Futebol inglês

A Premier League está ficando chata? O que explica jogos mornos da temporada

Campeonato continua com nível técnico alto e média de gols saudável, mas tem produzido partidas menos ‘caóticas’

Há um argumento incômodo rodeando a Premier League: os jogos estão menos interessantes. A resposta mais fácil para isso seria olhar os resultados e negar. Afinal, a competição continua reunindo alguns dos melhores jogadores e treinadores do planeta, a média de gols não despencou e já houve partidas de grande entretenimento.

Brighton 5×0 Coventry, por exemplo, foi um passeio ofensivo. Manchester City também já goleou. O 3 a 2 entre Ipswich e Crystal Palace foi decidido nos acréscimos. Bournemouth 2×2 Brentford também entregou um jogo aberto.

Mas a sensação para quem acompanha a liga semanalmente é de que muitos jogos estão mais previsíveis. Não necessariamente no resultado, nem na quantidade de gols: o problema está no que acontece entre uma área e outra.

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Premier League tem muitos gols, mas diminuiu o ‘caos' tradicional

Há menos partidas em que os dois times parecem dispostos a “trocar golpes”. Há mais partidas em que um time tem a bola, o outro espera. Agora, o favorito sobe suas linhas, mas, quando perde a bola, não tem se lançado desesperadamente para recuperá-la. Recua, reorganiza o bloco e espera a próxima oportunidade.

O futebol continua sofisticado, e talvez esteja sofisticado demais para ser caótico — que é, no fim das contas, o que muitos consideram atrativo. E a Premier League não está passando por uma crise ofensiva em termos de gols. Na rodada de abertura, a média de gols por jogo foi de três gols por jogo.

Arteta em vitória do Arsenal
Arteta em vitória do Arsenal (Foto: IMAGO / Mark Pain)

Não faz sentido dizer que os ataques estão produzindo pouco. O Brighton de Fabian Hurzeler começou a temporada com quatro gols em apenas 31 minutos contra o Aston Villa e depois fez cinco no Coventry. O Chelsea já participou de partidas cinco e sete gols, por exemplo.

A questão é: um jogo pode ter quatro gols e ainda ser controlado, e outro pode terminar 1 a 0 depois de 90 minutos frenéticos. Entretenimento não é simplesmente quantidade de gols. Existe uma dimensão de risco, transição, alternância territorial e principalmente imprevisibilidade.

Para os times que lutam contra o rebaixamento, o raciocínio é simples. Se não consegue competir tecnicamente, por que permitir que o adversário tenha espaço ser superior? A resposta é se fechar. Bloco baixo, linhas compactas, pouca distância entre defesa e meio-campo, proteção da entrada da área e, quando recuperar a bola, procurar rapidamente o atacante. É uma estratégia racional de redução de risco.

O problema aparece quando os dois lados têm incentivos semelhantes. O pequeno não quer se abrir, o grande não quer se expor. E nasce um jogo em que a bola se move muito mais do que os jogadores. O resultado é uma partida com bastante controle territorial, mas pouca sensação de perigo.

Por outro lado, os grandes também ficaram melhores em controlar o jogo sem pressionar o tempo inteiro. O futebol de alta intensidade do passado recente criou uma espécie de obrigação estética: se um time perdesse a bola, deveria imediatamente tentar recuperá-la. Se não conseguisse, precisava subir novamente. Quanto mais alto o bloco, melhor.

Hoje, os melhores times sabem alternar. Pressionam alto quando a estrutura está preparada para isso. Se a pressão é quebrada, recuam. É uma gestão de risco, e o Arsenal de Mikel Arteta é um bom exemplo. Depois de quatro rodadas, os Gunners têm três jogos sem sofrer gols e apenas um gol concedido no campeonato.

Pressão alta virou escolha, não regra. E por isso as exceções divertem

Xabi Alonso antes de jogo do Chelsea
Xabi Alonso antes de jogo do Chelsea. Foto: IMAGO / Pro Sports Images

Antes, a pressão alta era apresentada quase como um princípio moral. Hoje, ela é uma ferramenta. Os times sabem que pressionar alto tem custo. Se a primeira linha for superada, existe espaço nas costas. Se o adversário tiver bons passadores, uma pressão mal coordenada pode produzir a situação que você queria evitar. Por isso, muitos treinadores passaram a escolher quando pressionar.

