Inglaterra

Nottingham Forest: Por que tantos brasileiros têm reforçado o time inglês?

A Trivela teve acesso aos bastidores de como o clube inglês trabalha no mercado envolvendo o Brasil

Até 2022, o Nottingham Forest teve apenas um brasileiro em toda a sua história de 160 anos — o atacante Léo Bonatini, que havia chegado somente 2019. Desde então, outros 11 passaram pelo clube até os reforços mais recentes: Igor Jesus e Jair Cunha, ambos vindos do Botafogo.

Mas por que foram tantas novas contratações em um período tão curto? 

Trivela conversou com fontes próximas ao clube inglês para entender como é feito o trabalho de recrutar e contratar jogadores brasileiros, seguindo três perguntas básicas:

  • Como identificam jogadores de interesse? 
  • O que o atleta brasileiro tem de interessante? 
  • Por que é vantajoso contratar direto do Brasileirão?

Como o Nottingham Forest chega a tantos brasileiros

Nos últimos anos, alguns jogadores como Danilo, Murillo e Gustavo Scarpa foram exemplos de atletas que trocaram o Brasileirão pela Premier League de forma direta. Sem nenhuma passagem pela Europa antes, foram os primeiros dessa nova leva do clube.

Carlos Miguel, ex-goleiro do Corinthians, fez esse movimento na temporada passada. Agora, foi a vez de Igor Jesus, que trocou o Fogão pela Premier League depois do Mundial de Clubes.

Igor Jesus disse entender revolta de Renato Paiva no banco de reservas (Foto: Imago)
Igor Jesus no Botafogo (Foto: Imago)

Nottingham Forest conta com um profissional que representa o clube no Brasil. Esse é o profissional responsável pelos trabalhos de observação e recrutamento, principalmente. Em alguns casos, se envolve em parte das negociações com jogadores do país. Sua rotina se baseia em ir aos estádios brasileiros para acompanhar jovens in loco.

O Forest não é o único, evidentemente, mas há uma diferença na abordagem.

Outras equipes que contam com profissionais no Brasil, como as do Big-Six, têm um trabalho mais a longo prazo. Eles observam, fazem relatórios e avisam a direção sobre os craques em potencial para serem contratados daqui a alguns anos.

No entanto, na maioria dos casos, a ideia desses clubes é priorizar a segunda ou terceira transferência de um jogador. Em contato com um ex-scout de um gigante inglês, a Trivela descobriu que diversos nomes são observados desde a base e, depois de anos, quando o jovem está lapidado em uma liga ou clube menor, esse olheiro aciona o clube para falar de sua evolução.

O Forest se mostra diferente da concorrência: o clube tem preferido abordar o jogador já no Brasileirão para uma transferência direta. Isso tem acontecido com mais frequência com outros clubes recentemente, a exemplo dos jovens que têm ido ao Chelsea, mas é um movimento lento.

A Trivela apurou que, para 2025, o Forest planejava contratar dois outros profissionais para formar uma equipe no Brasil. Não somente para priorizar o nosso país, mas para ajudar na cobertura de toda a América Latina. 

- - Continua após o recado - -

Assine a newsletter da Trivela e junte-se à nossa comunidade. Receba conteúdo exclusivo toda semana e concorra a prêmios incríveis!

Já somos mais de 4.800 apaixonados por futebol!

Ao se inscrever, você concorda com a nossa Termos de Uso.

O Forest observa apenas no Brasil?

O profissional alocado no país não cobre apenas o Brasileirão. Sua observação também é estendida a praticamente toda a América Latina, mas explicou que existem prioridades claras.

“O mercado mais importante é o brasileiro, sem dúvidas. Depois Argentina, Uruguai, Colômbia… Mas primeiro o Brasil”, disse a fonte à Trivela.

Murillo comemora pelo Nottingham Forest
Murillo comemora pelo Nottingham Forest (Foto: Imago)

A prioridade sobre o futebol brasileiro se dá porque ainda existe a percepção de que é o Brasil quem produz talentos melhores, em média, se comparado com seus vizinhos de continente. O clássico argumento da habilidade brasileira e a capacidade de improviso seguem sendo bem vistos, conforme ouviu a reportagem.

— Eles (jogadores brasileiros) ainda são diferentes no trato com a bola. E se o jogador talentoso não consegue jogar lá fora, é mais problema do treinador do que do jogador.

