Futebol inglês

Por que Arsenal rejeitou a expansão do Emirates Stadium para 80 mil lugares

Clube estudou por mais de dois anos a possibilidade, mas decidiu priorizar melhorias na experiência dos torcedores e na exploração comercial

O Arsenal decidiu não levar adiante o projeto de grande expansão do Emirates Stadium. Segundo o jornal inglês “The Times”, depois de mais de dois anos avaliando maneiras de aumentar a capacidade de sua casa, o clube concluiu que uma intervenção de grande porte não é o caminho neste momento.

A alternativa será manter o estádio com seus atuais 60.704 lugares e investir em melhorias graduais na experiência dos torcedores e nas áreas de hospitalidade. A decisão é curiosa porque o Emirates está longe de atender toda a demanda do Arsenal. O estádio, inaugurado em 2006, é atualmente o quinto maior da Premier League em capacidade, atrás de Manchester United, Tottenham, Liverpool e Manchester City.

Em outubro de 2025, quando a possibilidade de expansão ainda estava em estudo, o “Guardian” informou que mais de 100 mil pessoas estavam na fila por ingressos para a temporada. O cenário, portanto, parecia oferecer uma oportunidade: mais torcedores no estádio e, consequentemente, maior potencial de receita em dias de jogos. Ainda assim, o Arsenal optou por não perseguir uma ampliação que poderia levar a capacidade para a casa dos 80 mil espectadores.

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O Emirates virou parte da história recente do Arsenal

A escolha também passa pelo significado que o Emirates adquiriu desde que o Arsenal deixou Highbury. O clube jogou por 93 anos no antigo estádio, localizado a menos de um quilômetro de sua atual casa, antes de se mudar em 2006.

Nos 20 anos seguintes, o estádio se tornou cenário de alguns dos capítulos mais importantes da história recente dos Gunners. Foi onde o clube construiu sua relação com Arsène Wenger em sua última fase como treinador e, mais recentemente, acompanhou a reconstrução promovida por Mikel Arteta.

Emirates é o estádio do Arsenal há 20 anos
Emirates é o estádio do Arsenal há 20 anos (Foto: IMAGO / Visionhaus)

Em 2025, por exemplo, o Arsenal derrotou o Real Madrid por 3 a 0 no Emirates nas quartas de final da Champions League, em uma das partidas mais marcantes da trajetória recente do estádio. Um ano depois, o local também foi palco da campanha que levou o clube de volta ao título inglês após 22 anos.

Apesar de todos os grandes momentos, o Emirates não havia recebido uma conquista competitiva do Arsenal com levantamento de troféu dentro de suas dependências até então. A primeira veio justamente com o futebol feminino, quando o time derrotou o Corinthians por 3 a 2 na decisão da primeira Fifa Women's Champions Cup, no início do ano. Já o título da Premier League masculina de 2025/26 foi confirmado enquanto o time estava fora de casa.

Arsenal planeja mais receita sem necessariamente colocar mais torcedores

Na temporada 2024/25, o Arsenal registrou 154 milhões de libras em receitas de dias de jogos, valor recorde para o clube. O número foi impulsionado pela participação na Champions League, a campanha até a semifinal e pelo aumento dos preços dos ingressos.

O problema é que aumentar a capacidade não significa simplesmente adicionar milhares de cadeiras. A possibilidade estudada pelo Arsenal envolveria uma obra de grande escala, com impactos sobre a estrutura do estádio e potencial necessidade de disputar partidas temporariamente em outro local. O Wembley era uma das possibilidades caso uma reconstrução mais ampla avançasse.

Isso criaria uma equação complicada para um clube que acaba de conquistar a Premier League e chegou à final da Champions League: o investimento necessário para aumentar a capacidade teria de ser compensado pelo crescimento futuro das receitas, ao mesmo tempo em que o Arsenal poderia perder parte da receita e da vantagem de jogar em casa durante o período das obras.

Arteta após jogo do Arsenal
Arteta após jogo do Arsenal (Foto: IMAGO / Xinhua)

O clube decidiu, então, extrair mais valor do estádio que já possui. O caminho passa por hospitalidade, tecnologia e experiência. A exploração comercial também ganha espaço. O Arsenal vem ampliando seus produtos premium, incluindo experiências como o “Touchline Club”, que permite acompanhar o aquecimento próximo ao gramado e ocupar lugares atrás do banco de reservas.

A estratégia surge em um estádio cuja receita por torcedor já está entre as mais altas do futebol inglês. A decisão não significa, portanto, que o Emirates ficará congelado no formato atual. Josh Kroenke, dono do clube, já havia dito que queria preservar o caráter do estádio enquanto elevava a experiência de quem o frequenta, aproveitando conhecimentos adquiridos pela Kroenke Sports & Entertainment em seus projetos nos Estados Unidos.

O Arsenal escolheu, então, uma lógica diferente daquela que parecia se desenhar um ano atrás. Em vez de transformar o Emirates em um estádio para 80 mil pessoas e aceitar os custos e transtornos de uma grande obra, o clube pretende fazer o estádio atual render mais, financeiramente e na experiência dos torcedores, sem abrir mão de sua casa justamente quando ela voltou a ser o centro de uma nova era de conquistas.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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