Inglaterra

Guia da Premier League 2021/22 – Liverpool: O ciclo chegou ao fim? Hora de descobrirmos

Após uma temporada extremamente acidentada, o Liverpool reforçou a defesa, mas ainda conta com praticamente o mesmo time para tentar reconquistar a Inglaterra

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Cidade: Liverpool
Estádio: Anfield Road (53.394 pessoas)

A temporada passada – 3º lugar

Encontre o torcedor mais pessimista da história do Liverpool, peça para ele imaginar a pior defesa de título possível e multiplique por cinco: foi assim a primeira temporada em 30 anos que os Reds disputaram como os atuais campeões da Inglaterra. Chegou a ser enorme a probabilidade que nem terminassem entre os quatro primeiros, o que representaria um forte abalo financeiro a um clube que já trabalha com um orçamento mais restrito que os seus principais adversários.

Agora que o pior foi evitado, a temporada que o Liverpool teve é compreensível por mais de um ângulo. A começar pelo anímico: o título da Premier League, quebrando um jejum de 30 anos, depois de conquistar a Champions League e o Mundial de Clubes, passou uma sensação de finalidade. Foram claros os desgastes mental e físico, e não havia torcedores na campanha seguinte para energizar os jogadores.

Esse tipo de entressafra, digamos assim, não é incomum em ciclos vitoriosos, o Manchester City teve a dele também, e se era para “desperdiçar” uma temporada, que fosse realmente aquela, toda estranha, com calendário aglomerado e sem torcida, e que foi comprometida já na quinta rodada, quando Virgil Van Dijk se machucou contra o Everton.

Sempre foi um debate interessante se a defesa do Liverpool melhorou apenas por causa de Van Dijk ou se houve uma melhora coletiva também ou se foi tudo combinado com as chegadas de Fabinho e Alisson ou um pouco de cada coisa, a hipótese mais provável. A ausência do holandês não resolve a questão, mas enfatizou o tamanho da sua influência.

Com a saída de Dejan Lovren, o Liverpool riu na cara do destino ao não contratar um zagueiro para substituí-lo, e o destino, ofendido, se vingou. Além de Van Dijk, Joel Matip e Joe Gomez também sofreram lesões que encerraram suas temporadas precocemente. O deslocamento de Fabinho à defesa pareceu uma ótima ideia em um primeiro momento, mas depois ficou claro o quanto isso influenciava em toda a engrenagem do time. Henderson chegou a atuar ali, antes de também mudar seu escritório para a enfermaria.

O Liverpool teve duas dúzias de duplas de zaga diferentes – nem é uma hipérbole: em fevereiro a contagem estava em 18 – e ainda ficou alguns meses sem Diogo Jota e Thiago, contratados especificamente para inserir sangue novo a um time que atua junto há muito tempo. Tudo isso somado às fases ruins de Sadio Mané, Roberto Firmino e Trent Alexander Arnold praticamente impossibilitou uma boa campanha vermelha.

Ainda assim, até o Natal, parecia que tudo corria bem. Havia um acidente de percurso, aquele 7 x 2 para o Aston Villa, mas a goleada sobre o Crystal Palace em 19 de dezembro confirmou o Liverpool na liderança e, com o City ainda patinando, parecia que pintava um favorito ao título. Daí em diante, vieram cinco jogos sem vitória em que o time marcou apenas um gol, a queda das 68 partidas de invencibilidade em Anfield contra o Burnley, a eliminação na Copa da Inglaterra para o Manchester United e derrotas pesadas em sequência para City (4 x 1) e Leicester (3 x 1). A dez rodadas do fim, o Liverpool havia acabado de perder do Fulham e parecia sem rumo.

Mas, apesar da eliminação para o Real Madrid na Champions League, Klopp conseguiu reagrupar os seus jogadores. Fixou uma dupla de zaga com os garotos Rhys Williams e Nat Phillips – que tem 24 anos, mas como é formado na base e mal havia atuado no time principal ainda pode legalmente ser chamado de garoto – e conquistou 26 dos últimos 30 pontos para terminar em terceiro lugar, sabe-se lá como com a quarta melhor defesa da liga.

Klopp tem se esforçado bastante para exaltar essa reta final como um sinal de que o time que montou cuidadosamente, peça a peça, desde que assumiu o Liverpool ainda tem alguns truques na manga.

