Inglaterra

Guardiola: ‘Será que existe quem veja as imagens do genocídio na Palestina e não se afete?’

Técnico do Manchester City fez longo desabafo sobre problemas do mundo atual e se solidarizou com vítimas dos conflitos políticos

O Manchester City enfrenta o Newcastle pelo jogo de volta da semifinal da Copa da Liga Inglesa. Como de praxe, Pep Guardiola compareceu à coletiva para responder às perguntas dos jornalistas antes da bola rolar. Contudo, o técnico espanhol não quis se limitar ao futebol.

Tudo começou quando Guardiola foi questionado sobre as críticas à arbitragem inglesa por supostos erros frequentes contra os Citizens. Após falar sobre sua equipe e as atuações da temporada, o treinador de 55 anos fez um desabafo sobre os conflitos ao redor do mundo e o sofrimento humano.

O espanhol começou dizendo que “nunca na história existiram informações tão claras” quanto agora. Pep Guardiola se referiu ao genocídio na Palestina, à guerra entre Rússia e Ucrânia, aos conflitos no Sudão e às ações truculentas do ICE (Agência de Imigração e Fronteiras) nos Estados Unidos.

— O que aconteceu diante de nós. Vocês querem ver? É um problema nosso, como seres humanos. No fim das contas, são as imagens que importam, não a interpretação de uma boa ou má jogada, ou se você deveria escalar este ou aquele jogador — começou o técnico espanhol.

Guardiola se posiciona sobre assuntos humanitários

Na mesma resposta, Guardiola voltou a tratar sobre o Manchester City e a Premier League. Pouco depois, um repórter perguntou ao treinador dos Citizens porque assuntos humanitários envolvendo Palestina, Sudão e Rússia eram importantes para ele ao ponto de abordar os temas publicamente.

— Agradeço, porque é a primeira vez em 10 anos que um jornalista me pergunta sobre isso. Parece que não me é permitido fazer isso no meu trabalho, não sei. Mas será que existe quem veja as imagens do mundo todo e não se afete? — ponderou o espanhol.

— Não se trata de certo ou errado. Isso me machuca. Para mim, dói. Se fosse o lado oposto, também me machucaria. Desejar o mal para outro país? Isso me machuca. Não se trata de posição. Me desculpem, este é o meu sentimento — continuou.

A morte de milhares de pessoas inocentes me dói. Tenho muitos amigos de muitos países, mas quando você tem uma ideia e precisa defendê-la, e isso significa matar milhares de pessoas, me desculpem, eu vou me levantar, sempre estarei lá. Sempre.

— Não consigo imaginar como alguém pode não sentir isso, ao ver as imagens todos os dias, pais, mães, crianças, tendo passado pelo que passou, suas vidas destruídas, e as pessoas não conseguem sentir um mínimo de empatia? Desculpe, eu não consigo sentir (indiferença).

- - Continua após o recado - -

Assine a newsletter da Trivela e junte-se à nossa comunidade. Receba conteúdo exclusivo toda semana e concorra a prêmios incríveis!

Já somos mais de 4.800 apaixonados por futebol!

Ao se inscrever, você concorda com a nossa Termos de Uso.

E por que o desabafo?

Protesto nos Estados Unidos contra ação do ICE (Foto: Imago)
Protesto nos Estados Unidos contra ação do ICE (Foto: Imago)

Na sequência, o teor da conferência de imprensa retornou ao futebol até que um jornalista fez um último questionamento a Pep Guardiola: havia algum motivo para ele estar falando sobre o que está acontecendo na sociedade civil?

— Não apenas pelo genocídio na Palestina. Qualquer causa que possa colocar a humanidade em um lugar melhor… Por muitos anos eu fui um apoiador da Open Arms (organização beneficente espanhola), aqui vestindo roupas, enquanto as pessoas vão para o Mediterrâneo, fugindo de seus países por causa das guerras, as pessoas têm que fugir de seus países, entrar no mar e ir para lá em um barco para tentar ser resgatadas.

— Não pergunte se está certo ou errado, salve-o! Trata-se do ser humano.

— Depois podemos concordar, criticar uma coisa ou outra, mas quando você tem uma ideia, precisa expressá-la, mas quando as pessoas estão morrendo, você precisa ajudá-las. Proteger a vida é a única coisa que temos. Eu não estava feliz — seguiu o técnico espanhol.

— O que acontece agora, com todos os avanços tecnológicos que temos? A humanidade está melhor do que nunca em termos de possibilidades, podemos chegar à Lua, podemos fazer tudo, mas ainda assim nos matamos uns aos outros. Por quê?

— Eu vejo as imagens e sinto muito, isso dói em mim, por isso, em todas as posições que posso, me manifesto para construir uma sociedade melhor. Não vou mudar nada, mas tento. Estarei lá. Sempre — reconheceu Guardiola.

O treinador do Manchester City usou como referência os casos de Renée Good e Alex Pretti, mortos a tiros por agentes do ICE em meio à escalada da tensão nos EUA. O espanhol perguntou como alguém “pode defender isso?”.

— É pelos meus filhos, pela minha família. Por vocês, pelas suas famílias também. Pelos filhos e famílias dos meus jogadores, por toda a minha equipe. Cada um pode fazer o que puder no seu trabalho, na sua vida, para ser o melhor. Do meu ponto de vista, (para ter) justiça, você tem que conversar.

— Se você fizer algo errado, tudo bem, vá ao tribunal, seja processado, vá para a cadeia se algo estiver errado, é assim que funciona no mundo moderno.

— Não existe sociedade perfeita, eu não sou, ninguém é. Mas você precisa trabalhar para chegar a um lugar melhor. Uma pessoa que vai lá defender uma mulher é cercada e morta por isso. Quem pode defender isso? Eu não sei. Eu sempre estarei na linha de frente — concluiu Pep Guardiola.

Guardiola é defensor da Palestina

Pep Guardiola durante o evento "Act x Palestine", em Barcelona (Foto: Imago)
Pep Guardiola durante o evento “Act x Palestine”, em Barcelona (Foto: Imago)

Essa não foi a primeira vez que o técnico espanhol se posicionou a favor da Palestina. Em diversas entrevistas, Guardiola classificou que o acontece em Gaza é um genocídio, termo também é utilizado pela ONU para caracterizar a atuação de Israel na região.

Na semana passada, por exemplo, o treinador dos Citizens participou do evento “Act x Palestine”, voltado para ajuda humanitária à Palestina. O espanhol fez um discurso em defesa às crianças da Faixa de Gaza, que têm sofrido as consequências dos bombardeios.

— O que penso quando vejo uma criança nesses dois últimos anos, nessas imagens em redes sociais ou na televisão, perguntando onde está a mãe, em meio a escombros, e ela ainda não sabe… Eu sempre me preocupo: no que elas estão pensando? Nós as deixamos sozinhas, abandonadas — disse Pep Guardiola

Foto de Matheus Cristianini

Matheus CristianiniRedator

Jornalista formado pela Unesp, com passagens por Antenados no Futebol, Bolavip Brasil, Minha Torcida e Esportelândia. Na Trivela, é redator de futebol nacional e internacional.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo