Fiasco do Liverpool e desprezo do United expõem descaso com futebol feminino na Inglaterra
Equipes femininas de futebol sofrem com falta de investimentos e descaso dos proprietários
A humilhante derrota sofrida pelo Liverpool por 9 a 1 para o Chelsea na Copa da Liga Inglesa Feminina escancarou a direção desastrosa dos proprietários dos Reds, o Fenway Sports Group. O clube não fez grandes investimentos na janela de transferências do verão europeu, ao contrário do time masculino, que recebeu o investimento de 400 milhões de libras.
Precisando lidar com a campanha vexatória na WSL e amargando a última colocação no Campeonato Inglês, a equipe comandada por Gareth Taylor ainda não venceu na competição e soma apenas três pontos após onze jogos.
Comedido nos comentários sobre o momento do clube, o técnico falou pela primeira vez sobre a os resultados e a necessidade de reforços na janela de transferências de janeiro.
— Acho que este time precisa de ajuda. Eu preciso de ajuda. Acho que não há dúvida de que regredimos como equipe, muito mais do que se espera de um clube como o Liverpool — declarou.
Em meio ao cenário caótico, o Liverpool concretizou a venda recorde de Olivia Smith para o Arsenal, mesmo destino de Taylor Hinds. Saídas que foram sentidas por uma equipe já abalada pela mortes trágicas do ex-técnico Matt Beard e do roupeiro Jonathan Humble.
A sucessão de Matt Beard veio justamente com Gareth Taylor, que precisou implementar o seu estilo de jogo apenas um mês antes de iniciar a temporada. É fato que, com as circunstâncias dadas, o atual comandante ainda não conseguiu se provar.
Ao longo da temporada, os Reds disputaram 15 jogos, perderam nove, empataram em três ocasiões e venceram três. As únicas vitórias aconteceram na Copa da Liga contra adversários da segunda divisão (Sunderland, Durham e Sheffield United) e a derrota por 9 a 1 para o Chelsea expôs a significante queda de desempenho.
A ponta de esperança deve acontecer na janela de transferências de janeiro. De acordo com o “The Telegraph”, o Liverpool entrou em contato com jogadoras e planeja investir.
No entanto, alguns dos nomes com os quais o clube teria entrado em contato atualmente jogam em times da Champions League e não são realisticamente contratáveis.
Para a tranquilidade dos Reds, nenhuma equipe será rebaixada automaticamente da WSL nesta temporada. A primeira divisão será expandida para 14 equipes na temporada 2025/26, portanto, o clube que terminar em último lugar disputará um playoff com o terceiro colocado da WSL 2.
Descaso se repete no Manchester United
O descaso não ficou exclusivamente com o último colocado da WSL. O Manchester United, que vive um ótimo momento na WSL, ocupando a quarta colocação, também tem tratamento distinto pelos donos do clube e proprietários da INEOS.
A empresa voltada para a indústria química e que tem como fundador Jim Ratcliffe, investiu 2,5 bilhões de libras nos últimos oito anos em esportes como futebol, ciclismo, vela e corrida.
No entanto, quando se refere ao futebol feminino, Ratcliffe falou abertamente sobre o seu tratamento diferente com relação às duas equipes. O empresário afirmou repetidamente que seu foco tem sido o time masculino do United porque é isso que “faz a diferença”, durante declaração à “BBC Sport” em março.
De acordo com “The Athletic”, as contas do United em 2023/24 mostram que o clube perdeu 130,7 milhões de libras (cerca de R$ 976 milhões) e que a equipe feminina foi responsável por apenas 0,08%.

Especialistas financeiros da empresa de consultoria e auditoria Deloitte, ouvidos pelo jornal inglês, informaram que a previsão é de que as receitas nos esportes de elite femininos aumentem 240% entre 2022 e 2025.
Ainda segundo a empresa, a projeção é de que as receitas globais alcancem pelo menos 2,35 bilhões de dólares (R$ 13 bilhões) este ano.
O levantamento da Deloitte afirmou que os dois esportes que mais geram receita são o basquete e o futebol, e, embora esse crescimento previsto não se estenda a todas as modalidades, “o crescimento do esporte feminino continua superando as expectativas”.
No futebol, além de ser coproprietária do Manchester United, a INEOS é dona do suíço Lausanne e do francês Nice desde 2017 e 2019, respectivamente. Os três clubes possuem equipes femininas, e as duas últimas exibem o logotipo da empresa em seus uniformes.

No caso do Nice, em novembro de 2023 o então gerente geral do Nice, Jean-Luc Donati, declarou ao jornal local Nice-Matin que mais meninas do que meninos estavam inscritas nas categorias de base do clube.
Donati afirmou que o seu objetivo era que a equipe feminina principal chegasse um dia à primeira divisão e se mantivesse nela. Na temporada 2023/24, o time feminino do Nice terminou em quarto lugar na segunda divisão francesa.
A nível de comparação, o orçamento da equipe principal masculina do Nice é estimado em cerca de 70 milhões de libras (R$ 526 milhões). Já o do time feminino antes da temporada 2024/25 era de cerca de 1,4 milhões de libras (R$ 10 milhões), mas a INEOS reduziu esse valor para 1 milhão de libras (R$ 7 milhões).
Já no Manchester United, o investimento na equipe feminina nas temporadas de 2022/23 e 2023/24 foi de 16 milhões de libras, segundo as contas do clube. Esse valor chega a ser inferior ao do Manchester City (18 milhões de libras) e insignificante se comparado aos gastos de Arsenal (26 milhões de libras) e Chelsea (33 milhões).



