Guardiola: ‘Será que existe quem veja as imagens do genocídio na Palestina e não se afete?’
Técnico do Manchester City fez longo desabafo sobre problemas do mundo atual e se solidarizou com vítimas dos conflitos políticos
O Manchester City enfrenta o Newcastle pelo jogo de volta da semifinal da Copa da Liga Inglesa. Como de praxe, Pep Guardiola compareceu à coletiva para responder às perguntas dos jornalistas antes da bola rolar. Contudo, o técnico espanhol não quis se limitar ao futebol.
Tudo começou quando Guardiola foi questionado sobre as críticas à arbitragem inglesa por supostos erros frequentes contra os Citizens. Após falar sobre sua equipe e as atuações da temporada, o treinador de 55 anos fez um desabafo sobre os conflitos ao redor do mundo e o sofrimento humano.
O espanhol começou dizendo que “nunca na história existiram informações tão claras” quanto agora. Pep Guardiola se referiu ao genocídio na Palestina, à guerra entre Rússia e Ucrânia, aos conflitos no Sudão e às ações truculentas do ICE (Agência de Imigração e Fronteiras) nos Estados Unidos.
— O que aconteceu diante de nós. Vocês querem ver? É um problema nosso, como seres humanos. No fim das contas, são as imagens que importam, não a interpretação de uma boa ou má jogada, ou se você deveria escalar este ou aquele jogador — começou o técnico espanhol.
Guardiola se posiciona sobre assuntos humanitários
"When thousands of innocent people are completely killed it hurts me!"
— Hayters TV (@HaytersTV) February 3, 2026
"Humanity is better than ever in terms of possibilities. We can do everything. But still, right now, we kill each other. For what?!"
Pep Guardiola delivers hugely passionate speech on the power of images and… pic.twitter.com/EJ3AQmZmmU
Na mesma resposta, Guardiola voltou a tratar sobre o Manchester City e a Premier League. Pouco depois, um repórter perguntou ao treinador dos Citizens porque assuntos humanitários envolvendo Palestina, Sudão e Rússia eram importantes para ele ao ponto de abordar os temas publicamente.
— Agradeço, porque é a primeira vez em 10 anos que um jornalista me pergunta sobre isso. Parece que não me é permitido fazer isso no meu trabalho, não sei. Mas será que existe quem veja as imagens do mundo todo e não se afete? — ponderou o espanhol.
— Não se trata de certo ou errado. Isso me machuca. Para mim, dói. Se fosse o lado oposto, também me machucaria. Desejar o mal para outro país? Isso me machuca. Não se trata de posição. Me desculpem, este é o meu sentimento — continuou.
— A morte de milhares de pessoas inocentes me dói. Tenho muitos amigos de muitos países, mas quando você tem uma ideia e precisa defendê-la, e isso significa matar milhares de pessoas, me desculpem, eu vou me levantar, sempre estarei lá. Sempre.
— Não consigo imaginar como alguém pode não sentir isso, ao ver as imagens todos os dias, pais, mães, crianças, tendo passado pelo que passou, suas vidas destruídas, e as pessoas não conseguem sentir um mínimo de empatia? Desculpe, eu não consigo sentir (indiferença).
- - ↓ Continua após o recado ↓ - -
E por que o desabafo?

Na sequência, o teor da conferência de imprensa retornou ao futebol até que um jornalista fez um último questionamento a Pep Guardiola: havia algum motivo para ele estar falando sobre o que está acontecendo na sociedade civil?
— Não apenas pelo genocídio na Palestina. Qualquer causa que possa colocar a humanidade em um lugar melhor… Por muitos anos eu fui um apoiador da Open Arms (organização beneficente espanhola), aqui vestindo roupas, enquanto as pessoas vão para o Mediterrâneo, fugindo de seus países por causa das guerras, as pessoas têm que fugir de seus países, entrar no mar e ir para lá em um barco para tentar ser resgatadas.
— Não pergunte se está certo ou errado, salve-o! Trata-se do ser humano.
— Depois podemos concordar, criticar uma coisa ou outra, mas quando você tem uma ideia, precisa expressá-la, mas quando as pessoas estão morrendo, você precisa ajudá-las. Proteger a vida é a única coisa que temos. Eu não estava feliz — seguiu o técnico espanhol.
— O que acontece agora, com todos os avanços tecnológicos que temos? A humanidade está melhor do que nunca em termos de possibilidades, podemos chegar à Lua, podemos fazer tudo, mas ainda assim nos matamos uns aos outros. Por quê?
— Eu vejo as imagens e sinto muito, isso dói em mim, por isso, em todas as posições que posso, me manifesto para construir uma sociedade melhor. Não vou mudar nada, mas tento. Estarei lá. Sempre — reconheceu Guardiola.
O treinador do Manchester City usou como referência os casos de Renée Good e Alex Pretti, mortos a tiros por agentes do ICE em meio à escalada da tensão nos EUA. O espanhol perguntou como alguém “pode defender isso?”.
— É pelos meus filhos, pela minha família. Por vocês, pelas suas famílias também. Pelos filhos e famílias dos meus jogadores, por toda a minha equipe. Cada um pode fazer o que puder no seu trabalho, na sua vida, para ser o melhor. Do meu ponto de vista, (para ter) justiça, você tem que conversar.
— Se você fizer algo errado, tudo bem, vá ao tribunal, seja processado, vá para a cadeia se algo estiver errado, é assim que funciona no mundo moderno.
— Não existe sociedade perfeita, eu não sou, ninguém é. Mas você precisa trabalhar para chegar a um lugar melhor. Uma pessoa que vai lá defender uma mulher é cercada e morta por isso. Quem pode defender isso? Eu não sei. Eu sempre estarei na linha de frente — concluiu Pep Guardiola.
Guardiola é defensor da Palestina

Essa não foi a primeira vez que o técnico espanhol se posicionou a favor da Palestina. Em diversas entrevistas, Guardiola classificou que o acontece em Gaza é um genocídio, termo também é utilizado pela ONU para caracterizar a atuação de Israel na região.
Na semana passada, por exemplo, o treinador dos Citizens participou do evento “Act x Palestine”, voltado para ajuda humanitária à Palestina. O espanhol fez um discurso em defesa às crianças da Faixa de Gaza, que têm sofrido as consequências dos bombardeios.
— O que penso quando vejo uma criança nesses dois últimos anos, nessas imagens em redes sociais ou na televisão, perguntando onde está a mãe, em meio a escombros, e ela ainda não sabe… Eu sempre me preocupo: no que elas estão pensando? Nós as deixamos sozinhas, abandonadas — disse Pep Guardiola


