Gerrard defende que atletas estudem para ser treinadores já na metade de suas carreiras
Preso em um hotel, na primeira metade dos anos 2000, sem nada para fazer durante a tarde inteira após os treinamentos da seleção inglesa e passando o tempo assistindo a The Office e Sopranos. A descrição parece um pouco fantasiosa, mas segundo o próprio Steven Gerrard, é isso que o ídolo dos Reds fazia boa parte do tempo em que estava concentrado com os Three Lions. E esse é um dos grandes arrependimentos da carreira do meia, que, perto de pendurar as chuteiras, hoje deseja que tivesse usado todo aquele tempo livre para se preparar previamente para ser treinador. E Stevie G defende que seja assim com outros jogadores ingleses.
VEJA TAMBÉM: Uma lenda sabe reconhecer outra: Gerrard rasgou seda para Totti, “o rei de Roma”
Em entrevista ao jornal Telegraph, publicada nesta sexta-feira, Gerrard revelou que 2016 deverá ser seu último ano como jogador e que, após pendurar as chuteiras, concluirá seus cursos para treinador e passará um tempo vagando por clubes atrás de experiências que possam lhe capacitar para um dia assumir o posto de comandante de uma equipe. E esses planos poderiam estar mais adiantados se o inglês devotasse seu tempo na seleção para uma preparação prévia.
“Eu me arrependo de não ter começado meu curso como treinador aos 21 ou 22 anos. Todo aquele tempo desperdiçado em hotéis, como jogador da seleção inglesa, enquanto assistia a The Office e Sopranos. Queria ter tirado minha licença CBA naquela época, então agora eu estaria tirando minha licença pro”, contou Gerrard.
O ex-capitão do Liverpool afirmou que, recentemente, esteve com pessoas da Federação Inglesa e falou de sua ideia de oferecer cursos de treinador para atletas que já tenham um número considerável de jogos pela seleção inglesa. “Tive uma reunião com a FA e disse para não deixar esses jogadores que estão jogando uma certa quantidade de jogos pela seleção saírem do esporte. Façam mais para mantê-los envolvidos. Ofereça essas licenças de treinador quando eles são mais novos. Quando você está treinando, você termina às 13h. Faça os cursos durante a tarde, então, quando eles terminarem suas carreiras, estarão prontos para ser treinadores imediatamente e não precisarão começar de baixo e fazer todos os cursos chatos de treinador que há por aí”, explicou o jogador do Los Angeles Galaxy.
Gerrard lamenta que alguns de seus ex-companheiros de Liverpool não tenham seguido carreira no futebol como treinadores. Acredita que teriam muito a acrescentar ao esporte e vê Gary Neville, antigo rival, que há pouco assumiu o comando do Valencia, como um exemplo positivo: “Caras como o Jamier Carragher e o Robbie Fowler têm muito a oferecer para você simplesmente deixá-los escapar. Admiro que o Gary Neville tenha dado o salto tão cedo, especialmente indo para um clube grande como o Valencia. O Gary era um dos caras que eu imaginava que pudesse assumir o posto de um time principal quando terminasse a carreira. Tiro o chapéu para ele, está sendo corajoso. Será uma grande experiência para ele.”
O ídolo dos Reds acha um grande desperdício por parte dos responsáveis pelo futebol inglês que ex-atletas com grande experiência não sejam seduzidos por algum tipo de proposta para que continuem sua contribuição dentro do futebol inglês. Gerrard cita o caso mais recente de Giggs no Manchester United, assumindo a posição de auxiliar na comissão técnica de Van Gaal, e o bem-sucedido caso de Guardiola no Barcelona como exemplos de clubes que oferecem seu espaço para a continuidade de ídolos no futebol, já em outra função. “Eles deveriam estar recebendo ofertas irrecusáveis. Se um jogador tem 100 jogos pela seleção inglesa e 700 jogos por clubes, como um clube e a FA podem deixá-lo escapar? Ele tem tanto a oferecer.”
O próprio Gerrard reconhece que poderia ter continuado no Liverpool, mas que gostaria de ter recebido uma proposta do tipo, que vislumbrasse sua aposentadoria como jogador e introdução como membro da comissão técnica para que começasse seu desenvolvimento como treinador. “Eu certamente poderia ter me tornado um jogador de elenco ou assinado uma renovação de um ano. Penso que, se tivesse assinado, teria que ser um plano de curto, médio e longo prazos para mim no Liverpool, em vez de apenas me tornar um jogador de elenco. Eu tive uma conversa com o Klopp. Não tive uma oferta do tipo (de fazer parte da comissão), mas o clube me avisou que que eles estão ansiosos para que eu volte, mas não houve uma conversa em que eles dissessem: ‘Queremos que você faça isso e aquilo’.”
O meia do Los Angeles Galaxy estimou que a partir de novembro deste ano começará a transitar por clubes para acumular experiência e que deixará bem claro sua disponibilidade para algum projeto como treinador. “Quando eu voltar para casa, vou seguir com meu trabalho como comentarista e tentar passar por vários clubes e ganhar experiência. Assistir a treinadores e aprender mais. Estarei basicamente disponível em novembro ou dezembro de 2016. Todos no mundo do futebol saberão que estarei disponível, e espero estar com 75% do meu curso para treinador concluídos”, contou.
Apesar da carreira grandiosa como jogador, do prestígio quase incomparável que conquistou nas últimas duas décadas e da grande vontade de fazer sua transição de funções no futebol dar certo, Gerrard mantém os pés no chão. Conhece como poucos as nuances do mundo da bola e já imagina qual será um dos grandes desafios: “Tenho sonhos e aspirações em começar a treinar, mas no momento não estou nem perto de ser treinador. Quando você começa seus cursos de treinador, você percebe que é muito diferente. Você está em controle de 25 homens com egos diferentes.”



