa da Premier League, como o quinto lugar no último ano depois do título em 2025. Mas não são o único gigante com dúvidas.
O Manchester City pós-Pep Guardiola e com as saídas de várias lideranças é uma verdadeira incógnita. Enzo Maresca se mostrou um bom técnico, mas substituir o maior de todos os tempos, sem Rodri, é um peso enorme. O time mostrou limitação no 3 a 0 sofrido para o Arsenal na Community Shield.
🔵⚪️ Qual o tamanho do desafio de Maresca?
— Trivela (@trivela) August 20, 2026
Por que o mercado do Manchester City preocupa em meio a muitas vendas e um vazio estruturalhttps://t.co/IwuTiHjH3o
O Tottenham, quase rebaixado no último ano, faz mercado interessante e tem Roberto De Zerbi com uma pré-temporada completa para implementar seu estilo de jogo ofensivo e intenso. A questão é que o italiano, considerado até revolucionário por alguns, tem histórico de problemas com o elenco com o passar do tempo. Os Spurs ainda têm claras deficiências em seu grupo de jogadores.
Existem bons motivos para acreditar que qualquer um desses três possa fazer uma campanha abaixo das expectativas e do investimento.
Com o Liverpool, os argumentos são diversos e testarão Andoni Iraola, que se mostrou um grande técnico no Bournemouth e no Rayo Vallecano, mas nunca deu um salto para um gigante como agora, o que naturalmente levanta dúvidas de como vai lidar com um desafio inédito na carreira.
As respostas físicas, técnicas e táticas começarão a serem vistas a partir deste domingo (23), com a estreia no Campeonato Inglês contra o Newcastle, fora de casa.