Futebol inglês

Como derrota para o City escancarou abismo e erros de planejamento no Manchester United

Limitações do elenco ficaram evidentes no dérbi e levantam dúvidas sobre escolhas recentes dos Red Devils

A derrota no dérbi de Manchester deixou um resultado ruim para o United, mas também expôs algo mais profundo: as limitações de um elenco que não recebeu, na janela de transferências, o mesmo tipo de investimento feito pelo rival. O 1 a 0 para o City em Old Trafford, marcado por um gol de Erling Haaland, poderia até ser relativizado pelo contexto da partida. Afinal, o gol dos Citizens não deveria ter sido validado, segundo a análise do Pro Arbitr, a comissão de arbitragem local.

Ainda assim, mesmo retirando esse lance da conta, o desempenho do time de Michael Carrick levantou dúvidas que vão muito além da arbitragem.

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A imagem mais simbólica da diferença entre os dois clubes apareceu nas substituições. Carrick recorreu a Joshua Zirkzee nos minutos finais, enquanto Enzo Maresca colocou Iliman Ndiaye no intervalo. O contraste não está somente no impacto que os dois tiveram no dérbi, mas também no caminho que cada jogador percorreu até seus respectivos clubes.

O United passou a janela tentando encontrar interessados em Zirkzee, enquanto o City desembolsou 65 milhões de libras por Ndiaye depois de mudar de alvo ao não conseguir contratar Cody Gakpo, do Liverpool.

Zirkzee tem qualidade técnica e ainda pode ser útil ao longo da temporada, mas chegou ao dérbi com apenas nove gols em 76 partidas pelo United. Entrou aos 83 minutos, no lugar de Marcus Rashford, e teve como principal participação um cruzamento forte demais. Ndiaye, por outro lado, foi decisivo ao roubar a bola que iniciou a jogada do gol de Haaland.

United x City: diferença abissal de elenco e mercado

Bruno Fernandes se lamenta durante clássico de Manchester
Bruno Fernandes se lamenta durante clássico de Manchester (Foto: Dave Shopland / IMAGO)

A diferença também apareceu no meio-campo. O Manchester City colocou em campo Elliot Anderson e Enzo Fernández, dupla que custou, somada, 280 milhões de euros. O United, por sua vez, contratou seu volante — titular no clássico — por 41 milhões de euros, valor correspondente à cláusula de rescisão de Youri Tielemans. Kobbie Mainoo, formado no clube, não representou custo de transferência e, ironicamente, em alguns momentos levou vantagem sobre Anderson.

O problema é que o próprio United, ainda na gestão de Ruben Amorim, chegou a admitir a possibilidade de negociar o jovem por um valor muito inferior aos milhões que sua atuação no dérbi sugere que poderia valer hoje.

Dito isso, é aqui que a derrota ganha uma dimensão maior. O City conseguiu reforçar o elenco com jogadores escolhidos para necessidades específicas e sustentados por enorme capacidade financeira. Já os Red Devils, pressionados pelas dívidas herdadas da família Glazer e pelo peso de contratações anteriores que não deram retorno, adotou uma postura muito mais limitada.

A questão não é simplesmente quanto dinheiro foi gasto, mas o quanto esse investimento conseguiu atacar as deficiências mais evidentes do time.

A lateral esquerda é um exemplo claro. A ausência de Luke Shaw por lesão fez a posição voltar ao centro da discussão. Patrick Dorgu é lateral-esquerdo de origem, mas desde que chegou ao United vem sendo utilizado com mais frequência em funções mais adiantadas, como meia ou ponta pela esquerda.

No dérbi, precisou retornar à posição de origem e teve sua consciência posicional defensiva exposta no lance do gol. Ao acompanhar a trajetória da bola, acabou deslocado para o lado direito e deixou Lisandro Martínez em uma situação de dois contra um no segundo poste.

O United chegou a considerar Lewis Hall antes de comprar Carlos Baleba, outro meio-campista. Também contratou Andrey Santos por 56,3 milhões de euros, mas o brasileiro participou de apenas 42 minutos nas últimas quatro partidas. São escolhas que ajudam a explicar por que o problema não se resume à falta de investimento, mas envolve também a maneira como os recursos disponíveis foram distribuídos.

Carrick precisa encontrar soluções com um plantel limitado

Michael Carrick durante Manchester United 0 x 1 Manchester City
Michael Carrick durante Manchester United 0 x 1 Manchester City (Foto: Mark Cosgrove / News Images / IMAGO)

O desempenho contra o City tornou essa realidade ainda mais incômoda porque o United teve cerca de 70 minutos para enfrentar um adversário com dez jogadores, após a expulsão de Phil Foden. Mesmo assim, não conseguiu transformar a superioridade numérica em domínio ofensivo. O time voltou a apresentar dificuldades contra uma defesa fechada, com ataques estáticos e passes sem a velocidade e a precisão necessárias para desmontar a estrutura adversária.

Não é um problema completamente novo. Sob o comando de Carrick, o United já havia perdido para o Newcastle quando o rival estava com um jogador a menos, enquanto o Everton também conseguiu vencer o time de Ruben Amorim em situação semelhante na temporada anterior. Maresca chegou a comentar no pós-jogo que o United poderia encontrar dificuldades caso o City conseguisse negar as transições que costuma buscar.

O problema, portanto, ameaça se tornar recorrente. Se o adversário recua, fecha os espaços e impede os Red Devils de correrem, faltam alternativas para transformar posse em chances claras. No dérbi, a única oportunidade realmente perigosa surgiu já no último dos cinco minutos de acréscimo, quando Bruno Fernandes encontrou Bryan Mbeumo. Gianluigi Donnarumma, porém, fez grande defesa e evitou o empate.

Carrick merece crédito por ter conduzido o United à Champions League em um momento em que isso parecia improvável após a saída de Amorim. Mas o clássico mostrou que seu trabalho será condicionado pelo material disponível. Diferentemente de outros concorrentes e do próprio Maresca, ele não recebeu uma transformação profunda do elenco durante o mercado de verão.

E, enquanto o clube não encontrar respostas para as lacunas que ficaram expostas em Old Trafford, o treinador terá de desenvolver soluções dentro de um grupo que ainda apresenta limitações evidentes.

O resultado de 1 a 0, por si só, não define a temporada. Mas o dérbi serviu como um retrato incômodo do estágio atual do United: um time capaz de competir em determinados cenários, porém ainda sem recursos suficientes para mudar o rumo de uma partida quando o plano inicial deixa de funcionar.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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