Inglaterra

Klopp, Liverpool e comunismo: qual a relação dos três (sim, existe uma)?

Tal qual a cidade de Liverpool e o clube de mesmo nome, Jürgen Klopp também se identifica com os ideais socialistas

A manhã desta sexta-feira (26) na Inglaterra e em todo o mundo do futebol foi marcada pelo anúncio de que Jürgen Klopp deixará o Liverpool ao fim da temporada 2023/24. Com a contagem regressiva para o fim da passagem do treinador pelos Reds já iniciada, é inevitável relembrar muitos dos momentos colecionados pelo alemão nos últimos oito anos e três meses — além, claro, dos títulos. Uma das histórias mais inusitadas do técnico neste período em Merseyside é sobre sua relação e a do clube de Anfield com os ideais de esquerda (ou comunistas aos mais extremistas).

Tudo começa com uma simples e tradicional bandeira da torcida do Liverpool. Na goleada por 4 a 1 sobre o Norwich pela primeira rodada da Premier League 2019/20, em Anfield, uma habitual faixa em homenagem àqueles considerados os maiores treinadores da história do clube foi estendida no setor The Kop com uma novidade. Junto dos rostos de Bill Shankly, Bob Paisley, Joe Fagan, Kenny Dalglish e Rafa Benítez estava também o de Klopp, em clara alusão aos pôsteres de propaganda comunista no século anterior nos quais Karl Marx e Friedrich Engels costumavam aparecer enfileirados.

Além de ser uma homenagem para técnicos que conquistaram títulos europeus com os Reds ou elevaram o clube de patamar, a bandeira também diz respeito a conexão dos históricos comandantes com Liverpool. Neste último caso, a ligação de Jürgen Klopp com a cidade também tem relação com os ideais “esquerdistas”, já que o alemão se declara social-democrata com ideias de centro-esquerda e já disse publicamente que nunca votaria “na direita”.

— Eu sou de esquerda, naturalmente. É melhor ser de esquerda do que de centro. Eu acredito no Estado de bem-estar social. Não tenho plano de saúde privado. Jamais votaria num partido que promete baixar os impostos. Assim como eu vivo bem, quero que os outros também vivam bem. Se existe alguma coisa que jamais faria na minha vida, é votar na direita — pontuou o treinador na sua biografia escrita pelo também alemão Raphael Honigstein.

Não é preciso dizer o quanto Liverpool se identifica com a esquerda no espectro político. A cidade é uma das mais socialistas da Inglaterra, com histórico ligado ao movimento operário, de muita atividade portuária e conhecida por ter entrado em conflito com a antiga conservadora primeira-ministra Margaret Thatcher nos anos 80 pelas políticas neoliberais e de austeridade que culminaram no aumento do desemprego, número de mortes e revoltas no local.

A ligação do clube com o socialismo

Naturalmente, a ideologia da cidade de Liverpool faz parte do clube de mesmo nome. O sentimento socialista e anti-conservador entre os fãs dos Reds só ficou ainda mais aflorado em 1989, já no fim da Era Thatcher, com o desastre de Hillsborough e morte de 96 torcedores. Na ocasião, o governo se isentou da responsabilidade da tragédia apesar das muitas acusações de negligência e culpou os próprios torcedores pelo ocorrido. Dá para entender por quais motivos a saída da Dama de Ferro em 1990 foi celebrada em Anfield, assim como sua morte em 2013.

Por mais que o governo de Margaret Thatcher tenha terminado há mais de 30 anos, a relação do clube com os ideais de esquerda não ficou apenas no passado. Peter Moore, antigo CEO do Liverpool, concedeu entrevista ao El País em 2019 afirmando que o sucesso da equipe estava baseado no socialismo. Chamado de “lenda do marketing” por desenvolver consoles da SegaMicrosoft e Electronic Arts, o ex-executivo nasceu na cidade localizada no noroeste da Inglaterra e destacou a importância do lendário Bill Shankly ao falar sobre os conceitos do time.

— Como expert em marketing, quis desvendar o que significava exatamente. Dizer que o Liverpool é único não significa muito. Real Madrid e Barcelona, Borussia Dortmund e Bayern de Muniquesão especiais também. Então, como nos diferenciamos disso? Tivemos essa incrível figura história: Bill Shankly, um socialista escocês. Inclusive hoje, quando falamos de negócios, nos perguntamos: ‘O que faria Shankly? O que diria Bill nesta situação?’. Era um verdadeiro socialista que acreditava que o futebol consistia em trabalhar juntos — afirmou Moore.

Considerado o maior treinador da história do clube, Bill Shankly tirou o Liverpool da segunda divisão inglesa e o recolocou no caminho das vitórias, faturando três ligas inglesas, duas Copas da Inglaterra, três Supercopas nacionais e uma Copa da Uefa em 15 temporadas. Além dos títulos e do patamar de potência do futebol, o escocês ainda deixou um legado ideológico, estabelecendo o conceito de comunidade, a ligação com os seus torcedores de maioria operária e a criação de um espírito familiar entre jogadores, funcionários e população. Tudo isso antes mesmo do início do governo de Margaret Thatcher.

Shankly era assumidamente um militante do Partido Trabalhista (Labour Party) e é o primeiro rosto na bandeira exibida no The Kop e que passou a ter a imagem de Jürgen Klopp de uns anos para cá. Muito por sua influência, os torcedores do Liverpool são chamados de Exército Vermelho (The Red Army) e ligados ao partido político social-democrata de centro-esquerda do Reino Unido.

— O socialismo em que eu acredito não é realmente política, é uma maneira de viver. É humanismo. Acho que a única maneira de viver e ter realmente sucesso é pelo esforço coletivo, com todo mundo trabalhando junto, se ajudando e compartilhando a recompensa no final. Assim eu vejo o futebol e assim eu vejo a vida — disse Bill Shankly em uma de suas mais célebres declarações.

Peter Moore, inclusive, vê semelhanças entre o treinador escocês falecido em 1981 e Klopp. Para o antigo CEO, ambos foram feitos para o Liverpool e incorporaram perfeitamente os elementos socialistas tão presentes no clube.

— Ele (Jürgen Klopp) já é um clássico de Liverpool. Ele se inclina mais à esquerda que à direita. Uma vez, Shankly disse: “Eu fui feito para o Liverpool e o Liverpool estava feito para mim”. Klopp pode dizer exatamente o mesmo. Entende perfeitamente os elementos socialistas que impregnam o clube e a cidade, os desafios que emocionam e o que significa o clube para muita gente que não tem a oportunidade de ter nada melhor na vida do que o amor pelo clube. Durante uma época, o símbolo da cidade foram os Beatles. Hoje, é o futebol — concluiu Moore ao El País.

Foto de Felipe Novis

Felipe NovisRedator

Felipe Novis nasceu em São Paulo (SP) e cursa jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Antes de escrever para a Trivela, passou pela Gazeta Esportiva.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo