Futebol inglês

Pontos altos e preocupações: O que turnê do Liverpool nos EUA revelou sobre o time de Iraola

Primeira pré-temporada do novo treinador deixou boas impressões sobre a identidade de jogo, mas também reforça necessidade clara

Toda troca de treinador exige um período de adaptação, ainda mais quando a mudança envolve uma alteração significativa de ideias. O Liverpool passou os últimos anos sob conceitos bastante definidos com Jürgen Klopp, se tornou mais pausado com Arne Slot e agora inicia uma nova fase com Andoni Iraola — um técnico que construiu sua reputação na Premier League a partir de um futebol intenso, vertical e extremamente agressivo sem a bola.

Os três amistosos disputados durante a excursão de pré-temporada pelos Estados Unidos ofereceram apenas uma pequena amostra do que poderá ser esse novo Liverpool. Houve vitórias sobre Sunderland e Wrexham antes da derrota por 4 a 2 para o Leeds, mas os resultados foram quase secundários.

Como destacou o jornal inglês “The Guardian”, o principal objetivo da viagem era permitir que Iraola começasse a implantar seus princípios e entendesse quais peças já estão prontas para executá-los. A impressão deixada pela turnê, no entanto, é dupla.

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O Liverpool de Iraola começa a ganhar forma

Existe potencial para que o Liverpool se torne uma equipe muito intensa e difícil de enfrentar. Ao mesmo tempo, ficou evidente que o elenco ainda está incompleto para jogar exatamente da maneira que seu novo treinador deseja.

Quem acompanhou o trabalho de Iraola no Bournemouth sabe que dificilmente verá um Liverpool baseado apenas em posse de bola paciente. O treinador espanhol gosta de equipes que pressionam alto, recuperam rapidamente a bola e atacam o espaço antes que o adversário consiga reorganizar sua defesa. É um futebol construído sobre intensidade física, agressividade nos duelos e transições constantes.

Foi justamente isso que apareceu durante os melhores momentos da excursão. O primeiro tempo diante do Leeds talvez tenha sido o melhor retrato do que Iraola imagina. O Liverpool pressionou alto, roubou bolas próximas à área rival, acelerou ataques rapidamente e criou diversas situações explorando a mobilidade do meio-campo e dos pontas.

Andoni Iraola, técnico do Liverpool, durante coletiva
Andoni Iraola, técnico do Liverpool, durante coletiva (Foto: David Rawcliffe Propaganda Photo / IMAGO)

Naturalmente, ainda houve imperfeições. A equipe perdeu intensidade depois das substituições, voltou a apresentar problemas defensivos em bolas paradas, uma dificuldade que já existia na temporada passada, e sofreu novamente com quedas de concentração em momentos importantes da partida.

Além disso, grande parte do elenco principal simplesmente não participou da preparação. Virgil van Dijk, Alisson, Cody Gakpo, Alexis Mac Allister e Víctor Muñoz ainda estavam ausentes por conta das férias ou da recuperação após a Copa do Mundo. Outros jogadores permaneceram no departamento médico, incluindo Joe Gomez, que voltou a sofrer problemas físicos durante a própria excursão.

Na prática, Iraola trabalhou com uma equipe bastante distante daquela que pretende utilizar quando a Premier League começar. Isso ajuda a explicar por que vários mecanismos coletivos ainda parecem incompletos.

O treinador sequer teve oportunidade de colocar todos os titulares juntos em um treinamento. Sob esse aspecto, os dois amistosos restantes, ambos contra o Como em Anfield, terão peso muito maior do que os jogos disputados nos Estados Unidos.

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O mercado ainda parece insuficiente para o que Iraola quer construir

Se existe uma conclusão praticamente inevitável após a excursão, ela diz respeito ao elenco: o Liverpool ainda precisa contratar. A saída de Mohamed Salah deixou um vazio enorme no lado direito do ataque. Não apenas pelos números produzidos durante anos, mas também pelas características que oferecia.

Mesmo que o clube consiga fechar a contratação de Bradley Barcola, o francês atua prioritariamente pelo lado esquerdo e gosta de partir para dentro em conduções. Não seria um substituto natural para a função desempenhada por Salah.