Como o Forest contrata um jogador do Brasileirão

Geralmente o processo começa nos estádios, in loco. Os jogadores que chamam a atenção são acompanhados e analisados em seu comportamento individual e coletivo. Depois, são feitos diversos relatórios pelo profissional baseado no Brasil, além de conversas formais e informais até uma proposta concreta.

O profissional ouvido pela Trivela revela que, diferente de outros colegas, não gosta de fazer muitas anotações durante os jogos. Ele prefere analisar mais os comportamentos dos jogadores que está observando para ter uma visão mais coletiva. A ideia não é simplesmente acompanhar um atleta individualmente sem perdê-lo de vista — o que pode tirar alguns cenários de contexto.

— Eu gosto de ver como o jogador se comporta em relação ao que ele faz e ao coletivo. Como ele reage se o companheiro perde a bola? Quando outro jogador comete um erro? E se ele mesmo tomar amarelo? Isso é muito importante — revelou.

Murillo e Danilo antes de jogo do Nottingham Forest (Foto: Imago)

Os relatórios são feitos, então, depois da partida, e esse é um procedimento padrão que não se limita ao Forest. O documento conta com informações básicas do jogador alvo: nome, posição, pé dominante, características, destaques e pontos a melhorar com e sem a bola.

Recentemente, a Trivela teve acesso à avaliação feita pelo clube para contratar Igor Jesus — como o Forest avaliou sua projeção, inteligência tática e capacidade física do atacante.

Nestes relatórios constam informações psicológicas, físicas e morfológicas. Existem diferentes abordagens: em caso das promessas, se o jovem tiver certo biotipo que o clube entende que vai se desenvolver no futuro, a análise deixa de lado o quão forte e musculoso aquele jovem é no momento, por exemplo.

Ainda com as jovens promessas, nos olhos destes profissionais, o mais importante é o trato com a bola. Sua técnica, criatividade e capacidade de sair de constrangimentos sem instrução prévia são os maiores pontos de observação.

Depois da observação, o que acontece?

Quando um atleta é identificado como um encaixe positivo para o Nottingham Forest, o profissional do Brasil passa esse nome aos seus colegas do departamento de scouting na Inglaterra. Seus relatórios são compartilhados com companheiros, e eles mesmos também fazem seus próprios relatórios. 

Uma vez que todos entraram em consenso — scouts no Brasil, em Nottingham, treinador e direção — o jogador é de interesse do clubeCom isso, o trabalho volta para o profissional do Brasil: agora, ele é o responsável por fazer o primeiro contato com atleta e empresário. É nesse contato que é revelado o interesse do Nottingham Forest em contratá-lo.

Gustavo Scarpa em ação pelo Nottingham Forest (Foto: Icon Sport)

Com o empresário, são explicados os detalhes, mesmo que em estágio inicial, do projeto esportivo que o clube pode oferecer ao jogador. Esse é um procedimento bastante inicial, mas comum, e os jogadores recebem esse tipo de contato com alguma frequência.

Com o sinal positivo tanto de jogador quanto de empresário, o profissional no Brasil reporta à direção do Forest para dar início à negociação — e ele deixa de fazer parte das conversas.

No caso específico do Nottingham Forest, a Trivela ouviu que é o presidente Tom Cartledge quem faz as negociações do clube na maior parte das vezes. Membros da diretoria e o proprietário, Evangelos Marinakis, também costumam participar desse processo.

Por outro lado, mesmo após todo esse processo, isso é apenas o começo da negociação — ainda não houve nenhum acordo. A reportagem ouviu que muitos jogadores ficam deslumbrados com o interesse do clube e interpretam mal as conversas, já achando que serão contratados. Isso pode gerar desconforto com o clube do atleta no Brasil e fazer a negociação acabar.

Por que escolher o Forest entre outras opções da Premier League

Geralmente, são os clubes do Big-Six os que mais vislumbram os jovens atletas quando querem ir à Premier League. Por outro lado, o Forest entende sua posição no mercado e acaba tendo uma vantagem.

A Trivela ouviu que ideia do clube é, principalmente, oferecer uma porta de entrada ao futebol para as jovens estrelas. Em vez do jogador primeiro se transferir para o Campeonato Italiano ou Espanhol e só depois fazer o caminho até a Inglaterra, o Forest se apresenta como uma forma de já ingressar de vez na Premier League — mais próximo dos gigantes que os jovens tanto almejam.

