Não era para importar, mas Liverpool lamentou: há 10 anos, São Paulo era tri-mundial
Ser campeão do mundo é sempre algo muito desejado pelos sul-americanos. Historicamente. É um jeito de se sagrar com a glória máxima, é o ápice de um ano que já teve a conquista da Copa Libertadores, a maior competição para um clube local. Mas ser campeão do mundo em geral significa bater o campeão da Europa, que mesmo no formato atual, sempre é o finalista.
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Há 10 anos, o São Paulo conquistava essa glória. Com muito suor, sofrendo como nunca, com a maior atuação da vida de Rogério Ceni e uma arbitragem que anulou três gols. Corretamente, mas todos lances difíceis, que se não fossem anulados, passariam batido. Aquele São Paulo 1×0 Liverpool completa 10 anos desde 18 de dezembro de 2015.
“Liverpool FC: The Sunday morning the Reds were ‘cheated’”, diz a manchete do Liverpool Echo, principal veículo de Liverpool. Na matéria, é lembrada a importância que o título de campeão mundial tem no esporte, em todos os esportes. Menos no futebol.
No futebol europeu, especificamente, muitas vezes uma conquista nacional é mais valorizada. Se falamos da Inglaterra, mais ainda. O país, mais do que eurocentrista, é umbiguista: o título nacional é muito mais comentado. Os ingleses veem o Mundial de Clubes como um bônus, mais ou menos como se vê a Community Shield, a Supercopa da Inglaterra.
Tudo isso pode ser verdade, mas não quer dizer que tanto faz ganhar ou perder. Ainda mais para um time como o Liverpool, que se apoia nas suas glórias, suas conquistas, sua tradição em levantar taças mesmo nos momentos que não tem o melhor time. Este, aliás, era o caso em 2005. Sob o comando de Rafa Benítez, o Liverpool foi o protagonista do Milagre de Istambul, conquistando o título da Champions League em uma virada improvável, empatando o jogo com o Milan depois de sair perdendo por 3 a 0 no primeiro tempo. Uma virada história, atribuída ao peso da camisa.
Muito por causa dessa conquista, o Liverpool vinha voando no Campeonato Inglês. No momento que foi ao Mundial, era terceiro colocado na tabela com 31 pontos, atrás do Chelsea, com 43 pontos, e Manchester United, com 34. Vinha muito bem, ainda sonhando com o título e consolidado, como era comum na época, nos quatro primeiros colocados.
Em parte, foi isso que fez o Liverpool ser tão favorito naquele dia. Vinha de uma boa temporada na Inglaterra, tinha passado com facilidade pelo Deportivo Saprissa na semifinal, enquanto o São Paulo tinha sofrido contra o Al Ittihad, e era, afinal, o campeão europeu. Talvez tenha sido esse histórico que pesou tanto nos ombros dos jogadores derrotados naquele domingo pela manhã.
“Se tornou o jogo de ataque contra defesa. Em uma realidade alternativa, os vermelhos batalhavam com os brancos em um estádio distante com uma câmera de TV granulada, isso poderia ser Istambul. Os vermelhos do Liverpool, precisando de um gol, vendo as camisas brancas repelirem todas as jogadas. Isso é o que o pesadelo poderia ter sido seis meses antes”, diz o Liverpool Echo.
Na final da Champions League, o Liverpool jogou todo de vermelho, seu uniforme tradicional, contra as camisas brancas. Só que na Champions League eram do Liverpool. Eram de um time melhor, que tinha feito um grande resultado no primeiro tempo. O Liverpool precisava pressionar, e pressionar muito. Conseguiu o empate, arrancou uma vitória épica. Poderia ter sido assim no Mundial também, ainda que a ordem de forças fosse invertida. Mas não foi. Três gols foram anulados – os três bem anulados, mas o Liverpool Echo considera um deles perfeitamente legítimo. E o time não ganhou o título.
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“Liverpool are not, and never have been, world champions”, diz uma frase do texto do Liverpool Echo. Uma frase que continuaria ecoando entre os britânicos. Nenhum tinha a taça até ali. O Liverpool poderia ser o primeiro. Não foi. “Talvez pelo enorme favoritismo do Liverpool. Talvez pela maneira que perdeu para o time brasileiro na final”, diz o Liverpool Echo sobre aquele confronto.
Depois do jogo, Luis Garcia, autor de um dos gols anulados, reclamou da arbitragem. “Nós nos sentimos roubados”, disse. “Nós marcamos três vezes e um deles foi definitivamente gol. O árbitro estava claramente errado em algumas das suas decisões e nós estamos insatisfeitos com isso”, continuou.
O técnico, Rafa Benítez, também reclamou. E reclamou com ninguém menos que Joseph Blatter, presidente da Fifa, presente no evento. “Foi uma conversa privada”, declarou Benítez. “Nós sabemos que um dos gol foi legítimo, claramente. Você não coloca um árbitro mexicano e um auxiliar canadense na final do Mundial”, declarou ainda o treinador.
A frase do Liverpool Echo sobre aquele jogo diz muito. “Este era para ser a final que não iria importar, mas importava agora. O Liverpool não foi campeão do mundo”. Naquele dia, com a atuação de gala de Rogério Ceni, uma raça monumental, um lance muito bem elaborado com Aloísio Chulapa dando o passe para Mineiro marcar o gol, Cicinho e Júnior jogando muito bem pelos lados do campo e até Edcarlos e Fabão jogando bem junto com o principal zagueiro, Lugano, o São Paulo conquistou o título mundial. Um mundial que o Liverpool não esquecerá.
(Foto: Getty Images)