Mercado

Principais chegadas: Ibrahima Konaté (RB Leipzig)
Princiais saídas: Georginio Wijnaldum (PSG), Marko Grujic (Porto), Taiwo Awoniyi (Union Berlim) Harry Wilson (Fulham)

Klopp e o diretor Michael Edwards estariam vulneráveis a um processo por negligência profissional caso não contratassem um zagueiro, depois de tudo que passaram na última temporada. Como em outros mercados mais movimentados do Liverpool, Ibrahima Konaté foi anunciado assim que as férias começaram. Jogador de 22 anos, com força física, técnica e velocidade, ele tem o potencial de finalmente ser um parceiro oficial de Van Dijk e ancorar a defesa vermelha em uma futura reformulação. O lado negativo? Pois é: ele se machuca bastante. Fez apenas 32 dos seus 95 jogos pelo RB Leipzig nos últimos dois anos.

Por enquanto, é o único negócio fechado pelo Liverpool que, com as contas prejudicadas pela pandemia como todo mundo que não tem acesso a poços de petróleo, está tentando vender algumas peças excedentes para financiar futuros reforços. Aguarda propostas por Divock Origi e Xherdan Shaqiri que provavelmente se tornarão um novo meia para o lugar de Wijnaldum, talvez também mais um atacante reserva.

A prioridade tem sido renovar contratos do núcleo duro da equipe. Alexander-Arnold, Fabinho e Alisson já receberam os seus. Van Dijk e Salah devem ser os próximos. A situação de Jordan Henderson ainda é incerta. Está entrando nos dois últimos anos do seu vínculo e as negociações emperraram. Há especulações de que a diretoria pode tentar fazer dinheiro com ele agora para evitar perder outro jogador de graça, como aconteceu com Wijnaldum, o que, no caso do capitão do Liverpool, causaria uma nova revolta contra o Fenway Sports Group.

O elenco

Ao mesmo tempo em que pouca coisa mudou, a defesa será completamente diferente da temporada passada porque se espera que os zagueiros adultos se mantenham saudáveis. Gomez e Van Dijk ainda devem ficar algumas semanas readquirindo ritmo de jogo antes de estrearem. A lesão de Andrew Robertson contra o Athletic Bilbao foi menos séria do que se imaginou inicialmente, mas ele ainda perderá algumas rodadas, o que abre uma oportunidade rara para o grego Kostas Tsimikas mostrar serviço.

Wijnaldum foi um dos principais nomes do meio-campo do Liverpool na última temporada, presente em todas as 38 rodadas da Premier League, e fará falta. Klopp, caso não contrate uma reposição, espera que Curtis Jones siga o seu desenvolvimento para ocupar esse espaço. Fabinho e Henderson são os dois pilares do setor, e a terceira vaga deve ficar com Thiago porque Naby Keita ainda não provou que consegue disputar cinco jogos completos em sequência desde que chegou à Inglaterra. James Milner e Oxlade-Chamberlain são duas boas opções de cobertura.

O ataque vocês sabem qual é, mas há algumas questões. Mané teve uma temporada fraca, mas a ideia é que melhore depois de conseguir tirar férias pela primeira vez na sua carreira como jogador do Liverpool – sem compromissos com a seleção – e Firmino está em uma queda prolongada de rendimento desde o Mundial de Clubes. Isso é importante porque Diogo Jota pediu passagem e pode concorrer a sério pela vaga de titular. O garoto Harvey Elliott pode entrar na rotação após impressionar em empréstimo ao Blackburn, e a única certeza mesmo é que Mohamed Salah continuará fazendo gols em profusão porque, se conseguiu mesmo na última temporada, não há motivos para duvidar.

O técnico 

Ainda um dos melhores do mundo, Jürgen Klopp pareceu tão cansado quanto seus jogadores na última temporada. Precisou lidar com questões extra-campo, como as traquinagens dos seus chefes com o projeto Big Picture e a Superliga Europeia, uma epidemia de lesões e, principalmente, a morte da mãe. Não pôde nem ir ao funeral devido às restrições por causa da pandemia. A maneira como conseguiu recuperar a temporada do Liverpool com aquela arrancada final foi impressionante e tudo que ele quer nesse momento é carregar aquela forma para o começo da nova campanha.

Expectativa para a temporada

Que o Liverpool precisa de sangue novo é indiscutível, mas a temporada deve dar a medida da quantidade: será uma transição lenta ou uma reformulação? Os resultados do último ano sugerem a primeira hipótese, mas as circunstâncias atenuantes nos impedem de saber com certeza. De qualquer maneira, a janela para as glórias não ficará aberta por muito tempo para esta equipe, cujos principais nomes se aproximam dos 30 anos, e é um pouco incômodo que todos os seus rivais tenham melhorado significativamente na pré-temporada. Por um ponto de vista, este ainda é o mesmo time que somou quase 200 pontos em duas temporadas, com os acréscimos de Thiago, Jota e Konaté. Por outro, todo ciclo chega ao fim, e esses jogadores terão que ser “mentalmente gigantes” mais uma vez para provar que o deles ainda está longe de acabar.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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