Mas há quem escape dessa lógica. O Brighton é provavelmente o exemplo mais evidente: Hurzeler quer pressionar alto e procura atacar verticalmente depois das recuperações. O resultado é uma equipe que pode produzir partidas muito mais abertas. Não porque seja desorganizada, mas é organizada para jogar em alta velocidade.

O mesmo vale para Xabi Alonso no Chelsea. Ele quer um time capaz de pressionar, ocupar o campo ofensivo e manter muitos jogadores próximos da área adversária. Só que o Chelsea ainda está aprendendo a equilibrar agressividade e proteção. Por isso, seus jogos têm apresentado mais oscilações: momentos de controle absoluto seguidos por espaços perigosos quando a estrutura é quebrada.

O Newcastle de Matthias Jaissle é outro caso. Ainda em processo de consolidação, o time alterna momentos de pressão agressiva, ataques verticais e uma disposição maior para correr riscos. O 2 a 2 com o Bournemouth na terceira rodada foi um exemplo disso.

Equipes em transição tática costumam produzir jogos mais abertos porque ainda não dominam perfeitamente os mecanismos que permitem controlar o adversário.

Temporada passada da Premier League já havia dado o aviso

Essa discussão não começou agora. A própria Premier League chamou atenção, antes da temporada, para uma tendência que havia marcado 2025/26: embora a média de gols tivesse caído de 2,40 para 2,36 por partida, o xG produzido em bola rolando havia despencado.

Em 2023/24, foram 2,28 xG de bola rolando por partida. Em 2025/26, apenas 1,82. Ou seja: os gols continuaram aparecendo, mas uma parcela maior do jogo ofensivo passou a depender de outras fontes, especialmente bola parada. 

Um campeonato pode manter uma média saudável de gols e, ao mesmo tempo, perder parte daquele futebol de transições constantes que fazia uma partida parecer estar a um erro de distância de mudar completamente. É possível ter três gols por jogo sem ter 90 minutos de futebol de área a área.

Gabriel Magalhães e Saliba formam dupla de zaga no Arsenal
Gabriel Magalhães e Saliba formam dupla de zaga no Arsenal (Foto: Visionhaus / Imago)

Os grandes treinadores não são defensivos, mas têm priorizado o controle da partida. Arteta quer que o Arsenal escolha onde o jogo acontece. Carrick procura proteger o centro e acelerar quando existe espaço. São propostas legítimas, a questão é estética.

Se muitos dos melhores times adotam princípios semelhantes, e muitos dos menores respondem a eles com blocos baixos igualmente eficientes, o campeonato pode ficar menos imprevisível.

Na temporada atual, os jogos que mais prendem atenção envolveram equipes que ainda estão procurando sua identidade. Chelsea e Crystal Palace já produziram partidas de maior variância. Newcastle teve jogos abertos. O Tottenham de De Zerbi tenta pressionar e atacar verticalmente mesmo sem ter encontrado ainda a execução ideal.

São equipes que ainda têm alguma coisa a provar. Os mecanismos de controle ainda não estão completamente consolidados. Então ainda não dá para dizer que a temporada é ruim, mas existe uma mudança estética.

Há qualidade, grandes jogadores, gols e excelentes treinadores, mas a sensação é de uma competição em que o controle está vencendo o caos. E, quando as duas equipes têm “medo”, o jogo pode se transformar em uma sucessão de movimentos corretos, mas pouco memoráveis. A liga não precisa de mais gols, mas talvez precise de mais risco.

Principalmente porque, historicamente, o que transformou a Premier League em um espetáculo não foi apenas a quantidade de grandes jogadores ou a intensidade física, mas a sensação de que, a qualquer momento, alguém poderia transformar um jogo controlado em uma tempestade. E isso tem acontecido com menos frequência hoje.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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