Inglaterra

O que explica a saída inesperada de Roberto De Zerbi do Brighton?

Mais do que a queda vertiginosa do Brighton, técnico italiano saiu por motivo extracampo

No último sábado (18), o Brighton surpreendeu ao anunciar a saída de Roberto De Zerbi. Em comum acordo com o técnico, a diretoria dos Seagulls decidiu rescindir o contrato do italiano, que iria até junho de 2026. Mas afinal de contas, o que explica esse movimento? É bem verdade que o Brighton decepcionou na atual temporada. Se em 2022/23, a equipe performou em campo, encantou a Premier League e alcançou uma louvável sexta colocação, o mesmo definitivamente não ocorreu neste ano. Porém, não é só isso que justifica.

Apesar da queda de produção do Brighton dentro das quatro linhas, De Zerbi saiu por um fator extracampo. Existem diferenças implacáveis ​​entre o treinador e o presidente, Tony Bloom, sobre como o clube deve se comportar no mercado de transferências. O mandatário se recusa a abrir mão dos princípios que fizeram a equipe crescer nos últimos anos, enquanto De Zerbi adota a mesma postura quanto aos seus ideais. O italiano é igualmente obcecado pelo que acredita ser necessário para manter o progresso de um time de futebol. Esse choque de crenças — e uma pitada de ego — decretou a separação entre as partes.

Com a saída de De Zerbi, o Brighton perde um dos técnicos mais promissores da atualidade, que os guiou para a Europa pela primeira vez. Em contrapartida, o clube mantém o controle da estrutura que criou um ambiente saudável e propício para o italiano levá-los até lá. Uma faca de dois gumes, não é mesmo? Dito isso, vamos aprofundas as diferenças entre o treinador e a presidência.

Modo Brighton x modo De Zerbi

Nas últimas temporadas, o Brighton se notabilizou no mercado de transferências por contratar jogadores de duas categorias distintas. A primeira é: jovens de todo o mundo (até os 23 anos) identificados por uma espécie de banco de dados global e uma rede de olheiros do clube, a um custo relativamente baixo. O objetivo central deste tipo de movimento consiste em desenvolver as joias promissoras, até o ponto em que seu valor de revenda se multiplique. Kaoru Mitoma (Japão), Simon Adingra (Costa do Marfim), Julio Enciso (Paraguai) e Evan Ferguson (Irlanda) são exemplos disso.

A outra categoria abarca jogadores na faixa dos 30 anos, que acumulem passagens por clubes de ponta e tenham títulos expressivos no currículo, como Danny Welbeck, James Milner e Adam Lallana. Na visão do Brignton, este tipo de contratação ainda consegue dar contribuição significativa em campo, além de trazer experiência e seriedade a um vestiário recheado de jovens.

De Zerbi quer um meio-termo do citado acima. O técnico italiano não é adepto de nenhum dos dois extremos, e deseja jogadores na faixa dos 25 anos, com recordes estabelecidos e carreira em ascensão, que custam mais em taxas de transferência e salários. Ou seja, bem diferente do modelo do Brighton.

Exemplos dessa diferença gritante

Dois movimentos no mercado de transferência ilustram a enorme diferença de pensamento entre De Zerbi e Bloom. No verão passado, o técnico italiano pressionou pela contratação de Mahmoud Dahoud, meio-campista de 27 anos, do Borussia Dortmund, que chegaria em acordo gratuito, mas com salários elevados. O presidente relutou, mas aprovou a chegada do jogador. Afinal, De Zerbi merecia créditos por levar o clube ao sexto lugar da Premier League e, consequentemente, a classificação para a Liga Europa. Além disso, os Seagulls haviam acabado de perder Moises Caicedo, vendido ao Chelsea, e Mac Allister, negociado junto ao Liverpool.

A contratação de Dahoud não deu certo. Pelo contrário. Ele foi titular apenas em nove jogos na primeira metade da temporada, antes de retornar à Bundesliga em janeiro, emprestado ao Stuttgart. O Brighton esperava que a mudança de ares do jogador sírio se tornasse permanente. Mas isso não acontecerá. Dahoud fez apenas uma partida pelo time alemão e será devolvido.

Valentín Barco é outro exemplo dessa disparidade no modo de agir no mercado. A polivalência do destaque do Boca Juniors, que pode atuar tanto na lateral-esquerda, quanto no meio-campo ou nas beiradas do ataque, chamou atenção de Bloom e da alta cúpula do Brighton. Os Seagulls desembolsaram menos de 8 milhões de libras e compraram a joia argentina.

De Zerbi, por sua vez, achava que Barco não estava pronto para a Premier League e teria de ser emprestado. Porém, em virtude da contínua crise de lesões que assolou o clube ao longo da temporada, o italiano se viu ‘obrigado’ a utilizar o jovem. E queimou a língua. Logo nos primeiros jogos, o argentino deu amostras de que tem um futuro brilhante e pode ser muito útil ao Brighton já a curto prazo.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme Calvano

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.
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