As preocupações não terminam aí: a lesão de Conor Bradley também aumenta a necessidade de reforços para a lateral direita. Na defesa, a situação também inspira atenção. Virgil van Dijk continua sendo uma referência mundial, mas Joe Gomez voltou a sofrer problemas físicos e dificilmente pode ser considerado uma opção confiável ao longo de toda a temporada.

Os jovens Jérémy Jacquet, Giovanni Leoni, Ifeanyi Ndukwe e Mor Talla Ndiaye são vistos com enorme potencial, mas ainda representam apostas de médio prazo. Para uma equipe que disputará Premier League, Champions League e copas nacionais, talvez ainda falte um zagueiro experiente para completar a rotação.

Mohamed Salah em jogo do Liverpool em Anfield
Mohamed Salah em jogo do Liverpool em Anfield. Foto: IMAGO / Sportimage

Mas se o mercado ainda levanta dúvidas, a pré-temporada também trouxe boas notícias, e nenhuma maior do que Trey Nyoni. O meio-campista de apenas 19 anos já havia aparecido ocasionalmente sob o comando de Arne Slot, mas parecia distante de conquistar espaço consistente no elenco principal.

Depois da turnê pelos Estados Unidos, esse cenário mudou completamente. Segundo análise do “The Guardian”, nenhum jogador aproveitou tanto as oportunidades quanto Nyoni. O meia assimilou rapidamente aquilo que Iraola mais cobra de seus jogadores: pensar para frente.

Sempre que recebia a bola, sua primeira intenção era acelerar a jogada, encontrar um passe vertical ou atacar o espaço vazio criado pela pressão. Foi exatamente isso que aconteceu na bela assistência para Florian Wirtz contra o Leeds. Em um sistema que exige intensidade física e rapidez na tomada de decisão, Nyoni parece ter encontrado um contexto perfeito para crescer.

Szoboszlai assume naturalmente um novo protagonismo no Liverpool

Sem Salah, Robertson, Van Dijk e Alisson durante a excursão, coube a Dominik Szoboszlai assumir um papel diferente. Dentro de campo, o húngaro continuou mostrando aquilo que o transformou em um dos melhores jogadores do Liverpool na última temporada.

Mas foi fora dela que talvez tenha deixado sua maior impressão. Ainda conforme o “The Guardian”, Szoboszlai liderou treinamentos, serviu como referência para diversos jovens e exerceu uma postura de liderança bastante elogiada internamente.

Sua renovação contratual até 2031 praticamente consolida esse novo status. Com as saídas de Salah e Robertson, tudo indica que o camisa 8 deverá integrar definitivamente o grupo de capitães da equipe.

Dentro da ideia de Iraola, isso faz ainda mais sentido: treinador costuma exigir que seus líderes sejam os primeiros a pressionar, correr e estabelecer o ritmo coletivo. Poucos jogadores do elenco representam melhor essas características do que Szoboszlai.

Mas nem todos aproveitaram a excursão da mesma forma e Curtis Jones talvez tenha sido o principal derrotado da viagem. Em campo, encontrou dificuldades para interpretar o novo papel exigido dos meio-campistas por Iraola, principalmente quando precisava acelerar ataques logo após recuperar a posse.

Fora dele, acabou envolvido na repercussão sobre a braçadeira de capitão. Jones demonstrou incômodo ao não ser escolhido como capitão em dois amistosos, vendo Kostas Tsimikas e Szoboszlai receberem a faixa antes dele. Com apenas um ano restante de contrato e interesse da Inter de Milão, o futuro do meia permanece indefinido.

Por outro lado, os problemas apareceram justamente durante a pré-temporada, significa que ainda existe tempo para corrigi-las. A menos de três semanas da estreia contra o Newcastle, a sensação deixada pelos Estados Unidos é que a identidade do novo Liverpool começa a surgir, mas o projeto de Andoni Iraola ainda depende tanto do tempo de treinamento quanto do trabalho da diretoria no mercado.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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