Inglaterra

Por que Federação Inglesa quer banir Paquetá para sempre?

O meia do West Ham teria sofrido de propósito quatro cartões amarelos em jogos da Premier League, algo que pode render banimento do futebol

Menos de três semanas após a Federação Inglesa (FA, na sigla em inglês) indiciar Lucas Paquetá pelo suposto envolvimento em um esquema de apostas, uma nova informação jogou uma bomba no caso.

Segundo o jornal inglês The Sun, a FA quer banir para sempre o jogador brasileiro por conta dos quatro cartões amarelos que teria forçado, em jogos de 2022 e 2023 da Premier League, para benefício de apostadores.

Os promotores da federação entendem que, se provado, a acusação é tão grave que seria o caso para banimento pelo resto da vida do esporte.

Lembrando que, normalmente, essas punições são válidas para o mundo todo quando a confederação local aciona a Fifa. Sandro Tonali, por exemplo, foi suspenso por 10 meses pela Federação Italiana de Futebol por apostar quando estava no Milan e ficou fora dos gramados já no Newcastle, da Inglaterra.

Ainda segundo a publicação, cerca de 60 pessoas teriam apostados em um ou todos os cartões sofridos pelo brasileiro, todas apostas feitas na Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro, onde nasceu o meia do West Ham. Os valores variam entre sete e 400 libras, com ganhos totais de 100 mil libras.

A apuração da Federação Inglesa iniciou no meio do ano passado após receber um alerta de integridade de empresas de apostas pelo alto número de bets feitas na ilha do Paquetá.

Ironicamente, a empresa Betway, patrocinadora master da camisa dos Hammers, foi quem emitiu o primeiro alerta sobre a suspeita.

O prazo inicial para responder às acusações era 3 de junho, mas a defesa do brasileiro conseguiu estender a data.

O caso ainda deve perdurar por um bom tempo, segundo The Sun. Por envolver coleta de dados em outro país, no caso o Brasil, e poder para sempre definir a carreira de um atleta, ainda haverá muita apuração.

Quando Ivan Toney, do Brentford, foi suspenso por oito meses por apostar em partidas, durou seis meses entre a acusação e o veredito de culpa.

Casos próximos ao de Paquetá na Inglaterra renderam punições pesadas

Para encontrarmos um caso recente próximo ao do brasileiro no futebol inglês, precisamos voltar para outubro de 2022.

Na ocasião, Kynan Isaac, ex-Luton Town e então no Stratford Town, recebeu uma gigante sanção de 10 anos banido do futebol por receber um cartão amarelo, após combinar com amigos que faria a infração, na derrota por 5 a 1 para o Shrewsbury Town pela Copa da Inglaterra.

Ele também foi punido com outros 30 meses por apostas esportivas em outras partidas e penalizações por não cumprir as regras, totalizando mais de 12 anos de banimento.

Já em abril de 2018, o zagueiro Bradley Wood foi suspenso por seis anos após sofrer dois cartões amarelos de propósito nas partidas contra Ipswich Town e Burnley, ambas pela FA Cup, quando defendia o Lincoln City na temporada 2016/17.

Um tribunal da FA considerou o atleta culpado, garantindo que sete pessoas, sendo dois amigos próximos, apostaram que ele receberia cartão amarelo naquelas partidas. Ele negou a acusação.

A manipulação da ação do jogo rendeu ao atleta cinco anos de banimento e ainda recebeu mais um ano de punição por admitir 22 acusações de apostas no resultado de jogos e uma acusação de transmissão de informação. Em março desse ano, Wood terminou de cumprir totalmente a suspensão, mas segue sem clube.

Comparado ao caso da dupla, a situação de Paquetá é ainda mais grave por envolver quatro supostos cartões.

Quais são os jogos que o brasileiro é acusado de receber cartões de propósito?