Segundo revelado à reportagem, o plano mostrado aos jogadores é que começar a carreira na Europa na liga inglesa pode ser mais proveitoso para o desenvolvimento do atleta. Dessa forma, ele já se acostuma com o ritmo do jogo, o país e a língua. Mas o Forest, claro, também é beneficiado.

Andrey Santos teve passagem frustrante pelo Nottingham Forest e pode ser emprestado novamente (Foto: Icon sport)

O foco do clube ao contratar jovens astros também está no lucro com possíveis revendas. A direção e a equipe de scouting pensam na questão financeira a médio e longo prazo enquanto, por ora, não pode oferecer ao jogador a briga por títulos.

Isso pode mudar no futuro próximo, no entanto. Na última temporada, o Forest brigou ativamente por uma vaga na Champions League e esteve entre os três primeiros por grande parte do campeonato. Na próxima campanha, vai disputar a Conference League.

A burocracia necessária para um clube inglês contratar um brasileiro

As últimas temporadas têm sido de recorde de brasileiros na Premier League, e isso se deve por questões burocráticas e sociais que vão além do futebol. A entrada dos nossos jogadores na Inglaterra foi facilitada por conta do Brexit.

Esse foi o nome dado ao movimento de saída do Reino Unido da União Europeia (British exit, em inglês). O processo foi iniciado em 2016 e formalizado em 2020. Antes do Brexit, as regras para clubes da União Europeia limitavam a entrada de estrangeiros.

— Antes, era necessário um passaporte europeu ou visto de trabalho. E se limitava basicamente a jogadores de seleção. O sistema de pontos demorava anos para liberar os jogadores do Brasileirão — explica o profissional.

O que é e como funciona o sistema de pontos para estrangeiros

O visto de trabalho é dado para os jogadores que atingem uma pontuação específica imposta pela Federação Inglesa. Os pontos são definidos por diferentes critérios e analisados dentro dos 12 meses anteriores à chegada do jogador ao país. Ou seja, o atleta que vai chegar na janela de verão, deve ter tido, entre julho de 2024 e julho de 2025, uma pontuação necessária para poder trabalhar na Inglaterra.

Os critérios:

  • Número de jogos pela seleção de seu país;
  • Número de minutos jogados em competições nacionais;
  • Número de minutos jogados em competições internacionais;
  • Posição do time do jogador em sua liga nacional;
  • Até onde o time do jogador avançou em competições internacionais;
  • Em qual nível está a liga do time do jogador.
Evangelos Marinakis, dono do Nottingham Forest
Evangelos Marinakis, dono do Nottingham Forest (Foto: Imago)

O último critério é definido em seis níveis. O primeiro é composto pelas cinco principais ligas europeias: os campeonatos da Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha e França. O segundo tem ligas de portuguesa, holandesa, belga e turca, enquanto o Brasil aparece somente no terceiro nível, e acaba pontuando menos.

Existem os casos de jogadores que, inicialmente, não conseguem atingir essa pontuação. Mas há outra saída: os “wildcards“. São quatro espaços no elenco que podem ser preenchidos por jogadores que não têm pontos necessários para serem contratados naquele momento.

Trivela ouviu que Murillo, quando deixou o Corinthians, não tinha a pontuação necessária para ter seu visto de trabalho — nunca havia jogado na seleção e tinha apenas meses de profissional no Timão. O Nottingham Forest então usou um wildcard com o zagueiro brasileiro e ele pôde ser inscrito.

Agora, o zagueiro já atingiu os pontos e está registrado normalmente como um trabalhador do Reino Unido. Isso vai liberar um espaço de wildcard para o clube contratar outro jogador nestas condições.

O que o futuro do Forest no mercado simboliza ao Brasil

O Forest tem sido ligado a diversos brasileiros nos últimos meses justamente por conta dessa movimentação. Enquanto muitos não passam de rumores, houve a garantia, no entanto, de que muitos brasileiros — incluindo nomes ligados ao clube — têm sido observados.

Igor Jesus e Jair são os reforços mais recentes, e Cuiabano também foi colocado como próximo ao clube. Vale reforçar, também, que os wildcards se aplicam a qualquer nacionalidade. Então dificilmente o clube vai vários jogadores de ligas inferiores se não tiver as vagas para inscrevê-los.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo