Inglaterra

Por que Ange no Forest é o maior contraste de ideias da Premier League e pode impactar brasileiros

Nottingham Forest tem seis brasileiros - há quem seja beneficiado e quem pode perder espaço com novo treinador

A troca de Nuno Espírito Santo por Ange Postecoglou é uma das decisões mais ousadas dos últimos anos na Premier League. Poucos times passam por uma mudança de identidade tática tão radical em tão pouco tempo como o Nottingham Forest deve passar.

Nuno construiu um time sólido, compacto e pragmático, que conquistou vitórias valiosas e garantiu uma vaga em competições europeias jogando de forma reativa e disciplinada. Postecoglou, por outro lado, é conhecido por sua abordagem ofensiva e sem concessões, baseada em pressão alta, intensidade sem a bola e posse agressiva.

Os dois treinadores têm números muito contrastantes na última temporada que indicam quão grande será o desafio para o elenco — e isso pode impactar diretamente os brasileiros do time, como Murillo e Igor Jesus.

O desafio físico e tático para o Nottingham Forest

“Não vamos tentar conquistar vitórias de 1 a 0”, disse o australiano em sua apresentação. A frase contrasta com a filosofia de Nuno, que orgulhava-se de priorizar o jogo sem sofrer gols acima de tudo.

A troca representa um novo capítulo na ambição do dono Evangelos Marinakis, que não quer esperar por uma evolução gradual: o objetivo é acelerar a transição para um futebol mais dominante e de maior espetáculo.

Ange Postecoglou é o novo técnico do Forest
Ange Postecoglou é o novo técnico do Forest (Foto: Divulgação/Nottingham Forest)

Postecoglou exigirá muito mais fisicamente do elenco. Seus times pressionam alto, buscando recuperar a bola no campo de ataque e sufocar o adversário. Na temporada passada, o Tottenham esteve entre os times que mais correram sem a bola na Premier League, enquanto o Forest foi o oposto — um dos que mais permitiram passes antes de iniciar a pressão.

Jogadores do Forest como Ryan Yates já relataram que os primeiros treinos foram “duros e intensos”, sinal de que a carga de trabalho será bem maior. O desafio é que nem todos no elenco são ideais para esse estilo.

Chris Wood, artilheiro da última temporada, é letal na finalização, mas não tem o mesmo fôlego para ser um centroavante pressionante. Isso pode forçar Postecoglou a adaptar o sistema ou apostar em opções mais móveis, como o recém-chegado Arnaud Kalimuendo.

Defensivamente, a mudança também é significativa.

O australiano prefere uma linha alta, que exige zagueiros rápidos e confortáveis em situações de um contra um. O brasileiro Murillo tem velocidade para esse modelo, mas seu parceiro Nikola Milenkovic pode sofrer mais, como ficou evidente na goleada da Sérvia para a Inglaterra.

E se o sistema defensivo será um desafio, o ataque promete empolgar. Postecoglou gosta que suas equipes driblem, acelerem e criem em volume. Na última temporada, o Tottenham liderou a liga em dribles tentados, e o Forest parece bem equipado para repetir o padrão.

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Os números que provam a diferença gritante

Segundo dados da plataforma “FootVision”, o Tottenham de Ange foi o time que mais correu durante a última temporada no futebol inglês: passou 15,4% do tempo de jogo correndo sem a bola. O Nottingham Forest, por sua vez, foi o último nesta estatística: apenas 9,7%.

Além disso, os Spurs foram o segundo time com a pressão mais intensa da Premier League, levemente superados pelo Bournemouth: permitiam apenas 10 passes por ação defensiva — ou seja, a cada 10 passes, havia uma tentativa de roubar a bola. O Forest, sem surpresas, foi o último da liga, com 15,2. Isso ilustra como Nuno não via problema em defender baixo de forma paciente.