  • West Ham 0 x 2 Leicester – 12 de novembro de 2022 – Paquetá recebeu cartão amarelo aos 60 minutos, quando o placar estava 1 a 0, após falta em Boubakary Soumare
  • West Ham 1 x 1 Aston Villa – 12 de março de 2023 – Paquetá recebeu cartão amarelo aos 70 minutos, quando o placar estava 1 a 1, após falta em John McGinn
  • West Ham 3 x 1 Leeds United – 21 de maio de 2023 – Paquetá recebeu cartão amarelo aos 65 minutos, quando o placar estava 1 a 1, após falta em Crysencio Summerville
  • West Ham 1 x 1 Bournemouth – 12 de agosto de 2023 – Paquetá recebeu cartão amarelo aos 94 minutos, quando o placar estava 1 a 1, por colocar a mão na bola.

O que diz a FA?

No indiciamento publicado em 23 de maio, a FA publicou que Lucas Paquetá teria violado as regras E5 e F3 do futebol inglês por tentar influenciar diretamente no jogo com os cartões, além de supostamente não ter fornecido as informações necessárias.

Lucas Paquetá, do West Ham United, foi acusado de má conduta em relação a supostas violações das Regras E5 e F3 da FA. […] Alega-se que ele procurou influenciar diretamente o progresso, conduta ou qualquer outro aspecto ou ocorrência nessas partidas, buscando intencionalmente receber um cartão do árbitro com o propósito indevido de afetar as apostas mercado para que uma ou mais pessoas lucrem com as apostas.

  • F3: Qualquer falha por parte de um participante em cumprir qualquer requisito da Regra F2 pode constituir Má Conduta nos termos as Regras e a Associação podem apresentar uma acusação ou acusações que julgarem adequadas.
  • E5: Um Participante não deverá, direta ou indiretamente, tentar influenciar para um propósito impróprio o resultado, progresso, conduta ou qualquer outro aspecto ou ocorrência em ou em conexão com um jogo de futebol.

A regra F2, citada na F3, determina que “a FA terá o poder de exigir de qualquer participante mediante aviso razoável (…) seu comparecimento, (…) o fornecimento de informações, documentos ou qualquer outro material de qualquer natureza detido pelo participante” em prol de esclarecer a denúncia. Ter infringido esse ponto também significa que Paquetá não teria colaborado com a investigação da maneira que a entidade exige.

Segundo um documento da FA, intitulado “Conheça as regras: apostas, manipulação de resultados e informações privilegiadas”, a comprovação que algum atleta tenha manipulado alguma ação do jogo “provavelmente levará a uma suspensão significativa e, em alguns casos, a um banimento vitalício“. As regras valem para jogadores, técnicos, árbitros e outros funcionários dos clubes de todo o futebol inglês.

– Manipulação do jogo é organizar antecipadamente o resultado ou a condução de uma partida ou competição, ou qualquer evento dentro de uma partida ou competição. A manipulação é proibida e é tratada com muita seriedade – explica a FA. Aí, entrariam os cartões amarelos de Paquetá.

Como o meia brasileiro teria supostamente cedido a informação do cartão para outra pessoa apostar, também seria englobado como um caso de “informação privilegiada”, detalhada no documento como “qualquer tipo de informação que um agente do futebol fique sabendo por conta da sua participação no esporte e que não é divulgada publicamente”.

– Não é autorizado o uso dessa informação para fazer uma aposta ou instruir alguém que a faça, seja via oral, escrita ou posts nas redes sociais. O mensageiro pode ser punido até se ele não souber que a informação será usada em apostas – detalha outro ponto do documento.

Paquetá alega inocência

O brasileiro nega qualquer acusação e diz ter ficado até surpreso com a acusação. Ele garante colaborar com as investigações e afirma que irá “lutar para limpar” seu nome.

– Estou extremamente surpreso e chateado que a FA decidiu me acusar. Por nove meses, tenho cooperado com todos os passos da investigação e providenciei todas as informações necessárias. Eu nego as acusações por completo e lutarei com todas as forças para limpar o meu nome. – afirmou Paquetá em comunicado nas redes sociais, em 23 de maio

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.
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