Por que o Manchester United é quem mais cria, mas tem o pior aproveitamento da Premier League?
Verticalidade de Amorim e "pressa" dos jogadores faz do United um destaque ambíguo na Premier League
O Manchester United pega o Liverpool no maior clássico inglês neste domingo (19), pela 8ª rodada da Premier League. E, acredite ou não, em um mundo ideal, onde tudo corre como o planejado, os Red Devils deveriam estar à frente dos rivais na tabela.
Isso porque o United é o time que mais cria no Campeonato Inglês e, em termos de pontos esperados (xPt), deveriam estar na 4ª posição, não na 11ª. Enquanto o Liverpool, por outro lado, cairia três posições.
Mas, afinal, se no mundo ideal era para as coisas estarem melhores… por que no mundo real não estão? E pode se o clássico deste domingo o ponto de virada para Rúben Amorim?
Manchester United é destaque na Premier League (e supera o Liverpool)
Claro que estar na parte debaixo da tabela não é animador, e parece injusto dizer que o time em 11ª é um destaque na liga — ainda mais se for um dos maiores clubes do país, que idealmente não estaria nessa situação.
Em termos de pontos esperados, segundo a “Opta”, os Red Devils deveriam ter 10,2 pontos, não apenas 7. Enquanto isso, o Liverpool, que já tem 15 pontos na tabela, esperava-se que tivesse conquistado apenas 9,4.

Mas é verdade: o Manchester United é o time mais agressivo ofensivamente do campeonato. Rúben Amorim, que já chegou a criticar fortemente o próprio time, também vê dessa forma:
“Estamos jogando bem até chegar na área. Precisamos ser mais decisivos… Se você ver o número de chutes, o xG (gols esperados), todas essas coisas estão boas“, disse o treinador, em entrevista coletiva, há exatamente um mês.
Os números não mentem e, nesse caso, estão do lado do United. Segundo dados do “FBref”, o time de Old Trafford lidera a Premier League na estatística de gols esperados, com 11,8 — quase três a mais do que o que marcaram até o momento na liga.
Para efeito de comparação, o líder Arsenal, que marcou 15 vezes, tem apenas 9,1 xG. O Manchester City, quem mais fez gols na liga (17), é o segundo na lista de gols esperados, com 11,3.
Mais do que apenas um número nebuloso de gols esperados, o United é quem mais cria perigo na Premier League: são 169 ações que levam a uma finalização na temporada, oito a mais do que o segundo colocado, justamente o Liverpool.
Novamente a efeito de comparação, o artilheiro City tem 40 ações que geram finalização a menos do que o time de Rúben Amorim. Então por que a glória ainda não chegou a Old Trafford?
Since MD12 of 2024-25 (Ruben Amorim's first game in charge of Man Utd), no ever-present Premier League team have performed worse than Manchester United (31 points from 31 games, -13 goal difference). pic.twitter.com/QSpz88PyEG
— Opta Analyst (@OptaAnalyst) September 14, 2025
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Reforços no ataque, mas a pior mira do campeonato
A resposta simples e direta seria: o Manchester United cria muito, mas finaliza extraordinariamente mal. De forma até caricata, o time de Amorim tem míseros 4% de aproveitamento nas finalizações até o momento na temporada inglesa, segundo o “MyGamePlan”.
Esse número é, com alguma folga, o pior de todos os 20 clubes da Premier League. E parece contrastante, uma vez que também era um problema na temporada passada — mas, nessa, investiram mais de 200 milhões de libras em reforços ofensivos.
Um levantamento do “The Athletic” mostrou que, apesar das chegadas de Matheus Cunha, Bryan Mbeumbo e Benjamin Sesko, que ajudam a criar muitas chances, o United escolhe muito mal suas finalizações.
Escolhas ruins no último terço

Isso porque, em um time que tem em média 15,3 chutes por jogo, mais de um terço (34%) destes chutes são de fora da área. E além disso, outros 12% dos seus chutes vêm do lado direito de dentro da área — provavelmente pela influência de Mbeumo, mas, ainda assim, uma região sem grande ângulo e probabilidade de sucesso.
Apenas 16% dos chutes da equipe vêm de perto da marca do pênalti e outros 11% na região central logo atrás dela. Essas são as regiões mais perigosas para finalizações, mas não são tão aproveitadas pelo time.
Ao assistir jogos do United, não é incomum ver diversas oportunidades em que o time está em contra-ataque ou tem espaço entrando na área, mas toma decisões ruins. Seja a de não passar para companheiros melhores, ou simplesmente finalizar de longe, antes de tentar uma situação melhor.
Isso faz com que muitos desses chutes sejam bloqueados ou só menos prováveis de entrar. Na verdade, em média, os Red Devils têm apenas 0,11 xG por finalização. Por isso também faz sentido o alto número de gols esperados do time: não é porque criam ótimas chances, mas criam muitas chances, mas ruins.
Os problemas que isso causa ao United e a Amorim
O United não tem sido um time paciente com a bola, como rivais como City e Arsenal. Há maior busca por verticalidade e, muitas vezes, optam pelo lançamento longo do que pela saída pelo chão. E a pressa para finalizar tem sido um padrão, ainda que não pareça algo pedido necessariamente pelo treinador.
Mas essa pressa para tentar marcar é um cobertor curto. Ao mesmo tempo que buscam a finalização antes da defesa advesária estar completamente postada, quando não marcam (o que tem sido frequente), simplesmente perdem a bola — e, se não for um chute para fora, estarão com espaços abertos e mal posicionados para transições defensivas.
Isso porque, antes de uma finalização apressada, muito provavelmente os alas estão correndo para se tornarem opções de passe e abrirem a defesa, e os meias geralmente buscam atacar a profundidade para receberem infiltrando.
United at Anfield 🇾🇪
Let's do this! 💪
— Manchester United (@ManUtd) October 19, 2025
A bola não chega a nenhum deles e, se uma finalização é bloqueada ou defendida, o United agora está com grandes buracos pelos lados, deixados pelos alas, e entrelinhas, deixados pelos meias.
Outra questão estrutural é a pouca influência que o meio-campo tem no jogo do United. Amorim prefere um jogo direto, menos pausado, e com passes que quebram as linhas e geralmente vão dos zagueiros aos pontas ou alas mais avançados. Isso quer dizer que Casemiro é pouco usado em construção e é mais responsável pela proteção.
Ainda assim, é apenas um volante para proteger muito espaço. Bruno Fernandes seria o segundo volante, mas avança muito mais do que o brasileiro. E com os alas altos, Casemiro tem que se preocupar em muitas coisas (e marcar muitos jogadores) ao mesmo tempo.
Se os números mostram que o Manchester United é o time que mais cria na Premier League, a análise no olho explica que essas chances não são necessariamente tão boas quanto se imagina — e que há problemas na forma como o time tem chegado a elas.