A linha alta dos defensores do Tottenham também foi a segunda em termos de metros longe do próprio gol (33 metros), segundo a plataforma. Apenas o Manchester City colocava seus zagueiros mais alto do que os Spurs. A zaga do Forest, por sua vez, está acostumada a jogar mais de 10 metros mais atrás do que isso (22,6m, a penúltima da liga).

É improvável que logo de cara o grego transforme a equipe em um time que pressiona incansavelmente no campo adversário. Não só pela diferença de estilos, mas porque o próprio treinador também pode ser mais dogmático — como foi na final da Europa League, quando levou um time mais compacto e menos ousado ao título.

Como os brasileiros podem ser impactados com a chegada de Ange

O Forest conta, atualmente, com seis brasileiros: Igor Jesus, Douglas Luiz, Murillo, Jair, Morato e John. Com exceção do zagueiro ex-Corinthians, todos têm concorrência forte e não são garantidos no time titular. Mas alguns podem crescer mais do que outros com Postecoglou.

Igor Jesus é um centroavante que se encaixa mais no padrão do novo treinador do que Chris Wood. O ex-Botafogo é enérgico para pressionar, móvel para atacar espaços e seria uma opção melhor para contra-ataques — marca forte do Tottenham sob o comando do grego.

Por outro lado, Kalimuendo já vem fazendo tudo isso em um nível melhor e com mais sucesso em seus anos no Lens e no Rennes. Ele poderia ser uma opção mais pronta em relação ao brasileiro, que também nunca foi goleador como o francês.

Murillo é o cara do Nottingham Forest Foto: (Imago)
Murillo pelo Nottingham Forest (Foto: Imago)

Douglas Luiz é o mais experiente entre os compatriotas a nível europeu. Lesões e aproveitamento ruim na Juventus durante a última temporada o frearam, mas o meio-campista foi um dos principais destaques da Premier League antes de deixar o Aston Villa, em 2023/24 — foram 20 participações em gols na temporada.

O ex-jogador do Vasco é versátil para ser um bom defensor e criador, além de chegar bem ao último terço. Há competição: Elliott Anderson e Ibrahim Sangaré, a princípio, são titulares, enquanto Yates e Nicolás Domínguez também são opções. Mas o marfinense, menos capaz ofensivamente do que o brasileiro, pode perder o lugar.

Morato é um zagueiro que tem o que é pedido por Ange: alto, forte, conduz bem e encontra bons passes. Não é tão rápido e dominante defensivamente quanto a dupla que tinha no Tottenham, Cuti Romero e Micky van de Ven, mas as características positivas estão ali.

O único ponto do ex-São Paulo é ser canhoto, assim como Murillo, que é praticamente intocável. Nada impede o treinador de escalar dois canhotos, caso Milenkovic destoe do padrão, mas é menos comum.

A dupla de ex-botafoguenses Jair e John deve sofrer. Matz Sels foi um dos principais goleiros da Premier League na última temporada e não deve perder o lugar, salvo queda absurda de rendimento ou lesão. O jovem zagueiro, por sua vez, ainda conta com ao menos três jogadores à sua frente na hierarquia, sem contar o veterano Willy Boly e outro jovem recém-chegado, mas lesionado, Nicòlo Savona.

Uma aposta ousada para um Forest ambicioso

O pragmatismo de Nuno trouxe resultados e estabilidade, mas também deixou o time excessivamente reativo. Para um clube que sonha com presença regular em torneios europeus, depender de marcar primeiro e se fechar atrás não parece sustentável. A escolha de Postecoglou é um passo ousado para tornar o Forest um time que dita o ritmo das partidas, em vez de apenas reagir.

Se dará certo, ainda é cedo para dizer. Mas o novo treinador está confiante: “Eu amo que meus times ataquem. Amo que meus times marquem gols. Isso não é sobre jogar bonito, é sobre vencer — e é isso que quero fazer aqui”, afirmou na apresentação.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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